Por Artur Alonso
Os recentes boatos sobre uma possível utilização de armamento químico na Síria por parte do exercito de Bachar Al Assad, assim como as ultimas ações israelenses sobre o próprio território Sírio, põem em evidencia o labirinto regional no meio do qual se inscreve o mesmo conflito. Se bem o ataque com duas bombas à maratona de Boston podia possibilitar um acordo de grande escada entre Moscou e Washington, que “facilmente” poderia pôr fim a guerra, retirando a ajuda ocidental aos “jihadistas” internacionais que se confrontam contra o exercito árabe sírio e obrigando Rússia ao regime de Al Assad implementar reformas a um ritmo mais celerado; por outra parte os interesses tanto da Arábia Saudita como de Israel de impedirem a tudo custo que uma potência como o Irão possa irromper no mapa geopolítico da região todavia com mais força, fazem inevitável que o ansiado isolamento do regime de Ahmadinejad vise previamente o derrubo da Síria, em primeiro lugar, assim como o enfraquecimento e posterior derrota do Hizbulá no Líbano.
Mas tudo este tabuleiro geopolítico está a tornar-se num quebra-cabeças. Por um lado os ataques de Israel, segundo certos analistas, respostariam precisamente a derrota que o exercito sírio esta infringindo aos combatentes “jihadistas” de Al-Nusra, pelo que se fez necessária a intervenção da aviação israelense para quebrar o cerco que o exercito de Assad mantinha sobre os revoltados, particularmente na região estratégia de Hons. Assim como os progressos registrados na luta nos arredores de Damasco pode motivar o lançamento de mísseis sobre a periferia da capital, com o objetivo de recompor este frente em favor dos combatentes de Al-Nusra. Segundo a agencia Reutters, teve como alvo mísseis Fateh, que seriam enviados ao Hizbulá. Uma noticia mais preocupante dentro deste, já de seu, preocupante panorama, foi à dada em segunda feira pela agencia Interfax, na qual se notificava que um navio russo deixou o Mar Negro para se dirigir ao porto de Tartur, base naval russa herdada dos tempos soviéticos, a 160 km ao noroeste de Damasco.
O grave problema do labirinto sírio parece ser a implicação, tanto a nível regional como global, de diferentes potencias, como de grupos de ação, que bem poderiam expandir o confronto e situar o mundo numa conjuntura no melhor dos casos de “linha vermelha”. Se por um lado os combatentes de Al-Nusra contam com o apoio ocidental, por outra parte Síria conta com apoio até o de agora diplomático da Rússia, assim como o apoio logístico do Irão e a possível implicação de Hizbulá. Lembrar que Hassan Nasrallah, líder máximo do movimento xiita libanês, visitou Terão no passado 29 de abril, assim como que nestes dias o ministro dos assuntos estrangeiros de Irão, o senhor Ramin Mehmanparast declarou: “que tanto Síria como a resistência islâmica darão uma resposta contundente as agressões sionistas”. Neste sentido não menos desassossego produzem as afirmações do ministro iraniano da defesa, general Ahmad Reza Purdastan, que declarou a agencia IRNA: “Síria tem um exercito poderoso, pelo qual não precisa a intervenção doutros países. No entanto se requerer treinamento, podemos ajudá-los”… Deixando claro que o Irão estaria disposto a dar luz à ajuda militar, que de forma soterrada, está a brindar ao regime de Damasco.
A movida geoestratégica que está a desenvolver-se no conflito da Síria é muito mais preocupante que as revoltas árabes de 2010 a 2012, e mesmo que a guerra da Líbia e a derrubada do regime de Mummar al-Gaddafi.
Nas primeiras os EUA conseguiram pela via da inteligência remover um Oriente próximo, que tinha ficado muito revoltado, para os interesses ocidentais, após a intervenção no Iraque e no Afeganistão. Na segunda, ainda a pesar da preocupante utilização de jihadistas num corredor vital entre a Líbia, Chade, Níger e Nigéria que dá acesso ao controlo do Centro da África; uma Líbia previamente isolada, relativamente longe da Rússia (além de Gaddafi ter-se na década de 2000 afastado de Moscou para abraçar ligações diplomático comerciais com a União Europeia – mudando mesmo do dólar para o euro) assim como muito desgastada antes do ataque por uma muito eficaz propaganda ocidental; mesmo jogando a baça de ser a própria União Europeia, capitaneada pela França, com a recusa da Alemanha, e o apoio britânico, a que a fim de contas mudara sua política de complacência com o ditador, proporcionando em ultima instancia o golpe final ao regime; fizeram que o agora novo regime líbio se torne num mau menor e pelo de agora tolerável.
