O recente incidente do festival “Benidorm Fest”, para a escolha duma canção que represente Espanha, no festival da Eurovisão, além das interpretações, mais ou menos emotivas da injustiça do júri, trazem à tona muitas camadas, que no aspeto positivo, reavivam a Alma do Povo Galego (que nunca esteve morta, mas sim adormecida). Este é o primeiro grande trunfo.
Algumas reflexões do meu amigo Uxio Outero, na sua página de Facebook, acho serem muito acertadas:
a) A sonoridade da música galega de raiz é profundamente europeia, e como tal é reconhecida e apreciada em muitos países, quando tem oportunidade de ser ouvida. A nossa raiz é universal.
b) A população espanhola, o povo, não tem tanto problema com a nossa cultura: muitas pessoas não gostam, mas muitas outras sim, e mesmo adoram. O público espanhol está pronto para uma representação galega.
Além disso, acrescentaria: a nossa cultura não está isolada; muitas pessoas de Portugal e Brasil, também ficaram indignadas com o júri… A cada dia, essas raízes se aprofundam mais – Galiza dentro da cultura internacional comum, é já um percurso inevitável. Somente questão de tempo.
A Raiz Galaica continua viva
Mas, no meu parecer, o mais importante das muitas arestas que este incidente está a desvendar, dentro da Realidade Cultural Galega e Lusófona, tem a ver com a valorização – visibilidade, dentro da Espanha, da Chama Cultural Celta, que pervive no imaginário coletivo galego; e mais concretamente da sua raiz feminina.
Existe nesta aposta do grupo musical “Tanxugueiras” uma homenagem direta às milhares de mulheres (que desde os chamados “Séculos Escuros” onde a Galiza, perdeu, após a “Doma e Castração” da Rainha Isabel, a Católica, o seu poder político peninsular) levam mantendo a tradição musical e oral do galego, como língua veicular do povo. Como língua de cosmovisão que nos dá uma interpretação singular do mundo, como entidade coletiva ainda viva; e permite-nos relacionar-nos com o exterior, e mesmo integrar-nos no mundo, com essas particulares características próprias do caráter galaico.
Entre estas características está a forma de entender o universo feminino. E esse universo, manteve-se, como a nossa cultura, também em condições muito difíceis graças ao empenho das nossas avós e das avós das nossas avós, que ao longo do tempo, forjaram uma linha de resistência – desde o útero feminino sagrado da Nossa Terra, através de variadas expressões, entre outras do folclore e canto – e das “Pandereteiras”, hoje vivas no coração musical do grupo “Tanxugueiras”.
Se Rosalia se situou como segunda mãe, que recebe com dor, mas cheia de amor, todo o sofrimento milenar dum povo; se a geração Nós levanta a coluna celta e lusófona, com alicerces fundamentais para o pensar e viver em galego… O Universo musical atual (um dos primeiros a fusionar-se com toda a cultura lusófona, seguido da literatura, e outras artes); mostra de novo, pela voz das “Tanxugueiras” esse poder telúrico do feminino galaico, capaz de virar realidade o sonho de todos os galegos e galegas (o sonho pelo que morreu Rosalia): ver florescer a nossa alma. Esse sonho que também salientou Alváro Cunqueiro, quando referiu que se cair a Catedral de Santiago de Compostela, seria um dano menor, comparado com a perda da língua galega.
Hoje, essa língua volta a ser resgatada e situada no seu justo trono, pelo útero feminino, que representa no Brasão Galaico a Taça Griálica. E as “Tanxugueiras” sabendo ou não, voltam a levantar a celta raça – com o feminino sagrado, da soberania galaica. Permitindo, aquele também sonho cunqueiriano de Mil Primaveras Mais para nossa língua.
A sonoridade da música galega de raiz é profundamente europeia, e como tal é reconhecida e apreciada em muitos países, quando tem oportunidade de ser ouvida. A nossa raiz é universal.
Recuperação do Arquétipo Feminino Celta
Segundo a Doutora Branca Garcia Fernandez Albalat: os celtas cultivavam a Soberania Feminina, anterior aos deuses e aos homens (tal como vimos bem refletido na teogonia de Hesíodo) de que, dita soberania é mãe, esposa, amante e filha já que é a única divindade protetora do feminino: O Amor-Sabedoria. A Soberania feminina não só é uma Deusa, mas forma parte do antigo mito de acesso à posse do território pelo rei. No mundo celta a Soberania feminina é que escolhe o candidato real. A soberania feminina pertence a uma raça anterior aos deuses (filhos da Mãe Divina – Mãe Rhéia do 2º Trono Cósmico, na sua projeção na Terra – como Deusa-Soberana), que estava originariamente simbolizada pela Deusa da Natureza. Sendo a própria Deusa-Soberana do território, a Mãe também dos novos Deuses – Devas (do 2º Trono descendem as hierarquias divinas). Galiza, pois, como Mátria, útero – da civilização celta e da cultura galego – portuguesa. Agora, a cada dia, mais unida: como demonstra o apoio, que desde Portugal ou o Brasil chega para as “Tanxugueiras” – A suposta injustiça do júri sente-se como própria entre os nossos irmãos e irmãs da comum língua.
