Pandemia e transição sistémica



pandemia-696x371Antes do Confinamento

Vivemos tempos de mudança. Mudança dum mundo unipolar (poder inquestionável Ocidental, de fins da década de 90 do século passado) em face dum novo mundo multipolar (Três poderes atuais preeminentes: Rússia – China – EEUU). No meio duma quebra do modelo económico de dominação (queda Centros Financeiros Wall Stret – Londrés 2007-2OO8). Modelo consolidado a partir dos acordos de Bretton Wood (finais II Guerra Mundial), afiançado no acordo de Petrodólares (de 1973) com a substituição do padrão ouro, pela nova moeda fiduciária norte-americana, como referente global, baseado na confiança do investidores.

Com esta alavanca EEUU recebia parte de sua plus valia com as cobranças das transações globais efetuadas, praticamente todas em dólares. A sua vez podia-se permitir um limite de endividamento quase impensável, devido aos bónus do tesouro norte-americano serem um referente inversor apoiado na força da sua divisa.

A globalização económica, permitia aos Banqueiros Internacionais Privados, que controlavam a FED (Reserva Federal Americana), que possuía a impressora da moeda norte-americana, idealizar um mundo novo, controlado desde os Bancos Centrais, e sua conexão do BIS (Banco de Pagamentos Internacionais – Bank for International Settlements). Através do atrelo e vassalagem do resto do mundo, por meio das cadeias de dívidas perpétuas…

Como já temos explicado em outros artigos, estudos e textos, este velho modelo, foi o que começou a ruir a partires da quebra sistema de 2007-2008. Atingindo seu limite biologico.

Os EEUU que controlavam os três tabuleiros globais: Militar – Económico e o – Cultural, cientifico e social… Tiveram de deixar assentar China no económico e Rússia no militar, para apropriar-se duma parte do seu espaço.

Vivemos tempos de mudança. Mudança dum mundo unipolar (poder inquestionável Ocidental, de fins da década de 90 do século passado) em face dum novo mundo multipolar (Três poderes atuais preeminentes: Rússia – China – EEUU). No meio duma quebra do modelo económico de dominação (queda Centros Financeiros Wall Stret – Londrés 2007-2OO8). Modelo consolidado a partir dos acordos de Bretton Wood (finais II Guerra Mundial), afiançado no acordo de Petrodólares (de 1973) com a substituição do padrão ouro, pela nova moeda fiduciária norte-americana, como referente global, baseado na confiança do investidores.

A queda trouxe a contração e quebra do Império Global Ocidental: os três Obeliscos – Londres, Washington e Roma (representando o poder económico, militar e espiritual) ficaram abalados, pelo “tsunami” financeiro. EEUU sempre foi o grande poder militar – corpo de Ocidente: com apenas 16 anos de paz desde sua independência.
Nos inícios desta década atual, a China começou a tomar a iniciativa no campo comercial, com a lançadeira das 3 rotas da seda, dividas em seis, atingindo Ásia, África e Europa, por terra. Pelo Pacifico e Atlântico Sul atingido o resto do globo, por mar. Pelo Ártico circum-navegando ate o Atlântico Norte, utilizando a cobertura da Rússia. Quebrando, aí, o domínio total Ocidental no 3º Tabuleiro. Rússia com a posta em marcha das armas hipersónicas, quebrava a supremacia da cobertura dos mísseis “Tomahawk”. A intervenção russa na Síria (junto ao fracasso da horda jihadista do Meio Oriente Alargado), modificava o mapa de domínio do Oriente Meio, deixando os aliados ocidentais de Israel e Arábia Saudita, de atores principais e observadores e atores secundários. A aliança com Irão, minorava a superioridade sunita e punha em alça o poder xiita.

