Por Artur Alonso
Anterior à Guerra Civil Espanhola, todo o galeguismo histórico estava de acordo em:
– galego e português serem variantes dialetais dum mesmo tronco linguístico – uma mesma língua.
– a Galiza era uma nação de raiz celta.
O franquismo ceifou essas duas asas do galeguismo histórico, permitindo a sobrevivência dum galeguismo dócil com o regime – e subsidiário da língua de Castela.
Isto levou consigo um deterioro nas falas – tanto a nível lexical, com a introdução cada vez mais frequente de terminologia castelhana no galego – como a nível fonético e morfológico. Quanto à ortografia, tomou-se de novo o modelo gráfico do castelhano como ajeitado para as falas galegas, o qual aumentou a assunção de muita variante fonética do castelhano, dado a nova ortografia não poder expressar graficamente muitas das realidades linguísticas que ainda na altura permaneciam intactas no galego, como a nasalidade ou certas consoantes de tipo oclusivo ou fricativo, devido ao contraste do sistemas fonético-fonológico do castelhano e galego.
Os séculos XIV e XV vão condizer com o final do poder e esplendor da língua galega e perda do seu peso tanto social como literário.
A partir do século XVI, XVII e XVIII a língua galega fica ausente dos usos escritos, tanto a nível literário como institucional, perdendo o processo de codificação e fixação gramatical, que ganharam outras línguas da Europa. E apesar de no sul da Galiza o português, como língua de Estado, ir entrando neste processo. Além das tentativas dos Padres Feijoo e Sarmiento de tentar engajar o galego nesse processo, e mesmo interligar a sua sorte à do português, pouco mais resta deste período do que a criação lírica popular de romances, contos, lendas, cantos de cegos… que de novo são um parâmetro extraordinário para situar o galego no contexto certo de marginalização de todo o poder. Aliás, durante o século XVIII, as primeiras formas de ensino público, vinculadas à igreja, vão ser obrigatoriamente ministradas em castelhano; aspeto que vigorou na educação escolar obrigatória até meados dos anos oitenta do século passado.
Outro aspeto a salientar foi a mudança, no século XIX, por um lado do modelo administrativo dos reinos da Espanha, para um modelo mais centralista (à imitação do liberalismo francês) cuja cabeça era a região e as províncias; assim como a tergiversação histórica feita por parte dos novos poderes no Estado Espanhol, seguindo uma pauta castelhanista com a criação dum paradigma histórico centralista, onde o castelhano passaria a ser a língua nacional da Espanha e de todos os espanhóis.
A implementação no imaginário coletivo dos galegos e galegas desta historiografia como própria, levou consigo também a assunção (devagar no tempo, graças também à formação dum sistema escolar dependente deste paradigma centralista) do castelhano como a sua língua nacional; ficando para o galego as migalhas linguísticas duma fala mantida entre o fogão e reservada às camadas mais marginalizadas: língua, pois, de trabalho agrário, conversa fiada de amigo ou relação comunitária entre os nossos: os de abaixo. Enquanto o castelhano ficava como língua de prestígio, poder e de ascensão social
A partir dos anos sessenta do século XX, com a introdução dos modernos meios de comunicação, a tendência à isolação do galego como fala marginalizada e à potenciação do castelhano como língua de cultura, poder e negócios, foi em aumento.
O Decreto 173/1982, de 17 de novembro, de Normalização da Língua galega, daria outra virada mais na submissão do galego ao castelhano, com a assunção duma normativa ortográfica subsidiária da língua de Castela.
Hoje em dia, na Galiza, a maioria da população se considera espanhola e portanto não considera o castelhano como uma língua invasiva, mas como uma das suas formas de ser e sentir-se espanhol (até poderíamos e deveríamos falar do espanhol da Galiza). Em paralelo a este processo, as populações rurais, que perderam paulatinamente o contacto com a língua do trabalho agrário, foram invadidas por todo o tipo de léxico, morfologia e fonética castelhana, através tanto dos meios de comunicação sociais, como dos valores representativos de certo nível cultural na língua associada a uma relativa ou relevante formação cultural (lembremos: obrigatória no ensino durante séculos), assim como outros relativos à melhoria de condição social associados também à língua de poder e prestígio. O qual leva a que, geração após geração, os galegos vão abandonado de “maneira natural” e sem nenhum trauma a sua língua – antes materna, pela sua nova língua espanhola, integradora numa comunidade mais ampla de falantes e representantes não só da sua nação, como de uma comunidade internacional muito ampla com a qual estenderam laços, já históricos, quer seja a nível familiar como afetivo ou psicológico-emocional; nascidos duma emigração relacionada com a história colonial da Espanha a que pertencem.
Hoje essa tendência não tem paragem, nem modo de ser travada: as camadas novas do meio urbano falam maioritariamente castelhano, os seus conhecimentos do galego são muito escassos e limitam-se a uma tentativa de obtenção dum resultado académico, necessário por causa de no currículo escolar ter-se introduzido desde fins do século passado a obrigatoriedade da língua galega – na sua versão ortográfica castelhana.
Não temos uma estatística fiável ao respeito, mas suspeitamos que a maioria destes moços e moças no meio urbano se decantaria pelo abandono do ensino de galego e pela sua veiculação só em castelhano, tendo em conta que estas novas gerações foram criadas desde a nascença – na nova língua materna das cidades e vilas mais importantes do país: o castelhano.