A mulher, pois, tinha estatuto, ganho, de ser superior, igual que o homem em vontade e atividade; e isso era refletido no cortejo romântico, onde o homem tinha que tratar a mulher como esse ser espiritual evoluído que era, com admiração e respeito.
Como nos explica magistralmente Mirella Faur: “Um dos conceitos celtas mais difíceis de compreender e aceitar – pela nossa cultura cristã e a mentalidade atual – é a associação dos arquétipos sagrados femininos com a guerra. Para transpormos barreiras conceituais devemos conhecer o princípio celta da soberania da terra, sempre representado por uma Deusa Mãe com características protetoras e defensoras. A vida e a sobrevivência dependiam da terra e por isso ela devia ser preservada e protegida, pois desrespeitar a terra e a soberania de um povo significava ofender e ameaçar a própria natureza criadora da vida. A soberania – o verdadeiro poder de quem governava e conduz os destinos de um povo – pertencia a um arquétipo feminino, a própria Deusa da Terra, com a qual o rei ou governante devia casar simbolicamente para garantir a prosperidade e paz. O casamento do rei com a Deusa da Terra representava as condições indispensáveis para que a soberania manifestasse: respeito, igualdade, confiança, parceria e solidariedade. A representante da Deusa Soberana era uma sacerdotisa ou rainha imbuída de poderes especiais, que até mesmo podia ser divinizada, como se conclui das lendas de Macha, Maeve e Boudicca. Nos mitos aparece de forma metafórica ou alerta sobre as consequências da opressão, violência e exploração da natureza e da mulher, com os inerentes desequilíbrios, a falta de prosperidade e do convívio pacífico”
Daí que a soberania celta feminina represente o equilibro que atinge a paz (Esse caminho ou Plano Meio, entre os dois Planos: Superior e Inferior). Assim na árvore sefirótica da vida – não pode haver harmonia, se amor e rigor não estiverem em equilíbrio.
Daí a mulher celta ter também um aspeto guerreiro, rigoroso, ligado à proteção e preservação da vida, contra os depredadores da natureza, do povo, dos seres. – Algo muito presente na simbologia da Terra Galaica. Ao tempo que a mulher galaica também representa um grande aspeto transformador, que mediante o amor, sara as feridas e fraterniza de novo a comunidade – comum na unidade – depois de extirpado o mal que tentava inserir a semente da morte. Esse mal hoje também exortiçado pelas nossas “Tanxugueiras”.
Finalmente, quem sabe, se a recuperação desse poder associado da Deusa- Mãe, no amor – sabedoria, nos poderia levar, a cumprir aquela bela profecia de Miqueías (século VIII a.C). Refletida como benéfica visão, bênção, onde o poder feminino da torre de Magdal-Eder (Madalena?), torre do rebanho, ajuda a mudar a humanidade. Pois destinada é a trazer a Nova Jerusalém, da Paz ou Salém, que será afirmação real, quando todas as nações do mundo sejam capazes de transformar todas as suas espadas em relhas de arados. É dizer a guerra em trabalhos de amor no feminino sagrado útero da terra.
E aqui de novo as “Tanxugueiras” têm contribuído com esse amor da sua música, para na paz, da sua aposta musical também irradiar paz no mundo: paz entre as diversas línguas e culturas, que no feminino acolhedor, todas têm cabida.
Galiza revive
Hoje de novo Galiza, a sua língua e cultura, volta a reviver (porque, na realidade, nunca morreu), da mão de estas bravas “guerreiras celtas” que sabendo ou não, enchem de amor a sua Terra, novas gerações, que inconscientemente se tinham dela afastado. Sem compreender que negar a sua língua e cultura, e negar-se a si mesmos.
Este é o grande poder do sagrado feminino galaico, que é invencível. Não precisa brigar com ninguém, não precisa armar-se em guerra, simplesmente precisa cantar e dançar: porque aquele que dança, os seus demos espanta… E cantando e dançando acima do ar, todos os povos da Espanha, se uniram a esta força vibracional celta – porque a dança é universal, e com ela todas as culturas se entendem. Daí que no voto popular vencemos.
Seja, este grande trunfo, bem administrado pelo Poder da Cultura Galaica… A rota já está marcada, a nossa língua e cultura são universais. Não estamos sozinhos na sua defesa: a cada dia, como falamos, mais irmãos e irmãs, do universo lusófono, têm consciência de que a sua língua nasceu no noroeste peninsular – neste beco da antiga Terra da Deusa Kalleh – a Gallaecia… Essa cultura universal pode dialogar de tu a tu, com todas as culturas do mundo- Sendo Galiza uma ponte natural para harmonizar o universo lusófono e hispano. Para harmonizar, também, a amizade a boa vontade, dentro da nossa celtibérica península.
Gratidão “Tanxugueiras” por trazer-nos de novo a força dessas mulheres galegas, que ao longo da história, nunca puderam ser derrotadas! Bravo por serem tão Bravas!
