Por Artur Alonso
“A nova descrição do movimento como uma série de saltos descontínuos foi uma das mudanças concetuais mais fundamentais que emergiram da teoria quântica. Foi como substituir o suave fluir da vida real por fotogramas como os que compõem as unidades individuais de um filme. De fato, a teoria mostrava que todo movimento — mesmo o que percebemos como suave e contínuo — está estruturado da mesma forma que a sucessiva apresentação dos fotogramas.”
(Danah Zohar “O Ser Quântico)
Como uma série de saltos descontínuos podemos observar o movimento geopolítico que nas últimas semanas se tem observado a nível mundial.
Primeiro Salto. O universo quântico da Irmandade muçulmana. Aquele que parecia o acordo mais inteligente da história entre o poder ocidental e o mundo árabe, foi removido. A irmandade muçulmana ficava com o poder político e ocidente com a agenda económica neoliberal. Em poucos dias um golpe palaciano no Egito decepou aquela subtil experiência. A perda da iniciativa na guerra da Síria trouxe consigo um novo mapa geopolítico, onde o reparto do Oriente Médio com a Rússia pode ser um fato. Vários indícios apontam nessa direção: a abdicação no Catar do emir Hamad Al-Thani, principal valedor da Irmandade; não devemos esquecer o papel da cadeia catari Al-jazera na primavera árabe, que afinal possibilitou a vitória dos Irmãos não apenas no Egito, como também na Tunísia e mesmo a adesão do Hamas (na faixa de Gaza) e Erdogan na Turquia. A reanimação da ronda de acordos entre palestinianos de Fatah e israelenses, em Washington; junto com os protestos na faixa de Gaza responde também a esse plano de tentar reconquistar esse pedaço de território aos amigos da Irmandade, assim como de dar maior protagonismo aos novos aliados do Ocidente na zona. As revoltas da Tunísia visam o mesmo objetivo, enquanto os protestos da Turquia, são uma séria advertência ao governo Erdogan, sobre a nova agenda a implementar – que marca uma desaceleração do plano aberto de islamizar a sociedade. Precisamente o alçamento militar no Egito se produz no momento em que Morsi tentava imitar o guião turco substituindo a cúpula militar e judicial por uma mais afim aos seus propósitos.
Segundo salto quântico. Aliança do Pacífico: bloco comercial criado no Chile em junho de 2012, cujos membros oficiais são Chile, Peru, México e Colômbia; tendo como observadores entre outros países: China, Japão, Espanha, França, Canadá e EUA. Que pretende debilitar a posição hegemónica do Brasil na região, criando um mercado livre no Pacífico que dificulte a integração Mercosul – guiada desde o poder económico de São Paulo. As revoltas no Peru e no Brasil tentam remover governos que, não sendo hostis a Washington, não são muito entusiastas do projeto neoliberal. O hipotético acordo no Médio Oriente com a Rússia permitiria desviar recursos para acometer a remodelação do continente Sul-Americano, desde a tentativa Lula de Independência da região a uma nova reorganização de dependência comercial, através de novos governos “amigos” e mais abertura para penetração dos grupos transnacionais no continente. Neste novo ambiente alguns especialistas acreditam que a eleição do Papa Francisco, corresponderia a uma reedição da estratégia vaticana que tanto ajudou na época de João Paulo II, a remover em favor do Ocidente o leste Europeu. No entanto, setores de teologia da libertação vêm de receber com muito entusiasmo a nomeação do novo Papa, pois acreditam que uma nova igreja social pode emergir ao longo do novo século, graças ao impulso deste novo papado, que traria a Roma uma visão mais acorde com os problemas do Sul; dentro desta lenta caminhada à reforma eclesiástica, pequenos e significativos passos como a tentativa de canonização de Monsenhor Romero, poderiam ter a sua importância. As chamadas do Papa à juventude a ser protagonistas do seu futuro, pronunciadas no Rio de Janeiro, pelo contrário, poderiam ser interpretadas como uma tentativa de ajudar ao descontentamento social no Brasil, que tanto pode beneficiar eleitoralmente a direita.
Salto Três. Bradley Manning, Edward Snowden, Julian Assange… As novas tecnologias, junto com as novas realidades geoestratégicas estão a trazer mais liberdade ou pelo contrário mais controlo da cidadania? A verdade em si é um valor ou pelo contrário tão só aquelas verdades que são propícias a certos interesses têm na realidade interesse de ser promovidas? As massas deixaram de ser protagonistas da história; foram realmente alguma vez protagonistas da história?
Eis algumas questões da atualidade… Pergunta: e a nós em que nos afeta tudo isto?
