Por Artur Alonso Novelhe
No passado dia 13 recebemos em Ourense o ilustre professor Higino Estevez Martins, que veio à Galiza para nos apresentar o seu último trabalho intitulado: As tribos Calaicas – Proto-história da Galiza a luz dos dados lingüísticos. O livro do professor Higino Martins, editado por Edições da Galiza, é um percurso pela configuração pré-romana da Kalláikia, com clareza, esforço e um pormenorizado estudo desde a toponímia, e a linguística galega pré-romana e a sua associação com outras línguas indo-europeias.
A luz da verdade pode estar coberta de trevas e, através de essas trevas, como nuvens que se vão acumulando num processo de séculos, pode-se chegar a apagar a memória dum orgulhoso e antanho altivo povo. Falámos, pois, neste dia, da identidade, ajudados pelo lápis mestre do professor, fomos afastando a brêtema que lentamente foi instalada nas nossas pupilas, até deixar a claridade do sol penetrar nas nossas renovadas retinas, e o que é muito mais importante, na nossa imaginação liberta de preconceitos.
A verdade é como as estrelas que jamais empalidecem, dissera o chefe Seattle no ano 1859, no seu famoso discurso ao então presidente dos Estados Unidos da América.
A verdade que não empalidece brotou da boca do professor Higino com um torrente manso e suave, com uma elegância própria de quem se sabe na posse dela, mas não está por ela possuído, e tem intenção de compartilhar, sem cansar ou aborrecer a plateia, com a sua profunda erudição, construída por anos de estudo, que vão do direito à filosofia, à história e à linguística.
O homem que foi capaz de criar uma gramática do céltico antigo comum, nunca esqueceu Galiza, a terra das suas maravilhas. Porque em mais duma ocasião a palavra maravilha saiu da sua boca, para demonstrar que o verdadeiramente assombroso não está no limites do além ou da magia, mas aqui muito perto de nós, e que com só um olhar detido poderíamos ter reparado, poderíamos ter descoberto a essência do nosso ser, a identidade que a história nos nega, que os medíocres quiseram sempre negar, por temor àqueles que são superiores em dignidade, modéstia, inteligência e fé. Fé na sua pátria, fé no seu povo, e no ser humano como artífice da sua própria superaçã.
Foi claro o professor, não avança com mordaças: a Kalláikia existiu como entidade unificada antes mesmo da Gallaecia figurar como sistema territorial romano, nos tempos de Caracalla e Dioceclano. Como a organização dos três conventus romanos é herdeira da organização territorial das Onaikoi: artrabros, grovios e asturicos.
Todo o cosmos cristaliza a partir de um centro, lembrava o professor na afirmação de Mircea Eliade, para logo desvendar o centro Kallaiko na cidade de Nemetrobiga, onde as três Onaikois faziam fronteira. Hoje situada num círculo de dois quilómetros arredor da Povoa de Trives.
Artabros os do Norte, os que assinala a Ursa Polar. Astures os do leste, e Grovios os das terras quentes.
Muitas outras verdades foram reveladas a quem teve a coragem de assistir, num dia tão inoportuno, sendo Sábado [13 de dezembro] e a climatologia não acompanhar, como as habilidades do imperador Augusto para substituir o Deus Lugus, no seu santuário, o local da «Lugunastada», bodas da Lugus com a terra. Por que era sabido que os celtas celebravam os seus festivais mais primordiais nas planícies ou chairas, seguindo o seu calendário e os solstícios de inverno, primavera ou verão; com a reunião das tribos, espetáculos e manifestações de tipo lúdico e cultural.
E arredor do lume também nós nos fomos juntado pelo amor e calor desprendido pelo professor, pelo homem que sabe comunicar a boa nova, a velha notícia que agora vemos renascer dentro da nossa alma como uma chama que nunca se há de apagar: A Nossa identidade.
Pertencemos, pois, a este povo, um povo milenar, um povo com o seu contínuo cultural além-Minho, além-mar. Ao Norte que assinalam os ártabros, pelo mar Atlântico, e os povos que compartilham pelos quatro pontos cardinais, a nossa luta por não desaparecer; a nossa língua que também nos permite ser e cria espaços internacionais para compreender e estimar também outros diferentes povos.
As Tribos Calaicas um livro que se tem de ler com o espírito aberto. Com o coração enraizado para chegar até aquele ponto de onde algum dia partimos, para de novo nos encontrar, depois de séculos sumidos na escuridão.
Um simples livro, não. Um regresso. Para saber de onde vimos, para poder seguir, sabendo até onde caminhamos.
Obrigado Professor Higino. Vai-se o homem, fica connosco o ser humano.
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