O golpe magistral dos serviços de inteligência norte-americanos sobre o general iraniano Qasem Soleimani (coordenador de todos os grupos pró-iranianos da região), pelo lado negativo deixou entrever definitivamente que os EEUU já não possuem a capacidade de ação de décadas atrás. A resposta do poder persa, sobre uma base do exercito norte-americano, sem retaliação, corrobora esta hipótese.
A necessidade de travar a expansão comercial chinesa, alem de criar uma guerra no ocidente entre supostos “patriotas” e supostos “globalistas” (na qual de momentos os patriotas levam vantagem), monstra também que Ocidente já não leva a iniciativa em este tabuleiro.

No cultural, cientifico e social. Segue comandando ocidente, tendo ainda sediadas no seu território as Universidades mas prestigiosas do mundo. Mas China apressura-se, para em futuras décadas criar um poder académico, dado somente nos EEUU ter becado perto de 300 mil estudantes. Nas novas tecnologias as vantagens de Huawei no 5G, aparentam de momento ainda manter-se. Na carreira pela Inteligência artificial, Beijing está também vem posicionado. Na corrida espacial, EEUU acaba de aumentar o orçamento da NASA em 25 bilhões de dólares, para impedir China tome vantagem, na utilização geoestratégica do espaço exterior. E a Rússia segue a ser um na tecnologia cosmonaútica.

O mundo após a Pandemia

Assim que dum mundo unipolar, todo aparenta, estarmos a transitar ate um mundo multipolar, com áreas definidas de controle por diferentes potencias e, zonas de fricção em debate.

Por um lado os EEUU, procuraram assentar seu domínio sobre todo o continente americano (seguindo o desenho iniciado em 1913, pelo Coronel Ernest Mandel House – reconversão da doutrina anti-imperialista Monroe, numa nova doutrina imperial norte-americana. Baseada na consigna e anexão do México e utlização de todas as riquezas do continente em favor das Corporações norte-americanas).

Rússia trabalha pela consolidação da Eurásia, tal como planificou Alexander Dugin, na sua Quarta Teoria Política (sonhando confronto entre o Poder militar e estatal com a Oligarquia Russa, no qual esta segunda ficaria derrotada, para afiançar um estado hibrido entre o modelo soviético e do czarismo conservador, na sonhada aliança pardo-vermelha).

China, na base do konfucionismo e, movimentando-se dentro da máxima taoista de “sem roce dá certo, com roce errado” tenta voltar a ser o poder económico global (como foi ate inícios do século XIX, quando Inglaterra quebrou sua sociedade com as 2 guerras do ópio). Ao tempo de assegurar-se um área de imediata influência, no extremo Oriente.

Índia, tenta afiançar, com muitos embates silenciosos com a China, um lugar, a cavalo entre Rússia e EEUU, para seguir mantendo sua independência cultural, económica e militar…

Grã Bretanha, já rumou a desligar-se da Europa, tentado ressuscitar o poder da Commonwealth, ao tempo que fixa em Londres o centro financeiro global do yuan; mantêm sua aliança política com EEUU e, no entanto ruma tecnologicamente a favor do 5G chinês (com instalação, em estes dias de confinamento, de antenas de Huawei por todo o país).

Cada poder movimenta uma agenda de integração regional entorno a um modelo comum de civilização: a civilização oriental, a Euro-Asiática (do novo poder eslavo) e Americana (do novo poder ário), a Anglo multicultural (de poder multirracial sediado em Londres).

Cada poder movimenta uma agenda de integração regional entorno a um modelo comum de civilização: a civilização oriental, a Euro-Asiática (do novo poder eslavo) e Americana (do novo poder ário), a Anglo multicultural (de poder multirracial sediado em Londres).

Europa tentando acomodar-se no novo cenario, com o Presidente francês Emmanuel Macron, oferecendo associação a Rússia, no caso esta desfez seus laços com a China. Mas também tentando afinçar o poder a unidade europeia, agora que semelha Estados Unidos, abandor Europa a sua sorte e a OTAN, estar um estado de letargia e muito mais ser um factor táctico, a que o poder esmagador que foi no século passado. Ainda a pesar das manobras intimidatórias perto das fronteiras russas, que aparetam ressucitar a aliança ocidental. No entanto na dúvida de saber se Trump abandonará a Aliança Atlântica, igual que está tentar desfazer poderes globais como a OMS… Pode mesmo enfraquecer-se a ONU?

