Por Artur Alonso Novelhe
A nova injeção liquida de 600.000 milhões de dólares lançada pela Reserva Federal na economia americana tem provocado os protestos públicos dos países detentores de haveres em dólares, como a China, pelo que eles entendem uma desvalorização de facto da divisa norte-americana; o qual poderia levar o sistema monetário internacional a um cenário futuro de possível confronto.
A falta de um acordo global na última cimeira do G-20 celebrada em Seul, nomeadamente entre duas visões similares mas antagónicas, como a chinesa e a dos Estados Unidos, na qual ambos os países tencionam promover exportações a baixo custo; no caso americano com a desvalorização de facto da sua moeda, no caso chinês negando-se à revalorização do yuan; pode num futuro não muito longínquo provocar tensões a nível internacional que, se nenhuma cimeira vai reconduzir, dificilmente o poderá fazer outro tipo de negociações diretas, sem a pressão doutros países afetados.
Como lembrava o primeiro-ministro da Grã Bretanha, David Cameron, nesta última cimeira do G-20 em Seul, guerras de divisas, barreiras comerciais e nacionalismo económico podiam resultar numa repetição dos acontecimentos, próprios do período entre guerras dos anos 30.
Desta vez não só a China e o Brasil, como também a Alemanha, criticarão a unilateralidade do EUA.
O problema de fundo, como diz a economista brasileira Virgínia Fontes, tem a ver com a inércia do capital a partir dos primeiros anos deste novo século, quando: “o capital portador de juros e sua derivação, o capital fictício, impõem uma aceleração de extração de sobre – trabalho”.
Então os movimentos deste capital criam bolhas, e estas explodem no centro do sistema, e todo o sistema de organização mundial fica em choque, abalado do topo à base da pirâmide; a seguir os buracos escuros explodem em todo o sistema financeiro e devem ser consertados para não engolir toda a arquitetura económica. O problema é que os gastos que isto envolve são pagos com o dinheiro dos contribuintes, quer dizer: do trabalho real, das classes médias e populares, levando o trabalho a uma situação de sobrecarga.
Assim, a classe média perde poder aquisitivo, quanto mais a crise aprofundar, mais poder de aquisição compromete, até deixarem de ser classe média, e as classes trabalhadoras passam a estar cada vez mais marginalizadas, não ficando outra solução que se dotarem de mecanismos de resposta, umas vezes mais eficazes outras menos, para afrontar a difícil situação que se lhes avizinha.
Enquanto os dirigentes do mundo não encontram outras soluções que tirar do manual do bom economista; no caso americano de hoje, no da desvalorização que vai provocar maiores exportações. Mas os manuais dos bons economistas foram introduzidos nas Universidades pelos organizadores que têm o poder num determinado momento e controlam e difundem o pensamento adequado, acorde com os seus interesses momentâneos. Nos anos oitenta era o neoliberalismo, que a partir da escola de Chicago inundou todas as Universidades do mundo.
Com este modelo que potenciou o consenso de Washington, de 1989, foi como se tentaram ultrapassar as crises periféricas de Latino América, e do Sudeste Asiático, nos anos noventa. Resultando num fracasso e num empobrecimento geral das populações destes respetivos países. Com este modelo que basicamente consiste em: limitar os défices por redução das despesas sociais, privatizarem os serviços públicos e empresas estatais, tal como a senhora Esperanza Aguirre lhe recomenda ao presidente da Câmara Municipal de Madrid, Sr. Ruiz Gallardón, para equilibrar o orçamento municipal; o único que se conseguiu nestes territórios da periferia do sistema foi mais conflituosidade social, pior qualidade na atenção sanitária e educativa ao cidadão, maior desemprego… Porquê agora havia de funcionar melhor no centro do sistema, no chamado mundo ocidental?
O que se consegue com este modelo é criar maior tensão social no Ocidente, enquanto nos países emergentes, como o Brasil (que irradia o seu modelo por todo o MERCOSUL), as políticas sociais e de investimento em obra publica, com um Estado Mercantil fortalecido, regulador e intermediário entre trabalho e capital, à imitação do modelo europeu dos anos 60 – 70 – 80, que agora nós abandonamos, estão a criar grande riqueza.
Isto nós leva, na realidade, a concluir que está a acontecer um deslocamento da hegemonia em direção a Sul, que parece já inevitável, dado o Ocidente estar extenuado e os seus mercados encolhidos, à vez que as suas soluções obsoletas; enquanto o Sul começa a estar vigoroso e os seus mercados imensos e fortalecidos, como os seus modelos económicos mais adequados à mudança de século.
Estas duas formas de conceção do modelo económico, o Mercantilismo de Estado e o Mercantilismo privado, representantes hoje do Sul e do Norte também estão a entrar em confronto, e a cada ano que passa, parecem-se distanciar um bocadinho mais, à vez que os seus interesses, cada ano também tomam rumos mais diferenciados…
