Salvar Ocidente

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Por Artur Alonso

“Sede: desejo por e apego a, prazeres sensoriais, riqueza e poder; desejo por e apego a, ideias, ideais, pontos de vista, opiniões, teorias, conceções e crenças…

…Esta sede, desejo obstinado, ânsia, cobiça, manifestando-se ela própria de várias maneiras, é a que origina todas as formas de insatisfação…

… Todos os problemas e conflitos do mundo, desde as pequenas querelas familiares até às grandes guerras entre nações e países, acontecem devido a esta sede egoísta”

(Walpola Rahula)

 

“Habitualmente, o homem constrói a sua vida sobre areia. Contenta-se, com ideias, pensamentos, crenças acumuladas, aprendidos superficialmente, que nunca foram verificados pela experiência”

(Dugpa Rimpoché)

A sociedade Ocidental entrou em crise. Leva decénios em crise, talvez desde que Camus escreveu “O Estrangeiro”, muito provavelmente antes.

A decadência Ocidental é mostrada, desde há já muito tempo, através sobretudo das artes, das letras… Mas agora também, de modo muito palpável, através das relações sociais, do individualismo, da falta de solidariedade e interesse pelos outros. Do fomento da separação dum ser do outro ser, e da grande ignorância, que isto contém sobre os princípios fundamentais sobre os quais se baseia o Universo: unidade da qual tudo surge, Unidade que cria a diversidade, mas que mantém essa mesma diversidade unida ao fluxo universal criativo e criador.

Como dizia o grande poeta sufi do século XIII, Jalal ad-Din Muhammad Rumi:

“Na verdade sua alma e a minha são a mesma

este é o real significado da nossa relação

entre nós não existe mais eu e você”

…”A união é o jardim do Paraíso

a separação é o sofrimento do Inferno”.

Sofremos, pois, imensamente em Ocidente, a gente acomodada em seus carros, suas moradias, sua vida carregada de hipotecas e sonhos de poder para eles e redes de poder para elevar a posição social de seus filhos. De poder na forma de títulos, diplomas, licenciaturas, doutorados, dinheiro… Vive ancorada no sofrimento e no inferno da separação, não só dos seus semelhantes como também de todos os seres vivos que nos rodeiam…

Ocidente, que abriu a porta à interligação planetária com as viagens de Vasco de Gama, Colombo e Magalhães (abrindo à vez as portas de outra nova chacina e dominação do mundo)… Ocidente, que deu com o renascimento e a época das luzes um avanço na consciência humana… está esgotado, confuso e sem rumo… Embora prevaleça como poder hegemónico a nível tecnológico, militar, mediático e científico…

Confusão. Falta duma nova visão que possa renovar as velhas roupas, os velhos sapatos, que a Europa gasta.

Ocidente está esgotado, poderá continuar comandado durante algumas décadas mais o mundo… Mas terá de deixar passo às frescas achegas que de todas as partes do planeta aportam com seus navios valores novos, visões novas, que confluem em forma de novas realizações, novas estruturas de relações sobre as que se terá que acomodar a futura sociedade do século XXI.

Energias que emergem sem parar, de todos os pontos cardinais, que emanam riqueza e amor, e clamam na voz dos humanos seres para salvar a Mãe Terra.

Daí que o melhor que nesta altura Ocidente pode fazer é integrar essas vozes e avançar para uma Governança Mundial Criativa, onde todas as cores, todos os aromas, todas as formas tenham cabida.

A escassez de liderança moral em todas as camadas da sociedade, a corrupção, a manipulação informativa, a nível planetário… não permitem o livre desenvolvimento das potencialidades de cada ser, o qual impede a evolução, inovação e progresso das nossas sociedades, aferradas a patrões condutuais já caducos, e muito destrutivos para fazer frente aos sacrifícios que demandará o novo milénio.

Vivemos imersos numas sociedades que só valorizam o progresso material, esquecendo valorizar a transformação pessoal, pelo qual desde o início do mesmo sistema educativo tudo está errado: como podemos encorajar os nossos alunos a criar valores éticos, quando em todo o momento eles estão em contacto com uma sociedade que só valoriza o sucesso material, sem se perguntarem como aquele foi conseguido?

