A meta-política ocidental

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Está o mundo a caminhar devagar rumo a um novo socialismo?

O maior estímulo para cometer faltas é a esperança de imunidade” (Cícero)

Manfred Riedel, em “Metafísica e Meta-política” defende o individualismo ocidental, como raiz duma nova civilização universal – diferenciando-a da visão mais comunitária do oriente. Situa Riedel o nexo original deste ideal político democrático – nascido polis “grega” e da superação do estado helenista e helenizador; junto com o modelo aristotélico do ideal humano: alma humana vista como racional inteligente. Para Riedel é a “ polis ou civitas” a cidade dos indivíduos emancipados, de onde arranca o conceito ocidental de cidadão, diferençado radicalmente do urbanismo asiático – oriental que traz consigo outra forma de entender o humanismo.

O conceito de cidadão tem esta “polis grega – civitas romana” seu fundamento. Os alicerces políticos da ética romana com Cícero e o sistema republicano como melhor forma de governo, são inerentes a seu desenvolvimento; acrescentado aqui os comentários escolásticos de Aristóteles.

No entanto para Aristóteles a escravatura como necessidade para sustentar a pirâmide social e, a hierarquia dirigente, como estrutura precisa para o comando e bom ordem sistémico, são na pratica indispensáveis para o bom funcionamento dessa ideia grega de polis.

Essa raiz Aristotélica é transformada no Ocidente numa nova forma de escravatura – a do proletário assalariado. A hierarquia mercantil financeira como dirigente preciso para organizar a estrutura social, o capitalismo globalizador como motor de progresso e o ceticismo extremo (individualismo niilista) como valor supremo moral. Em confronto com a nova perspetiva oriental de valores comunitários por cima do individual, onde o indivíduo move seu interesse pessoal em função da coletividade. Introduzindo aqui pela raiz bizantina do pensamento russo a visão de Platão, onde a escravatura é uma afronta contra o homem espiritual e seu “livre arbítrio” O homem como aplicador das ideias cósmicas na matéria é transcendente para Platão. O dualismo espírito-matéria está presente em ele. A razão do ser transcende ao mundo das ideias e ajuda na ordenação duma matéria irracional que tende ao caos.

A maiêutica – aprendizado é preciso, para o ser humano voltar usufruir daquele anterior conhecimento obtido na contemplação das ideias. Esse aprendizado torna ao ser humano livre. Dá-lhe mais possibilidade de escolhas, permite realizar melhor seu livre arbítrio. Negar-lhe o mesmo é constituí-lo objeto produtivo e consumidor – focar sua atenção na sobrevivência, em base a um salário mínimo para a subsistência – entorpecendo sua realização pelas boas escolhas (para as quais é preciso uma formação académica e humanista espiritualista) – Deste modo o sistema em vigor no Ocidente cerceia o “livre arbítrio” das massas trabalhadoras.

A hierarquia platónica (comandando a polis) é constituída por dirigentes e guardiões que encarnam a pura racionalidade. Aqueles que melhor realizam na Terra – o trabalho de ordenação que a nível cósmico realiza o Demiúrgo. Os verdadeiros Aristos – aquela “Aristocracia” do etimológico governo dos melhores.

CARGA SOCIAL

A necessidade aristotélica duma classe trabalhista, sustentadora da pirâmide social, que não têm tempo para a contemplação teórica da verdade, situa ao proletário como não cidadão da polis – como não homem livre, a pesar do sistema garantir na teoria a igualdade de direitos.

O proletariado está excluído no sistema capitalista comercial ou financeiro da práxis política, da possibilidade do pensar como moldar e melhorar a polis. Sua missão específica é a de sustentar os cimentos do organograma social, e o peso da carga fiscal em seu conjunto. Como foi evidenciado na crise bancaria de 2007-2008 onde a socialização das gigantescas perdas e privatização a seguir dos ganhos, foi pela imposição dum poder servil a seus verdadeiros amos, nitidamente posta em cena.

