Reintegracionismo e vanguarda

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Por Artur Alonso Novelhe


“Se queres expulsar o medo, abre portas e janelas no interior de ti próprio, faz entrar a luz, não deixes um recanto de sombra”

Dugpa Rinpoché

O universo está continuamente criando, mantendo a vida, dissolvendo e renovando, num ciclo interminável.

Tal como acontece com os processos no planeta Terra. Os domínios se dissolvem e renascem em forma de novos domínios, que por sua vez tentam manter-se, até de novo serem engolidos no buraco negro da história, para de novo se renovarem num ciclo interminável.

Assim acontece com os seres e as suas criações; assim, pois, acontece com as línguas.

Tudo são formas, expressões simples da inteligência universal, da energia que flúi através do cosmos.

E tudo, no momento presente, depende da focagem: para um nacionalista catalão o castelhano na sua expansão pela sua comunidade de falantes, pode significar, dentro duma lógica linear, o retrocesso do catalão. Para um nacionalista espanhol, defensor da visão castelhano igual à língua de Espanha, a expansão do catalão em seu próprio território, seguindo a mesma lógica linear, só pode ser feita em detrimento do castelhano.

O problema é que vivemos ancorados a um desenho linear promulgado há séculos, e na atualidade ultrapassado pela física, que claramente tem demonstrado o “espaço-tempo” não habitar em nenhuma dimensão linear…

Daí que sejamos ainda uma humanidade linearmente embrutecida, com distintos graus de desenvolvimento, mas tristemente muito sujeita ao medo sacramental à morte, visto no plano linear e desagregado do “eu” isolado em seu corpo.

Esse medo provoca pequenos outros medos que não nos deixam avançar para além das múltiplas formas de expressão deste temor em violência: medo às mudanças, medo a uma realidade em contínua mutação, medo à evolução, medo a viver fora da tribo, medo a ceder, pois ceder em certo modo é morrer, apesar de sabermos que ceder também é renascer numa nova dimensão do espaço-tempo, mais harmoniosa e mais diversa, composta de outras novas realidades em interação…

Neste sentido as mudanças que vem experimentando o movimento galeguista, chamado de “Reintegracionismo”, estão a levar a transformações muito profundas na conceção, construção, realização e estratégia do galeguismo na sua totalidade.

É incrível como neste início de novo milénio, os mais acérrimos inimigos do galeguismo perdem toda a capacidade de argumentação e possibilidade de encenar os seus medos, ao ficarem obsoletos os seus receios perante o galeguismo chamado de “Reintegracionismo”. Quer dizer, para um nacionalista espanhol, daqueles que ainda consideram a língua castelhana como vértebra da unidade real, por cima das pequenas tentativas separatistas das peculiaridades regionais, reducionistas… o reintegracionismo atual é uma barreira inultrapassável. Pois as ideias de língua minoritária e menorizada ficam completamente superadas ante a ideia de Comunidade Universal, língua universal com recursos e capacidade para compartilhar espaços alheios próprios dentro da dinâmica regionalizadora e globalizadora, que estamos percorrendo a nível planetário.

Neste conceito o reintegracionismo está a evoluir positivamente, pois o reintegracionismo nada tem a temer do castelhano, nada, pois, do espanholismo. Este debate para nós está ultrapassado. Novos debates se assomam no nosso horizonte: “Como compartilhar espaços a nível global (portanto, na Galiza, mas não só dentro da Galiza) entre as distintas línguas universais”; “como compartilhar espaços entre as nossas línguas universais, e as línguas minoritárias ou menorizadas para evitar a sua extinção e a perda de diversidade cultural, enriquecedora da unidade cultural global?” Eis os novos rumos para o movimento galeguista, do qual o reintegracionismo, por tirar uma leitura mais apropriada dos factos, está a empoleirar-se dentro da vanguarda.

Ante estes posicionamentos, o reintegracionismo está a evoluir face a uma tendência mais de acordo com a ideia de Unidade Europeia, união de povos diversos que têm em comum uma história e uma necessidade de superar velhos confrontos e disputas.

