Obama: Uma grande esperança com escassa margem de manobra (I)

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Por Artur Alonso Novelhe

“Das grandes esperanças surgem as grandes decepções”, disse o líder russo Vladimir Putin, o mesmo que decepou o povo checheno à base de lhe retirar a esperança e a vida. Obama chega, pois, neste momento de imensa esperança, pouca margem de manobra e muito cepticismo num ocidente desgastado ideológica e culturalmente.

Mas para saber que significado tem esta vitória do primeiro presidente negro na história dos EUA, deveríamos investigar quem são os sectores em que ele apoiara a sua campanha, aqueles que a dia de hoje exigem o cumprimento dos acordos previamente pactuados… Daí que a nova administração americana esteja formada precisamente pelos representantes designados que representam esses poderes: cidadãos judeus com dupla nacionalidade americana e israelense, como o vice-presidente Joe Bilden e Rahn Emanuel, militares críticos à política do Pentágono na era Bush e outros que participaram diretamente na guerra global contra o terrorismo como o general James Jones, sectores eco-empresariais bem representados pela própria Hillary Clinton, e magnatas de Walt Street, influentes sempre no gabinete económico com representantes como Robert Rubin ou o senhor Lawrence Summers, atores principais das políticas neoliberais recomendadas pelo FMI aos governos da América Latina e da Ásia, na época Clinton, e que levaram à falência económica muitos destes países. Também instigadores do modelo financeiro atual que levou à crise das hipotecas-lixo e os hegde funds.

Mas uma das virtudes do poder americano é não aferrar-se a nenhuma ideologia, nem sequer económica; essa flexibilidade tem permitido ao império acomodar-se aos ventos mais favoráveis, que sopram segundo o momento. Deste modo nos anos 30, depois da grande depressão os mesmos economistas liberais que defenderam com unhas e dentes o livre mercado, da noite para o dia, tornaram-se Keynesianos; como agora de novo está a acontecer, assistindo novamente à inauguração dum improvisado e feliz New Deal engrandecido pelos média mais poderosa da terra e onde o presidente Obama encarna a síntese de um novo Rosselvelt, misturado com alma de Martin Luter King, e com o espírito patriótico do primeiro grande construtor de América: Lincoln. Tudo bem adubado com a fantasia da América Terra das Oportunidades, e a “capacidade histórica de superação dum povo chamado a dirigir o mundo”, sintetizado na já celebre frase do: “Yes, We can”. E, no entanto a mudança é precisa, ainda que só aconteça como no romance do “Leopardo”: mudar 360º para tudo continuar na mesma.

Foi precisamente essa necessidade de mudança de rumo que levou a clique (o poder das grandes famílias) americana a apoiar primeiro Hillary Clinton e depois mais tarde Obama. Não há que esquecer que estas mesmas famílias apoiaram anteriormente a doutrina neoconservadora da época Bush e a sua guerra global contra o terrorismo.

Mas dita doutrina tinha-se transformado com os anos numa nefanda hipótese para a sobrevivência da hegemonia imperial. Daí a mudança de rumo.

No plano exterior, todos os relatórios militares coincidem em que, por exemplo, no Afeganistão o bombardeamento de aldeias feito pela coligação tem reforçado a resistência ao invasor, uma tradição afegã conhecida desde os tempos de Alexandre o Magno. Ao mesmo tempo, os fortes laços tribais jogam contra o invasor nas zonas de etnia Pastum, que mesmo ultrapassam a província Paquistanesa do Kandahar, onde os laços de sangue são mais fortes que as fronteiras pelos homens inventadas.

Os militares opostos à política Bush, são conscientes de que a América do Norte chegou ao seu limite como Império, um retrocesso ordenado de tropas no Iraque é necessário para continuar mantendo a sua capacidade e predomínio nesta região e no mundo; mas este retrocesso precisa de uma nova relação com o Irão, dada a maioria xiita no Iraque e a influência que o Irão tem sobre essa comunidade. Mas um arranjo com o Irão complica em excesso a relação com o Estado israelense, apoiado desde os próprios EUA e dentro do mesmo gabinete Obama pelo lobby sionista, que não concebe uma critica aberta contra Israel.

Cumulando mais estreiteza de manobra, para a nova esperança do mundo, os países árabes sunitas como a Arábia Saudita ou os Emirados Árabes, que veem no poder dos Aiatolás uma ameaça para a sua própria sobrevivência, estão a encorajar os próprios “inimigos sionistas” a acabar com os aliados iranianos tanto no Líbano como na Palestina. Conseguindo até o momento aumentar o ódio nas populações árabes e reforçar politicamente os seus inimigos ao tempo que debilitam aliados primordiais como Mahmud Abbas, presidente da Autoridade Nacional Palestina.

Desta forma o único quadro aceitável para uma negociação seria um quadro muito amplo em que se concretizasse um acordo regional, que passasse por reconhecer os direitos do povo palestino, dois estados com Jerusalém como capital, Hamas como interlocutor legítimo talvez num governo de Unidade Nacional, agora muito dificultado após a intervenção militar em Gaza, que está a criar um novo cenário carregado de sombras. Se o próximo governo for do Likud, como predizem as sondagens, a margem de manobra será ainda menor.

O Oriente Médio é uma região chave para o poder Imperial, pois nela se assentam as fontes de energia que ainda, a dia de hoje, movem o mundo.