O mundo Latino

Infelizmente o único país, com capacidade de criar um centro geográfico, que puder representar um modelo cultural, no qual estivesse incluída a essência latina, Brasil, fica fora deste reparto.

Sumido num profundo confronto e crise interna (vivenciando dinâmicas de guerra fria, com luta esquerda – direta, nas que já nenhum poder hegemónico acredita), o gigante sul-americano é, hoje por hoje, irrelevante a nível global. No lado positivo, Brasil ainda é um país muito novo. Existem elites intelectuais que compreendem este problema, e trabalham para criar uma unidade politica, cultural, com uma visão oceânica, com o intuito de desenvolver desde Brasília um poder Oceânico, não-alinhado. Com bom relacionamento, com todos os atores globais. Mas que demarque um área de influência no hemisfério sul (onde o galego português é língua dominante e pelo tanto, geo-língua), em destaque duma aliança com Sul África e Índia.

Criando um marco de relacionamento Sul – Sul. Tendo a vantagem da geolíngua galego – portuguesa, compartilhar grande parte de seu léxico como espanhol e mesmo italiano. O que, tendo em conta também, com bem estudou Carvalho Calero, tanto espanhol como galego português, serem duas línguas nascidas a partir do proto-galaico (lingua derivado do latim misturado com o gaélico celta, do noroeste da península ibérica); a sua hibridação ser relativamente fácil.

Passando essa aliança atingir diretamente perto de 700 milhões de falantes…

Mas teremos de dar tempo ao Brasil, para que o desgaste interno, obrigue a um acomodo de todos os atores em combate político, a direita e esquerda, ao comprovarem não podem vencer uns aos outros… E por necessidade chegar a um acomodo, em base, a uma nova cojuntura nacional.

Sair do pensamento dependente, tendo em conta as elites brasileiras estar muito ligadas ao poder económico norte-americano, como todas as de sul-americana, traz consigo a criação de grupos de pensamento em favor dum novo centro civilizacional oceânico, no hemisfério sul, com sede em Brasilia.

Sair do pensamento dependente, tendo em conta as elites brasileiras estar muito ligadas ao poder económico norte-americano, como todas as de sul-americana, traz consigo a criação de grupos de pensamento em favor dum novo centro civilizacional oceânico, no hemisfério sul, com sede em Brasilia. Sair da visão de teóricos como Olávio de Carvalho (formado intelectual que tem relacionamento com o Presidente Jair Bolsonaro) é vital, pois esta visão trabalha em favor do Poder Hegemónico Norte-americano. Dai precisar novas achegas políticas, culturais e sociais em favor dessa aliança, Península Celtibérica, América do Sul, Sul da África (onde Angola e Moçambique, devem ter seu destaque) e a Índia seus aliados…

Mas a criação dum terceiro polo equilibrador, entre as dinâmicas mais combatentes Rússia-China e EEUU, ainda levará um tempo. No entanto podemos manter a esperança em pé, dado entre outras cousas a bem trabalhada historicamente diplomacia brasileira de paz e a raiz espiritual indiana. Assim como a visão final pacifista de Mandela, entre outras… Deveremos aguardar, e, cada um de nós afiançar essa rede civilizatória, desde nossas respetivas responsabilidades, nos distintos planos: culturais, sociais, políticos… Galiza, tem ai, um belo trabalho a realizar, como ponte natural entre o mundo lusófono e hispano. Dai preciso manter em pé nosso autogoverno, língua e cultura.

CAMBIO DE CICLO

Nos encontramos, pois, numa encruzilhada: espiral neoliberal em contração, nova espiral em expansão ainda por surgir. Quando uma espiral contrai, das cinzas da mesma se alimenta a nova espiral a expandir. Do mesmo jeito que o fruto caído, proporciona semente para a nova árvore…

Mas enquanto não surgir o novo modelo, atravessamos um túnel, que será tão grande ou pequeno, quanto tarde em emergir, assentar e consolidar-se o novo ciclo.