Daí ficarem no divã dos retrógrados, posicionamentos como os do nacionalismo centralista, que nada pode confrontar diante dum reintegracionismo universalista.

A nível político-económico os movimentos alternativos foram sempre olhados com pavor pelos sectores detentores do poder económico e da primazia da organização social. No entanto, o movimento reintegracionista fica hoje acorde com a realidade Europeia de expansão do sector privado em detrimento do sector público; dado o Estado-nação caminhar a passos gigantes para a sua falência ou radical transformação em mero gestor dos interesses centrais das elites privadas europeias.

Por casualidades existenciais, o reintegracionismo, ao ver-se forçado a manobrar fora do eido institucional, ante a marginalização provocada por uns poderes públicos que apostaram decididamente pela normativa linguística isolacionista, que afastava o galego das outras variantes irmãs, provocava uma reação de sobrevivência que obrigava os reintegracionistas a apostarem pela iniciativa privada, no intuito de continuar mantendo a escassa presença social, que com o tempo e graças à multiplicação destas iniciativas privadas, assentadas na participação e financiamento individual, iam multiplicar, ainda que cativamente, a possibilidades de ação do nosso movimento na sociedade.

Agora este caminho consolidado no reintegracionismo, está sendo olhado por outros movimentos e organizações que ainda estão muito longe, da visão acorde com os novos aconteceres políticos que se estão a dar na Europa, que encaminhadas ao fomento das lutas num cenário de sociedades privadas, cujas visões, ideais e propostas, mais progressistas ou conservadoras, estão a pelejar em todos os campos para organizarem a sociedade conforme aos seus postulados; fora já do suporte Estatal, a cada dia mais enfraquecido, e deslegitimado.

Outro dos aspetos em que o galeguismo reintegracionista é vanguarda, e deveria continuar estimulando para acrescentar a sua presença social e o seu poder de influência.

Desde aqui encorajo evidentemente o novo reintegracionismo a continuar liderando o novo galeguismo, numa nova tendência que deverá valorizar as novas alternativas realistas, que a meu modo de ver passam por: saber donde e como avançar, da perspetiva atual até um futuro que se visualiza mais provedor de alegria, sem planificações aloucadas, nem reivindicações fora de lugar num quadro inadequado tanto política como culturalmente, onde com certeza não estão a jogar-se os encontros decisivos. Ser conciliadores e pacificadores para poder fazer de pontes ante aqueles que querem dar o passo certo, mas não topam portas abertas, nem luz guiadora por onde com firmeza caminhar. Ser pragmáticos e à vez otimistas: “o mundo não é como nós o vemos”… Lembremos: não existe realidade definida, nem espaço-tempo em parâmetros determinados, tudo depende das interpretações, das focalizações, de onde situamos um centro para poder a partir daí criar as coordenadas para expandi-lo.

Ficamos marcados pelas nossas experiências, emoções, capacidades e flexibilidade. Superar experiências desastrosas e aprender delas, harmonizar as nossas emoções, para que elas não possam deitar no lixo todo o trabalho acumulado, é a primeira tarefa. Viver, a seguir, novas experiências libertadoras, dum ponto de vista pessoal e coletivo. Ser mais flexível e menos divisor. Compreender que o medo aos outros, não é senão um medo a nós próprios, pois o nosso inimigo não é senão a imagem deformada no espelho, côncavo ou convexo, de nós mesmos.

Sejamos evoluídos, pessoas capazes de ultrapassar as suas próprias angústias, para ir ter com os outros, os diferentes, com serenidade.

Não nos isolemos em guetos, onde continuamente se repetem as frases que queremos ouvir, saiamos à procura dos discursos diferentes, de forma aberta e sem prejulgar. Escutemos, logo falemos, sem apresentar a nossa verdade como absoluta…

E então o reintegracionismo medrará aos poucos, aos poucos se multiplicará criando novas vidas, novas diversidades dentro da unidade, para continuar a ser a vanguarda do galeguismo e a ponte flexível para transitar do presente par ao futuro…

Eis o nosso trabalho atual, superar os nossos próprios medos e tabus: abrir todas as portas e janelas para que penetre a luz…