Porém tentar imitar ou trasladar a “solução” líbia à Síria, parece um bocadinho mais complicado: por um lado e a pesar de poder introduzir maciçamente combatentes anti-regime como se efetuou na Líbia; nos dias de hoje fica longe a possibilidade de despejar uma área o suficientemente estável como para estabelecer um centro liberado, que sirva como base de operações e ponte de aprovisionamento da resistência anti-Al Assad. Tampouco é plausível à raiz dessa hipotética área liberada desenhar a criação dum espaço de restrição aérea, e menos uma intervenção direta das forças da OTAN (dado a presença naval russa na própria Síria). Por outro ao fio do que estamos a analisar, parece difícil, que uma tentativa deste estilo deixe o Irão (que se sente particularmente ameaçado neste embate) de braços cruzados; algo que poderia complicar a guerra ao mesmo Líbano, que bem sendo reiteradamente acusado por Damasco de complacência nas suas fronteiras permitindo a passagem de jihadistas que vão combater na Síria. Aliás também ainda a maquinaria propagandística não facilitou os resultados esperados, e hoje em dia, não se pode caricaturar o regime de Damasco com a mesma facilidade que se fez com o regime gadafista. Estando as cousas deste jeito, só resta desgastar o regime de Al-Assad e aguardar acontecimentos. O próprio presidente norte-americano, Barack Obama, descartou recentemente a intervenção direta no país, ou a tomada de medidas que foram além do apoio emprestado aos milicianos de Al-Nusra.
No tocante ao cenário internacional os BRICS também não estão muito cômodos com o modo em que está a dirigir-se esta crise, prova disso é a viagem relâmpago que o próprio primeiro ministro de Israel, Benjamin Netanyhau, fez na tarde do domingo à China (outra aliada da Síria) para tratar em princípio temas econômicos, mas que com certeza vai abranger a agenda do Oriente Próximo, no intuito de acalmar possíveis maus entendimentos.
Todos estes fios do Meio Oriente são muito complexos, chega dar uma olhada a um mapa da região. E se bem monarquias como a da Jordânia, Saudita ou os Emiratos Árabes, podem temer um poder xiita iraniano na região (lembremos a repressão dos protestos xiitas no Bahrein) também não é menos certo que o Iraque seria ingovernável sem o apoio desta mesma comunidade; por outro lado não é menos verdade que a Rússia, que como já mencionamos, tem uma base militar na Síria, poderia ficar muito chocada com uma possível queda do regime de Damasco, tendo em conta que desde a queda do muro de Berlim e a expansão da Europa aos antigos países da orbita soviética (mesmo as batalhas que ainda decorrem na Ucrânia), além do apoio a grupos anti-Putim e a guerra das ONG-s pró-ocientais dentro da Federação Russa (recentemente proibidos os apoios diretos e sem fiscalizar das mesmas) Moscou não tem muita confiança, que se diga, nos seus “parceiros” ocidentais.
Se a isso somarmos que o jihadismo que perturba também o Afeganistão, tem certa capacidade para desestabilizar o Paquistão ou perturbar Caxemira na Índia, ou regiões como a chechena e mesmo países como Azerbaijão, Turcomenistão ou Tadjukistão (que se situam dentro do que Rússia denomina do seu estrangeiro próximo), a viragem que podem tomar os acontecimentos, senão se tomarem as precauções devidas, pode ser verdadeiramente perigosa.
Assim que neste jogo vai estar muito presente nos próximos episódios a capacidade de cada parte para isolar o conflito dentro do território sírio ou bem para expandi-lo e por em xeque toda a região. O que parece bastante longínquo seria um acordo de paz que implicasse todas as partes. Algo que para bem ia requerer da pressão do movimento pacifista internacional; que no entanto e por causa da crise na eurozona e a quebra do sistema financeiro a nível internacional, assim como suas derivadas políticas neoliberais geradoras de tanto desemprego no ocidente, tem focado todas as batalhas dos movimentos sociais nas respostas anti-sistêmicas, esquecendo-se (por necessidade de não dividir esforços) de algo tão fundamental como a paz a nível global. Aguardemos não nos arrepender.
