CARTAS MEXICAS

Por uma nova visão galaica



“Muita gente pequena, em muitos lugares pequenos,
fazendo coisas pequenas, mudará a face da Terra”. (Provérbio africano)

Neste tempo de mudança profunda –velho paradigma caminho da extinção, novo paradigma ainda em face de criação—, não podemos deixar de tentar, deste pequeno reduto do Atlântico Norte, achegar nosso grão de sabedoria e força para que a mudança global melhor frutifique. Afinal, essa é a nossa obriga.

Devemos, pois, ter em conta quais são os vetores que, ao nosso modo, vão possibilitar a transição da velha visão à nova realidade. A tripla consciência começa a formar-se: consciência do ser interior, consciência dos valores da Terra (ecologia ativa; diálogo ser humano, entorno) e consciência da unidade das partes no todo —unidade dos povos e culturas da terra (novos atores catalisadores da mudança).

A nova visão galaica terá de começar a realizar-se dentro da unidade com todos os povos da Terra, achegando a sua particularidade.

No primeiro nível, a consciência do ser interior, devemos fomentar a nova realidade de encontro com o nosso mestre, confirmando a mudança de visão desde o mundo ególatra da guerra e concorrência continua, em face do mundo harmonioso da paz na experiência continua. Experimentar as nossas potencialidades e possibilidades requer um melhor conhecimento de nós próprios. Experimentar e potencializar a peculiaridade masculina e feminina em plena igualdade e harmonia, potencializando a prática de poder feminino e masculino —própria da nossa tradição milenar celta— é a nossa forma adequada de introspecção e observação no encontro com o ser. Recuperando as escolas de autoconhecimento, que como bem refere Edain McCoy em A Mulher Celta, existiram no mundo antigo; embora corrompidas e destruídas durante a longa noite das trevas e a imposição duma cultura de guerra, machista, destrutora do meio natural e desarmonizadora do binómio homem-mulher.

No segundo nível, esse ser interior complementa-se com o conhecimento do entorno e das tradições ancestrais que formaram a coletividade em que hoje ele está inserido, vive e, se desenvolve. Entender que formamos parte de um todo, e que esse todo como nós está em constante evolução, é outro fator de vital importância. Trabalhar em favor da natureza, conhecer e respeitar os costumes antigos, onde reside o legado próprio da sabedoria natural, forma parte deste desenvolvimento. Permitir-nos, pois, serem espíritos livres, com profundo respeito na igualdade com os outros seres vivos… Em continua mútua ajuda que nos lembra que é a dádiva da entrega e não o egoísmo do ato de possuir, conquistar, domar, etc., o que faz os seres usufrutuarem da alegria profunda. Diz um ditado, atribuído à sabedoria celta: “Se falares com os animais, eles irão falar contigo e assim, vocês conhecer-se-ão mutuamente. Se não falares com eles, não os conhecerás e aquilo que o homem não conhece, teme. E aquilo que o ser humano desconhece e teme, ele afinal destrói”

Vivemos, pois, num tempo de medo e destruição, mas não há noite tão profunda que impeça o começo da alvorada e é para esse começo e que nós trabalhamos. Assim, pois, no terceiro nível, os povos da Terra, terão que libertar-se da opressão que eles mesmos consentiram, ajudaram a criar e permitiram –por ignorância profunda–. Salvando esta encruzilhada através da recuperação da raiz profunda da amizade –enraizamento coletivo no amor e mutua compreensão—, tendo em conta que só mediante a confraternização, e não por meio do confronto, lograrão a paz e o progresso adequado. Na procura da verdade, podemos afinal atingir a liberdade, pois a liberdade, como bem explicara Leão Tolstoi, não é senão uma consequência de conhecer a verdade.

Os povos já têm comprovado como as correntes do escravo também algemam o opressor. O colonizado afoga ante a impossibilidade de realização coletiva e individual, o colonizador –como todo possuidor–, no medo terrível da perda da posse. Ambas as realidades impedem a liberdade individual e coletiva. Também os povos da Terra, já comprovaram mas suas carnes que a procura da liberdade pela liberdade –com desconhecimento profundo da verdade– simplesmente traz a substituição de uma forma de opressão por outra. Compreender a verdade descobre-nos também o caminho da cooperação na paz, dado que todos juntos podemos investigar também para descobrir a técnica mediante a qual a natureza projeta a sua exuberância, ultrapassando a visão de escassez e luta pela sobrevivência. Unidos todos os povos, aproveitando o saber do seu entorno, começamos a mudar da visão da falta a visão da abundância.

Seres respeitosos, abundantes, plenos de si —pelo empoderamento feminino ou masculino—, satisfeitos e harmônicos, podem abrir a luz para um novo e futuro milénio de maior e mais satisfatória evolução humana.         Assim o novo paradigma de união ciência-espiritualidade, hoje em lenta mais imparável marcha, ficará mais vivificado e fortalecido. Os diversos caminhos confluem, agora, tanto dentro de ti como fora. E nestes caminhos esta inserida –dentro de cada uma das nossas células– toda nossa história individual, como povo e como humanidade. Destas diversas terríveis aprendizagens históricas é que foi forjada a chama pura da nova luz, que aos poucos, em muitas pessoas, acende.

 

Artur Alonso Novelhe

Artur Alonso Novelhe

Galego, mas nascido no México, é diplomado pela Escola Pericial de Comércio de Ourense. Exerce como funcionário do Serviço Galego de Saúde do Governo da Galiza. Publicou várias obras de poesia e colabora habitualmente com diferentes publicações, entre as quais o PGL. É sócio da Associaçom Galega da Língua (AGAL) desde os meados dos anos 80 e académico da AGLP.
Artur Alonso Novelhe

Latest posts by Artur Alonso Novelhe (see all)


PUBLICIDADE

  • Ernesto V. Souza

    Muito bom, Artur, os mais, cada um com o seu estilo, metáforas e expressão, andamos na mesma linha…