O espelho sobre o qual se deveriam olhar os nossos jovens está completamente nublado. Os modelos humanos sobre os quais se referenciam são modelos decadentes, depressivos, intolerantes, prepotentes ou faltos de ética e valores humanos… Triunfando o modelo social baseado em perdas e ganhos (materiais), em triunfadores e perdedores; não em modelos de colaboração e cooperação entre os seres, modelos de grandeza e generosidade espiritual, onde o forte é aquele que tende a mão para erguer o débil, ajudá-lo a pôr-se em pé, encorajá-lo, dar-lhe confiança para que possa retomar o seu caminho: para que de novo possa fortalecer-se. Sociedades fortes, são aquelas que sabem como e podem proteger os caídos na batalha da vida.

Hoje, pelo contrário, fomenta-se mais que nunca um sentido social do salve-se quem puder e cada um para si, longe, muito longe, daquele belo poema de Konstantinus Kavafis (sublimado entre o mito e a realidade), que lembra aqueles que entregaram a sua vida pelos outros, no famoso passo das Termópilas; batalha acontecida em agosto do ano 480 a.C.

“Honra aqueles que Termópilas fixaram
em suas vidas para as defender.
Que, jamais se furtando à obrigação,
foram justos e retos nos seus atos,
mas condoídos, também, e compassivos;
generosos, quando ricos; quando pobres,
generosos ainda com seu pouco,
socorrendo a quem pudessem; proclamando
sempre a verdade, embora sem nutrir
ódio algum por aqueles que mentissem”

A confusão da Europa começa pelo falso significado assimilado a palavra poder, como sinónimo de fama, posição social, dinheiro, força bruta, força militar, força económica…

Pelo contrário, o verdadeiro poder emana do poder do espírito, o único poder que não pode perder-se pelas circunstâncias da vida, os outros podem desaparecer em qualquer momento… No momento que uma pessoa perde aquilo que associa a seu poder: a sua posição social, o seu dinheiro, a sua fama ou falso prestígio… Fica mergulhada na desgraça, porque na realidade nunca teve poder real.

Outra confusão frequente no Ocidente nasce do termo Sabedoria. Dá-se a dito termo um valor académico, confundindo saber e conhecimento.
Uma formação académica dá ao ser humano conhecimentos variados sobre diversas matérias em que se forma. Mas isto não é sabedoria. A sabedoria nasce da observação profunda do ser e os seres que o rodeiam, nasce do conhecimento do sofrimento, da luta interior até chegar a compreender a raiz desse sofrimento, e dos caminhos que podem libertar esse ser do sofrimento. A sabedoria tem mais a ver com a vida, a experiência vital e proveito tirado desta experiência, que dos conhecimentos teóricos sobre uma determinada disciplina.

Como dizia o grande mestre Godwin Samararatne: Tive a sorte de conhecer muitos mestres, muitos gurus, muitos professores de muitas tradições. Sabem que mestre, que guru, mais me inspirou? A própria vida. A vida é o nosso melhor professor.

Assim o homem sábio percorre o caminho em silêncio, compreendendo o que Max Ehrmann plasmou em 1927 no seu poema Desiderata:

Siga tranquilamente entre a inquietude e a pressa,
lembrando-se de que há sempre paz no silêncio.
Tanto quanto possível, sem humilhar-se,
viva em harmonia com todos os que o cercam.
Fale a sua verdade mansa e claramente e ouça a dos outros,
mesmo a dos insensatos e ignorantes,
eles também têm sua própria história.
Evite as pessoas agressivas e transtornadas.
Elas afligem o nosso espírito.
Se você se comparar com os outros,
você se tornará presunçoso e magoado,
pois haverá sempre alguém inferior, e alguém superior a você.
Viva intensamente o que já pôde realizar.
Mantenha-se interessado em seu trabalho,
ainda que humilde, Ele é o que de real existe
ao longo de todo o tempo.
Seja cauteloso nos negócios,
porque o mundo está cheio de astúcias,
mas não saia da descrença, a virtude existirá sempre.
Muita gente luta por altos ideais
e em toda a parte a vida está cheia de heroísmo.
Seja você mesmo,
Principalmente, não simule afeição,
nem seja descrente do amor,
porque mesmo diante de tanta aridez e desencanto
ele é tão perene quanto a relva.
Aceite com carinho o conselho dos mais velhos,
mas também seja compreensivo
aos impulsos inovadores da juventude.
Alimente a força do espírito
que o protegerá no infortúnio inesperado,
mas não se desespere com perigos imaginários.
Muitos temores nascem do cansaço e da solidão,
e a despeito de uma disciplina rigorosa,
Seja gentil para consigo mesmo.
Você é filho do Universo,
irmão das estrelas e árvores.
Você merece estar aqui,
O seu destino.
Portanto, esteja em paz com Deus
como quer que você o conceba
E quaisquer que sejam seus trabalhos e as aspirações,
na fatigante jornada pela vida,
mantenha-se em paz com sua própria alma,
Acima da falsidade, dos desencantos e arduras,
O mundo ainda é bonito.
Seja prudente e faça tudo para ser feliz!

