Por Artur Alonso
Segundo informa The Washington Post (27/08/2013), sobre o possível ataque ocidental à Síria: “A realização do mesmo, num tempo que provavelmente não ultrapassaria mais do que dois dias, implicaria mísseis de cruzeiro lançados do mar — ou, possivelmente, aviões com capacidade de bombardeios de longo alcance — dirigidos a objetivos militares notáveis, não diretamente relacionados com o arsenal de armas químicas da Síria. Este ataque ia depender de três fatores: realização de um relatório por parte da inteligência militar que avalie a culpabilidade do governo sírio no pretenso ataque químico da semana passada; consulta contínua com seus aliados e o Congresso (dos EUA); assim como uma determinante justificação legal de acordo com a legislação internacional”.
A pesar deste enunciado em terça feira (28/08/2013) o vice-presidente Joe Biden declara que o regime sírio é claramente culpável (sem esperar sequer a avaliação dos inspetores da ONU no território, que provavelmente voltem a casa sem ter rematado o seu relatório). O presidente francês François Hollande, pela sua vez, insiste em que França está preparada para castigar aqueles que gasearam inocentes.
O ministro russo dos negócios estrangeiros Serguei Lavrov, pela sua parte, também na passada segunda feira, advertiu Ocidente que está a organizar uma campanha mediática de medo e intimidação que lembra o acontecido há dez anos, antes da intervenção no Iraque. Afirmou nesta conferência de impressa, organizada com caráter urgente, que tinha conversado por telefone com seu homologo estadunidense John Kerry e interrogado o mesmo sobre o que aconteceria se a ação anunciada na Síria em vez de resolver a situação multiplica os problemas na região, trazendo consigo uma situação de “catástrofe”; o secretario de estado norte-americano respostou simplesmente com uma recomendação à Rússia e à China para que somassem os seus esforços na tentativa de erradicar arsenais químicos e evitar que dito armamento caísse em mãos erradas.
Neste cruzamento de declarações nas quais também são protagonistas os ministros de exteriores da França e da Grã Bretanha, oculta-se uma profunda fenda geopolítica da qual a guerra da Síria é um dos seus mais notáveis elementos, mas não o único.
O corredor estratégico do Médio Oriente, que é imprescindível para qualquer Império que pretenda ter acesso às fontes de energia e controlo da sua distribuição, tornou-se nos dias de hoje num pequeno labirinto de interesses difícil de compaginar.
Por um lado estão os Interesses dos aliados do ocidente – nomeadamente sauditas e israelenses, por outro os interesses das potencias emergentes com mais peso na região, Rússia e China, sem esquecer a Índia. Por outra banda estão as potencias em confronto com o Ocidente, nomeadamente Irão e os seus aliados (como a Síria de hoje) e Hezbollah no Líbano.
Com a saída de cena da Irmandade Muçulmana no Egito e o afastamento momentâneo do Catar que apoiou a Primavera Árabe, a Turquia de Erdogan estava a perder certo protagonismo, até que o ataque com armas químicas lhe deu a oportunidade de voltar à tona. Os denominados rebeldes sírios, apoiados pela Irmandade, tiveram que mudar a sua sede rapidamente do Cairo até Istambul. Dias atrás Erdogan já tinha telefonado Putin, numa altura em que a Rússia tinha todos os trunfos na guerra da Síria. Não sabemos que transcendeu da conversa, mas o caso é que um bom politico deve ter todas as portas abertas.
A monarquia saudita sunita, inimiga do poder xiita representado pelo Irão, não estava muito contente com o desenvolvimento do poder que a Irmandade muçulmana estava a criar por todo o mundo árabe. De fato, enquanto ocidente duvidava se retirar ou não a ajuda econômica ao novo Egito do general Al-Sisi, os sauditas procederam a uma imediata ajuda monetária para aliviar a difícil situação econômica do país.
Representantes da monarquia saudita reuniram-se com Vladimir Putin no mês passado, por algo mais de 4 horas, o qual evidencia a gravidade dos assuntos a tratar. Tanto a Rússia como a Arábia temem que a fúria islamista da Fraternidade Muçulmana possa chegar a regiões dos seus respetivos territórios. Índia não pode esquecer seus problemas na Caxemira e o Paquistão está uma espiral bélica de complicada saída; mesmo a China pode sofrer as consequências dum contágio dos islamizados…
Assim as cousas pouca ganho pode obter o Ocidente ante um eventual contágio na região. Isso a pesar de que os problemas da Rússia e da China sempre são boas noticias para o Império Ocidental (dado serem estes países os seus concorrentes mais poderosos). A luta pela hegemônica global pelo de agora está fora da agenda. E um lume dessas dimensões pode mesmo dar maiores problemas ao controlo da região por parte mesmo das potencias ocidentais, que hoje em dia precisam de acordos com os poderes emergentes de toda a região (lembremos que a mudança na presidência do Irão abre uma via negociadora).
O problema aqui são os interesses cruzados dos diferentes atores nesta complicada guerra.
O bombardeio seletivo pode debilitar momentaneamente o regime de Bachad Al-Assad, isto pode permitir uma melhor posição na futura mesa de negociações Genebra 2 aos representantes dos grupos rebeldes… No entanto também pode animar algum destes grupos a quebrar unilateralmente com qualquer negociação agora que sabem à serio que Ocidente pode intervir em seu favor.
Todas as possibilidades ficam abertas. Mas não todas são tranquilizadoras… Muitas podem levar-nos em breve a um beco sem saída.