No tocante ao meio rural, conserva-se um galego-castelhano, completamente deturpado, onde as gírias novas, criadas no imaginário coletivo da mocidade, são uma literal adoção das gírias urbanas castelhanas, levemente adoçadas com um restolho de língua galega, que teima ainda em pintar retratos dum rural já perdido para a decadência, a saudade e a beleza interior.
Neste panorama a insistência duma normativa galega isolada do tronco comum afro- brasileiro-oceânico e português… é, hoje em dia, um simples suicídio.
Dado que parece impossível a mudança da normativa oficial do galego, – por enquanto –, a iniciativa Legislativa Popular Paz Andrade, aprovada recentemente no parlamento, e pendente das modificações pertinentes, parece o modo mais adequado de focar a problemática peculiar do galego e da Galiza.
Eis o único plano viável: a aceitação da realidade e o trabalho sobre a mesma realidade.
Via pacifica de coexistência linguística, de uma perspetiva realista. Intuito para uma mudança inteligente.
Se continuar esta tendência afirmando-se: – castelhano língua de prestígio e poder nacional e internacional; – galego língua subsidiária ortográfica, morfológica e foneticamente da primeira. Normativa Ortográfica do Idioma galego – modelo RAG (Real Academia Galega), como único modelo aceite no ensino e no uso institucional, o resultado vai ser aquele do conhecido comentário daquele famoso escritor e professor norte-americano Stephen Covey: “Se continuarmos a fazer o que estamos a fazer, continuaremos a obter o que estamos a obter”… quer dizer, a perda de credibilidade, e o pior, a perda de utilidade do galego… E o reforçar do castelhano como única língua com capacidade de uso em todos os âmbitos… E assim a visão da potencialidade internacional do castelhano e a nula projeção do galego não só no âmbito global, como nem sequer no reduzido âmbito familiar, onde os avós falam aos netos na língua de Castela, que perde essa originalidade geográfica, transformada já agora na língua única de todas e todos os espanhóis.
Ante essa realidade, iniciativas a meio caminho, de querer converter o galego numa espécie de catapulta à lusofonia, não têm nenhum interesse, nem para os países lusófonos que, no mundo interativo da modernidade e luta pela ascensão e consolidação geolinguística, apenas têm tempo para exóticas e pode que até parabenizadas iniciativas de ligação, que ficam como muito no campo da amizade e a emotividade longínqua… nem para consumo, interno onde os negócios culturais e empresariais diversos – com projeção internacional – já usam comodamente e com resultados evidentes o castelhano como língua veicular…
Para bem ou para mal, este tipo de caminho de antemão nasce viciado…
Eis então: aceitação.
O castelhano, já de pleno direito inserido na realidade global como espanhol, língua nacional da Espanha, por lógica evolutiva histórica se está a consolidar na Galiza como a língua nacional dos galegos – uma região autónoma da Espanha, como é conhecida em todo o mundo, quando se precisa de alguma referência, sobre este pequeno cantinho do globo terrestre. Daí podemos inferir, sem medo de errar, que o espanhol já consolidou na Galiza o posto de primeira língua. As estatísticas podem enfeitar isso… Mas para realizar esse enfeite precisam de obviar que o galego já nem sequer se sustém como língua coerente, com coesão e sem interferências próprias dum contacto linguístico prolongado, onde a língua de prestígio (o castelhano) transferiu, modificou e mudou de tal maneira os códigos da antiga fala própria da Galiza, que mesmo um falante de hoje, com mais de cinquenta anos, não se reconheceria na sua própria fala de há apenas vinte ou trinta anos…
Aceitando, pois, o interesse crescente da população urbana em veicular toda a sua experiência humana na língua espanhola; assim como o pouco interesse da população rural em impedir a deturpação da sua fala ainda maioritária… Além do pouco ou escasso debate que a nível institucional se está a dar quanto à mudança ortográfica (mudança, não enfeite) a partir de um galego isolado, carregado de células cancerígenas e à espera da chegada inevitável da sua morte (sem muitos a chorar no seu enterro)… É lógico deduzir: que o espanhol será a língua de expressão de todos os galegos e galegas num futuro próximo… se não mudarmos esta tendência.
Ora bem, para mudar esta tendência, partindo dos factos atuais, devemos ter em conta que, consolidado já o espanhol e sendo esta língua já a língua materna da maioria dos meninos e meninas da Galiza, assim como dos adolescentes e mocidade… a única via de os galegos poderem transitar para um conhecimento da sua língua é a passagem prévia pelo português.
O único espaço que resta para que galegos e galegas possam ter um contacto com a sua língua, de modo a estes valorizem a mesma, é, lamentavelmente, a introdução utilitarista tanto no ensino como na cultura em geral, de alguma das variantes dialetais da sua própria língua, apresentando-a como língua estrangeira… E a assunção por parte do galeguismo mais ativo desta via como única possibilidade… Criando, com esforços coordenados e muita coragem, redes a nível internacional que possam fazer ver à população da Galiza a língua estrangeira chamada português como algo muito perto da sua alma e espírito (tendo em conta esse universo cultural comum)… para, num presente próximo, assentar a língua estrangeira chamada português como segunda língua da Galiza… e daí, num futuro, poder sonhar com que o espelho convexo desta língua lhes mostre na realidade ser a sua própria língua… Algo que sem dúvida fará que os galegos e galegas, de novo, procurem as suas falas… E até pode que cheguem a descobrir, algum dia, que as suas variantes dialetais foram já incorporadas a esse universo irmão chamado lusófono ou galegófono, por um grupo de “loucos e loucas” que em princípios do século XXI sonharam com uma Galiza irmanada na Lusofonia… Com uma Lusofonia reconhecida na sua Galeguia…