Outra das confusões típicas das nossas sociedades passa pelo conceito da palavra felicidade, associado a possuir, realizar o desejado, conseguir o sonho do momento… Nada mais longe da verdadeira felicidade.

Também é muito comum confundir felicidade com alegria.

A felicidade é um sentimento interior, que para chegar a possuí-lo devemos trabalhar com determinação, pois a felicidade exige de nós uma vocação inequívoca de ser feliz.

Ser feliz é estar por cima de alegria e tristeza, é aceitar a alegria quando chega, e a tristeza quando nos atinge. E aceitar que subida e descida fazem parte do mesmo movimento, que luz e sombra são parte da nossa essência, e que em todo e qualquer tipo de existência, assim como bem refere toda mitologia, existe luz e sombra (luz e escuridão).

Para sermos felizes temos que tornar à nossa natureza própria, empreendendo um longo caminho que nos achegue a esse ser, de que um dia nos desprendemos, para formar o falso ser que agora mesmo somos; por causa dos diferentes condicionantes que desde a nossa nascença nos foram impostos.

Recuperar a nossa natureza, como no poema do filósofo taoista, do século IV a. C, Chuang Tzu:

“Cada pessoa é o que devia ser

e pode viver com igual felicidade

enquanto viver ajustado à sua própria natureza.

… Quem quer mais do que lhe é dado

sofre inutilmente sem que ninguém o esteja a castigar.

Quando nos prendemos demasiado às cousas

sentimos perdas e ganhos.

Só quem largas as amarras pode ser feliz.

…Quem não gosta do que tem

porque pensa que poderia ter melhor

é desgraçado e estúpido.

…Quem não gosta do que é

acabará por passar a vida frustrado

tentando ser o que nunca vai ser.

Quem apenas gosta da alegria sofrerá com a tristeza.

Quem aceita com tranquilidade a inevitabilidade da morte

sabe tirar melhor partido da vida.

De que serve não aceitar?

Querer ter o que não se pode ter e ficar preso para sempre”

Outros conceitos errados, estão também a fazer muito dano às nossas comunidades. Mas essa análise será para um outro artigo.

O grande problema deriva do nosso tremendo egocentrismo, esse egocentrismo que submete nossos potenciais criativos, nos enche de autoenganos, idealiza expetativas desmedidas, roubando-nos a própria felicidade do possível, natural e realizável, ajustado aos potenciais e limites de cada pessoa. Para combater este egocentrismo primeiro teremos que aceitar-nos a nós mesmos tal como somos, depois aceitar a realidade tal como ela é.

Agindo com um princípio de honestidade, desfazendo-nos das falsas necessidades criadas pelo engado do consumo, as tendências neuróticas que surgem pela falta de conhecimento da nossa verdadeira identidade; à vez que tentamos combater os nossos desejos artificiais.

Tudo dentro de uma sociedade que nos provoca, desde a mais tenra infância, um afã de elevar esses desejos de maneira exponencial.

Enquanto não mudemos estas formas Ocidente continuará mergulhando no seu próprio buraco negro. Aguardemos não explodir dentro dele. Lutemos para salvar este Ocidente caduco, só pendente do resgate aos bancos e não às pessoas.

Mas se assim for o caso, temos de lembrar aquela famosa frase de Charles Chaplin: “Não devemos ter medo dos confrontos, pois até os planetas se chocam e do caos nascem as estrelas”.