A base social proletarizada das civitas, aguenta mesmo a custosa educação da classe financeira que vai dirigir seu destino, por meio dos seus impostos, e dos orçamentos estatais, que em este sistema são destinados tanto a projeção das Corporações Mercantis, como a educação e formação de qualidade, a qual somente podem acessar aqueles que seus rendimentos lhes dão para adequadamente formar-se

Somente com o socialismo – o Estado Social – na procura do Bem-Comum, o proletariado tem a hipótese de adquirir essa responsabilidade política, se o Estado for realmente Provisor para lhe dotar dos mecanismos de acesso ao mundo das ideias, negado na prática pelo capital – Isso a pesar do direito ao voto. Pois aquela delegação de voto não obriga ao recebedor a render contas ao cidadãos, se não ao patrocinador – financiador da sua carreira política.

A NECESSIDADE DA ÉTICA ABRANGER TODA A SOCIEDADE

Daquelas influencias estoicas que aparecem na obra “Do Tratado Dos Deveres” de Cícero, demarcadas dentro da moral idónea para o verdadeiro habitante da civitas romana, estão excluídos os escravos. Os escravos modernos, o proletariado, o camponês proletarizado (tirado da liberdade do campo, e forçado a viver no engano da escravatura da cidade) não podem aspirar a adquirir esse conhecimento preciso, para receber aqueles preceitos éticos, dos quais nosso pensamento ocidental assume ser herdeiro.

O proletário escravizado – atado à sobrevivência, imerso no ócio como consumo é, na pratica, retirado do tempo formativo – e do futuro promissor anunciado pelo cinema capitalista.

As paixões (pathos) que devem ser eliminadas, segundo Cícero, para melhor usufruir dos valores de honestidade, sabedoria e justiça; se tornam um caminho muito difícil a ser trilhado pelos trabalhadores, precisamente pela exclusão do acesso ao elevado mundo das ideias. Por cima estas paixões são alimentadas por estímulos esternos destinado a provocar a ânsia de consumo e, por um ócio centrado no modo de saciar essas mesmas paixões encobertas. Aumentando na classe excluída a gula, luxuria, preguiça que conduz com mais facilidade a cair nos vícios e na marginalidade.

Somente um Estado Social forte- que confronte as inercias lesivas do capital e suas Corporações sedentas de mercados e consumidores, pode realmente mudar esta realidade, se tiver essa vontade. Eis este conceito que situa a ideia de “Bem Comum” mais perto dum modelo socialista inclusivo, que dum capitalismo inclusivo, apregoado pela elite ocidental, desde que em 2019 o próprio Klaus Schwab assumira esse reto.

A INCLUSÃO ILUSÓRIA

O capitalismo inclusivo, com suas dinâmicas de “renda básica universal” vai mais na inércia de robatização do sistema produtivo, que de reconhecimento da prole como cidadão membro de pleno direito da civitas. A pesar deste ser também um sujeito votante – na pratica a dinâmica do capital o converte cidadão inferior com direito a voto.

O desfrute da mesma variada oferta cultural, social e formativa da cidade, não pode ser realmente por aqueles que vivem na preferia da mesma e cujas rendas não permitem acessar a uma vivenda bem situada. Essa mesma renda escassa, diminui a oferta, dentro num sistema onde o mesmo conceito de oferta e demanda também está mercantilizado.

Em última instância o foco das preocupações não é a base proletária e o camponês proletarizado das civitas, se não o melhor rendimento sistémico produtivo e, a melhor forma de Reinicio – “Great Reset”- dum sistema financeiro em crise existencial.

A necessidade de aproveitar o desenvolvimento cientifico tecnológico, que por suas dinâmicas expansivas reduzem o mercado laboral em todos os sectores (a inteligência artificial desempenhado a cada dia novas lavouras, antigamente associadas a manufatura; assim como também acessando a postos antes dirigidos especificamente as formações académicas universitárias) e racionalizar melhor essa potencialidade nova, são em realidade as verdadeiras questões a serem resolvida, pelos senhores do capital. Enquanto o excesso de exércitos de trabalhadores de reserva constituem um problema lateral, indispensavelmente a ser resolvido para poder avançar na agenda robótica.

