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Carta a Jon Amil – Presidente da AGAL

Já não lembro quando por primeira vez, meu primo Artur (daquelas sócio da AGAL) me explicou aqueles fundamentos duma normativa para o galego, que popularmente se denominava “Reintegracionismo” Na verdade nunca a cheguei praticar como é devido, nunca cheguei a estudar a mesma como deveria ser feito… No mesmo instante que me foi explicado, concordei, e ao pouco tempo, não lembro quando, também me tornei sócio da AGAL – e comecei a tentar escrever e viver conforme aquele modo “honesto” e nobre de sentir a a galeguidade que eu intuía em pessoas com Carvalho Calero, Guerra da Cal ou Marinhas del Valle…

Já não sou membro de AGAL – e não por falta de afinidade. Simplesmente nossos caminhos se separaram para eu entender e vivenciar outras formar de olhar o mundo. E também não lembrou muito bem quando isso aconteceu, mas sei que foi recente

Tive a impressão quando comecei a participar desse mundo do “reintegracionismo” que aquela forma de olhar para a Galiza, e desde a Galiza para o mundo, estava de alguma maneira na vanguarda de muitas cousas que iam alem da língua.

Esse reintegrar me levou a aprofundar nos significados mais ocultos do ser “reintegracionista” até chegar ao caminho, que acho agora ser a senda por onde discorre parte do percurso atual da minha vida. O reintegracionismo para mim é agora se bem não uma forma de viver ou de sentir, sim em certa forma um ângulo diferente de achegar-nos a certas globais realidades

Reintegrar é, de algum modo para mim, repor no mesmo lugar – integrar de novo. Juntar novamente naquele local de onde aquilo (seja o que for), por um determinado motivo saiu, se desviou, se desintegrou… E segue a sua marcha na procura de encontrar o berço, do qual um dia promanou: saiu para caminhar o mundo, com outras roupas, com outros disfarces… Na procura de encontrar, talvez, a sua identidade. Paradoxal: a identidade que perdeu quando saiu da unidade…

Este conceito, para mim, tem uma profundidade que não pode ser explicado pela vertente linguística. É um conceito que abrange vários aspetos – e entre eles o transcendental e também o civilizacional.

O reintegracionismo é pelo mesmo significado universalista – Sua missão mais universal não é reintegrar uma determinada variante dialetal em seu determinado tronco comum. Essa missão linguística é uma consequência lógica, da sua missão mais elevada: Civilizacional e transcendental evolutiva.

O local, particular, não pode ser explicado de maneira isolada – Quando o local, particular, é separado do universal – se empreende o caminho involutivo: aquele da ignorância mais profunda – Aquele que óbvia, esquece ou desconhece a essência do mesmo universo, ao esquecer a interrelação, interligação e interdependências das partes entre si; e das partas com o todo. Aquele todo – do hólos grego, esse hólos (todo, total, inteiro) que de algum modo foi um “principio – unido” que se dividiu… Pode mesmo ser que se dividi-se pela necessidade de um todo conhecer as partes. Pode, quem sabe?

Deste modo o reintegracionismo é universalista – procurar a essência comum que une as partes aquele todo – tornado-o de novo evolutivo. Evoluir também significa que cada parte, que se foi desenvolvendo na sua particularidade, chegue no momento preciso a ré-integrar seu conhecimento adquirido, na sua caminhada pelo mundo, no todo – Compartilhar seu saber com o resto das partes, e receber delas as devidas aprendizagens e as achegas dos outros conhecimentos adquiridos (no percurso particular de cada uma delas), enriquecendo o total – o Todo – da Unidade.

Enquanto o isolacionismo, que evoca o local por cima do universal, tende a ser involutivo – guerreiro – impor a força da sua determinação – da sua visão particular sobre as outras partes do o todo – quando tem esse poder de impor e esse impulso vigoroso para o realizar.

Quando não contem esse poder ou esse vigor for minorado – normalmente ser resigna a resistir, criar um marco pequeno, onde confrontar e aguentar a expansão do universal, fazendo pressão para reintegrar as diversas partes na unidade… Sempre na visão guerreira ignorante de impor ou sofrer o imposto, típica da conceção guerreira (na que por desgraça ainda vibra nossa humanidade). Esta prática mata a irmandade dos filhos e filhas da Terra.

Local sonha ser sua particularidade única – pura, e que deve ser preservada do contágio, não podendo ou não querendo entender o cerne da sua nascença: a unidade de onde partiram – dividiram as partes. Em nome dessa pureza e desse desígnio único resiste, quando minguante, tenta impor sua visão quando expansivo.

O preceito reintegracionista é pela contra que nossa essência e comum. O local, localidade – particularidade mantém a essência comum com a unidade, sendo uma parte da mesma em processo de conciliação ou já conciliada. Não existe particularidade cultural, religiosa ou étnica que faça o local superior a outro local e com direito de impor-se sobre outras partes do todo-comum

Nada mais posso acrescentar, amigo Jon. Sirva esta carta para explicar a ideia que me motivou a demonstrar que o modo de atuar nas crises sociais, económicas, geopolíticas, civilizacionais e mesmo espirituais, tem muito a ver, com a falta de uma tónica evolutiva humana mais reintegracionista.

Um tónica evolutiva humana, ainda a dia de hoje, muito virada no velho – e mesmo parecera – eterno paradigma da “guerra-isolacionista” e, muito longe da aspiração de toda a humanidade de alcançar, em algum momento futuro da historia (séculos, milénios… tal vez nem haja humanidade no termos que hoje a conhecemos… Quem sabe?). Alcançar, dizíamos, esse patamar elevado de “Reintegração” das partes na unidade, que nos permitam ou lhe permitam viver já a essa evoluída humanidade dentro da senda que conduz a “Fraternidade”

Por isso para mim o Reintegracionismo tem essa vertente mais profunda de procura da verdadeira transformação interior (libertação do indivíduo da sua psique guerreira – medrosa) e da transformação exterior (libertação do coletivo do paradigma da guerra – imposição). Sendo que ambas caminham conjuntas – O reintegrar no campo linguístico avança no mesmo propósito, sendo uma consequência do reintegrar da alma individuo – na Alma Mundo.

Confusões que esta argumentação possa ter com uma determinada circunscrita linguística particular da Galiza, esta fora de nossa intenção e, seria claro com uma leitura menos apaixonada do texto

De resto tudo esta perfeito: há textos que podem ser mal-interpretados sempre – segundo avaliação de quem deve o texto avaliar – em este caso fostes tu, prezado amigo, que avaliou, retirou do PGL esse certo artigo meu.. Ação que motivou esta carta, não pelo retiro, se não para aclarar. Com a retirada do artigo não tenho nenhum problema, não me oponho, vai a critério teu, amigo Jon.

Agradeço não entanto a atenção, que destes, ao motivar tua decisão, em correio particular. Daí serem esta carta, alem de aclaração, uma mensagem de agradecimento, para quem me deu a oportunidade de explicar e ao mesmo tempo se desculpou pelo facto. Que volto reiterar para mim não tem a maior ou menor importância.

Bem haja no mundo as gentes de bem, que sabem proceder adequadamente, mesmo em situações que puderam ser delicadas. Mas que classe de reintegracionista – universalista gostaria de chegar a ser eu, se lhe der alguma importância a este sucesso, motivado pelas circunstâncias

Grande e fraterno abraço amigo Jon.

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