Obama: Uma grande esperança com escassa margem de manobra (e II)

Partilhar

Por Artur Alonso Novelhe

Na Ásia Central a Rússia tem recuperado parte do papel que protagonizou como União Soviética e perdeu na década de 90 ao ser derrotada na guerra-fria. Agora mesmo a presença americana na região tem diminuído consideravelmente e já ninguém discute que a Rússia se tem tornado um ator com poder regional e capacidade de intervenção na cena global, onde, ainda não devia ser convidado. De facto está a entrar de boleia, sem prévio aviso, na festa.

A China e a Índia são competidores económicos de enorme fortaleza e parceiros necessários para mesmo sanear a dívida pública da América, no entanto recebem o seu abastecimento energético de própria Rússia, algo bastante incómodo para Ocidente, mas a ideia de um abastecimento alternativo, impulsionado pelas grandes companhias ocidentais, tem fracassado, até o momento, e não será realizável ao menos a curto prazo. Mesmo o gasoduto alternativo à Europa que evite a Rússia e as republicas afins ao Kremlin, pelo novo corredor até a Turquia, é um projeto de futuro, custoso e ainda por direcionar, pois a Rússia já mostrou na crise da Geórgia que não está disposta a ficar fora do negócio e menos numa esfera que considera da sua direta influência. Inclusive, para piorar a situação, a Alemanha vê com olhos muito gulosos a realização do gasoduto alternativo dos russos pelo Báltico, que evitaria a Ucrânia de intermediário e daria à Alemanha o controlo da redistribuição do gás à Europa continental assim como as suculentas comissões por atravessar o seu território.

Para aumentar as dificuldades o México, sócio vital para afiançar e selar definitivamente o domínio Americano sobre o Norte do Continente, está a ser considerado um estado falido, onde o seu governo é incapaz de controlar todo o território nacional e onde por enquanto o narcotráfico lhe está a disputar com maior ou menor sucesso o monopólio da violência.

No Sul do continente, o Brasil passou a liderar todas as alternativas e mesmo os representantes brasileiros têm convidado a Havana a fazer parte do Mercosul. A ideia brasileira de um Mercosul com modelos económicos e culturais diversos abre a via de integração da ilha. Mas a tentativa brasileira não fica por aí, alberga um trabalho para futuras décadas e que visa também a integração de Angola neste Mercado do Sul, como primeiro passo no intuito de converter o próprio Mercosul não só num mercado sul-americano, mas num mercado do Cone Sul. Os Americanos estão a tolerar muito bem o domínio brasileiro porque este lhes permite libertar imensos recursos para atender outras partes mais quentes do globo, mas esta escassez de capacidade estado-unidense, tem-se devido não só ao aumento e degeneração das crises que desde a década de oitenta se vêm alastrando e aprofundando no mundo, mas também à própria crise interna do Império, que começa o seu período de retrocesso paulatino, depois de atingir na década de noventa o seu máximo apogeu.

Mas a estratégia do Brasil está à vista: Cuba enlaça com o Norte da América, Angola e talvez depois Moçambique ao Cone Sul da África, e este último país abre a via do Índico para uma relação direta com a Índia, sócio privilegiado desde a criação do BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China). Dependendo da velocidade com que o Império decline, poderá ou não o Brasil levar para a frente a sua aliança com o Império Global à procura de uma maior presença na cena mundial.

Mas outra coisa fica clara e é que em épocas de crise económica os países periféricos cujas economias vivem da exportação sofrem maiores e mais rigorosas consequências que os países do centro que controlam a distribuição do trabalho e as finanças. Numa crise de sistema como a atual esta equação acentua-se, daí que o Brasil tenha insistido na realização dum forte mercado regional onde poder dar saída à exportação excedente. Para a realização deste novo plano regional integrado é preciso a criação dum mercado trabalhista interno e uma classe média com capacidade de consumo, à vez que fontes energéticas em mãos de sócios fiáveis.

Daí a salvaguarda da tranquilidade na Bolívia, rica em gás natural, e no resto dos até pouco muito revoltos países da América do Sul, assim como os acordos energéticos e económicos bilaterais com a Argentina. Mas o poder relativo do Brasil está cheio de pontos negros que qualquer inimigo poderoso pode premer à vontade, desde o favelismo até as disputas regionais pelo modelo ideológico-económico. Daí que a diplomacia brasileira esteja a dar mostras duma capacidade e habilidade própria dum poder hegemónico consciente dos seus próprios limites. Não só é capaz de impedir guerras entre a Colômbia e a Venezuela, como também resguarda líderes incómodos para os interesses americanos a salvo de escuras manobras organizadas pelo Império, à vez que propicia a eleição de líderes afins como o caso de Lugo no Paraguai, na sua nova esfera de influência, à vez que estreita laços de cooperação mundial com os EUA.

Obama precisa de Brasília, pois a dia de hoje um desequilibro no sul do continente debilitaria ainda mais a posição americana no mundo. Se for um gabinete inteligente, a aliança económica e militar que tem com país amazónico, refletir-se-ia numa aliança global geo-estratégica que lhe permita, segundo vá declinando, tecer uma rede Atlântica onde num futuro poder resguardar-se, ao tempo que passar o testemunho global, quando isto acontecer, a uma potência amiga que lhe garanta a sua sobrevivência na cena mundial.

Mas as inércias norte-americanas são difíceis de prever e a sua história mostra uns comportamentos que antes contrariam esta hipótese. Seguindo ao pé da letra o manual mais pobre do grande imperialista, Washington deixa medrar um pólo de influência até que este lhe começa a fazer sombra. Uma vez derrotado o seu inimigo, procede a desmembrá-lo para repartir as ganâncias, como fez nos anos sessenta e setenta alentando as guerras de descolonização e como fez ao vencer na guerra-fria, alimentado separações na URRS e nos Balcãs e uniões interesseiras à OTAN. Potenciando mais adiante a divisão da Federação Russa em pequenos estados; tentativa abortada na época Putin. Vamos ver se Obama muda inteligentemente neste aspecto, tornando-se num administrador global da hegemonia imperial que começa a sua decadência, hábil para retardar a queda Imperial nalgumas décadas e para elaborar alianças futuras para quando o seu país deixe de ser a potência hegemónica mais poderosa da história. Mas os indicadores discursos da campanha eleitoral e a tomada de posse afirmam que esta nova Administração ainda está a sonhar com Nós podemos, em solitário.

 

Entrega anterior: Obama: uma grande esperança com escassa margem de manobra (I)