Em este contexto para o Capitalismo Inclusivo é também um fator negativo o excesso de população. Pela contra o novo Estado Social ou socialista oriental – cujo modelo económico de sucesso é a China, não parece ter problemas para lidar de uma forma bastante harmoniosa com estas situações inerentes às encruzilhadas da modernidade.

Por sua vez o ênfase excessivo do sistema financeiro na mercantilização de todas as áreas em que se move uma sociedade: mesmo na saúde e ócio, retiram qualquer foco no fator humano e social. A massa social perde valor em contraposição à necessidade material de universalização dum sistema baseado na dívida perpétua e no controlo desta dívida por parte duma elite bancaria.

Do mesmo jeito que numa dependência total dos seres humanos das Corporações multinacionais: tanto no sustento, vestir e alimento; como no mesmo relacionamento social (facebook, tik-tok…) onde o direito a privacidade também é mercantilizado (compra – venda de dados pessoais), torna aos humanos mais carentes muito mais vulneráveis.

E a servência aos seus financiadores das Organizações Internacionais que deveriam ser garantes da neutralidade política e responsáveis diante somente os cidadãos do mundo, torna a proteção institucional aos mais carenciados, na verdade, como inexistente. Ao igual que as supostas independentes ONGS, que na prática nunca atuam contra os interesses dos seus maiores patrocinadores… Não deixam de evidenciar que o sistema político económico de predomínio comercial, chamado Capitalismo, está a chegar a seu fim.

NOVO SISTEMA EM ANDAMENTO NO ORIENTE

A sua incapacidade para poder modificar os cenários auto-destrutivos, que as praticas lesivas da manutenção deste sistema já em plena curva declinante – decadência e, sua tentativa de remodelação, através dum ré-inicio “Great Reset” , não deixam margem, para que este velho sistema capitalista (hoje virado a acumulador de “renda financeira”) continue, sem por em risco a própria sobrevivência da humanidade.

A impunidade destas classes sociais, deve ser substituída por um novo organograma global multipolar mais abrangente.

O livre mercado, o não intervencionismo e o mercado auto-regulador, já faz décadas não funciona. Um poder supra-estatal que manipula os mercados em seu favor, derivando as perdas acima das costas das populações mais enfraquecidas, se tornou uma parasita indesejável. Um poder central ocidental que tem a maquina de fabricar bilhetes, inflacionar e carregar sobre as costas do resto do mundo este excesso de liquidez, começa a ser contestado pelo Oriente e o Sul Global.

Um estado social, interventor dos mercados, redistribuidor da riqueza e garante da educação e sanidade gratuita e universal ao alcance de todos, se impõe no Oriente e no Sul Global. Confrontando, a cada dia mais, o Ocidente coletivo. A semente do “Estado Providência” plantada na Europa a pós-guerra, por necessidade geopolítica e retirada dela uma vez vencida a União Soviética, é plantada no Oriente e no Sul Global, devagar.

O velho tradicionalismo de Réne Guénon e a visão espiritualista de Mircea Eliade, entre outros junto aos trabalhos de confluência ciência – espiritualidade do grupo Eranos – são transladados ao útero fértil do tradicionalismo filosófico espiritual oriental e do sul global, abrindo o caminho para um novo socialismo.

A Meta-politica em ocidente identificada com a direita e extrema direita, se torna o Oriente abrangente a própria raiz analítica, e complementada por trabalhos de campo, que não existem no Ocidente.

Estamos no embate. Se o ciclo ocidental estiver esgotado, nada poderá evitar o novo sistema, aos poucos pôr-se em marcha. E o melhor do velho ocidente será aproveitado para criar o novo sistema e novo centro do velho – Renovado Oriente.

O homem realmente culto não se envergonha de fazer perguntas também aos menos instruídos” dizia Lao Tzu – enquanto os cultos dirigentes ocidentais – em seu “verde jardim” – deixaram de falar com aqueles que moram nas periferias, não somente nas suas cidades, senão no mundo…