Mas algumas cousas parecem já vislumbrar-se, de momento (e também devido a incertidume da etapa atual) o modelo autoritário, tanto na sua versão chinesa, como norte-americana, tende a impor-se no mundo. Ocidente vai ir, rumando devagar, a um maior controlo social (as novas tecnologias permitiram o mesmo). Não descartar que muitas das implementações realizadas na China, podam ser importadas, como o modelo de pontuação da cidadania.

Ocidente vai ir, rumando devagar, a um maior controlo social (as novas tecnologias permitiram o mesmo). Não descartar que muitas das implementações realizadas na China, podam ser importadas, como o modelo de pontuação da cidadania.

Mas, uma vez bem assente o novo sistema, o modelo para poder expandir adequadamente, terá de relaxar o controlo social, permitindo o contraste enriquecedor das polaridades, evitando confrontos inúteis…

Finalmente, como sempre, deveremos ser cientes, que rumamos a um governo mundial. E como sempre, de nosso trabalho conjunto dependerá, se ele será realizado por uma elite ou por uma confederação de povos.

Na pior das hipóteses duma elite nascida dos cascalhos duma guerra total. Na menos má duma elite global, consensual, criada no topo das famílias de poder mundial: esse 1% que controla mais do 60% da riqueza total.

Ou teremos uma representação na unidade dos povos em federação. Hipótese mais acorde com um novo ciclo cívico, como sempre sonhou Thomas Moro em Utopia ou Nicolau de Cusa, em todos seus escritos. Sendo ambos detentores dum trabalho continuo na humanidade, canalizado já mesmo por Pitagoras, Platão e sua academia. Apolónio de Tiana, os neoplatónicos como Amónio de Sacas. Os grandes gnosticos como nosso maravilhoso Prisciliano… E tantos grandes homens e mulheres, que foram portadores da chama ígnea, que ainda mantêm viva a esperança da humanidade. Seguir seu exemplo, nos honra, e nomeia como Filhos da Luz… Sejam elas e eles (como tantos outros, sem espaço para nomear aqui) sempre recordados, e sobre seus esforços, nosso esforços permitam, apesar das grandes dificuldades hoje em cerne, fazer possível uma nova e melhor humanidade e base a solidariedade, que está aflorando nestes dias.

Nesta nova situação parece que as sociedades pouco têm a fazer. Mas não devemos esquecer que nosso primeiro trabalho é mudar nossa consciência guerreira e medrosa, em face duma consciência global pacifica, praticando a ajuda mútua. Ate não chegar a esta consciência, sempre teremos risco de guerra, pois a guerra, como o medo que a ativa a desconfiança (primeiro passo para a guerra) está ativa dentro de nós… E esse é um trabalho muito laborioso, de apaziguamento das nossas emoções alteradas. Pois das emoções alteradas nascem aquelas éguas bravas, que pariam cavalos selvagens (pensamentos), um dos primeiros trabalhos de Hércules…

De modo que a pacificação global sempre depende daquela tripla pacificação que já temos mencionado, com regularidade: pacificação interior do ser humano; pacificação social e ecológica e dialogo aberto entre seres humanos e povos, com lealdade e mútua confiança…

Fagamos, então. nosso trabalho lembrando aquelas magníficas palavras de Abraham Lincoln: “quando pratico o bem, sinto-me bem; quando pratico o mal, sinto-me mal. Eis a minha religião”

E nessa religião universal do bem, do disfrute da bondande e da beleza, todos de novo encontrarmo-nos.

Artur Alonso Novelhe

Artur Alonso Novelhe

Galego, mas nascido no México, é diplomado pela Escola Pericial de Comércio de Ourense. Exerce como funcionário do Serviço Galego de Saúde do Governo da Galiza. Publicou várias obras de poesia e colabora habitualmente com diferentes publicações, entre as quais o PGL. É sócio da Associaçom Galega da Língua (AGAL) desde os meados dos anos 80 e académico da AGLP.
Artur Alonso Novelhe

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