O poder da consciência reintegracionista

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Por Artur Alonso

Não foi com intenção de excluir a normativa Agal [anterior artigo], nem as achegas que desde a comissão linguística da mesma Associação tem feito, como bem afirma Lopes Facal, com muito rigor e metodologia o prof. Carlos Garrido, entre outros. Além disso, ele é pessoa que admiro e da qual sempre aceito o bom conselho. No entanto, estamos a refletir sobre a problemática do galego e a sua estratégia presente com pulsão sobre o futuro, precisamente para abrir novas janelas que permitam à língua amada a oportunidade de transitar da tendência regressiva até uma tendência expansiva; sem por meio ficar no caminho da precária resistência – ultima fase do esgotamento e desistência.

Parabenizo o Joám Lopes Facal, pelo muito bom e lúcido artigo. Não tenho muito mais a dizer a este respeito. Concordo quase em 80%; o outro 20% é uma questão de perspetiva.

No entanto, para tentar implementar um novo paradigma sobre o galego, que nos achegue a uma solução futura da sua problemática e ao mantimento da língua no território pátrio, deveríamos ter a flexibilidade suficiente, como para entender que se esse paradigma particular não encaixa no paradigma global imperante ou no futuro paradigma global – agora em construção; não poderemos usufruir dos efeitos benevolentes dessa tentativa de mudança.

Como o paradigma imperante, tanto a nível Europeu, Ocidental ou mesmo Ibérico ou de Estado, seja nas suas variantes políticas, administrativas ou geopolíticas e mesmo geolinguísticas, não encaixa com os postulados e estratégias gerais do reintegracionismo, e mesmo impossibilita uma adaptação do movimento reintegracionista ao mesmo; só nos resta experimentar duma nova perspetiva – enraizada num novo paradigma em andamento.

Melhor será tentar explicar brevemente este novo paradigma, usando as palavras do físico quântico Amit Goswami: “Esta mudança da ciência, de uma visão materialista para uma visão espiritualista, foi quase totalmente devida ao advento da Física Quântica. Ao mesmo tempo, houve algumas mudanças em Psicologia transpessoal, em Biologia evolucionista, e em medicina. Mas acho que é correto dizer que a revolução que a Física Quântica causou na Física, na virada do século, seria baseada nessas transições contínuas, não apenas movimento contínuo, mas também descontínuo. Não localidade. Não apenas transferência local de informações, mas transferência não-local de informações. E, finalmente, o conceito de causalidade descendente. É um conceito interessante, pois os físicos sempre acreditaram que a causalidade subia a partir da base: partículas elementares, átomos, para moléculas, para células, para cérebro. E o cérebro é tudo. O cérebro nos dá consciência, inteligência, todas essas coisas. Mas descobrimos, na Física Quântica que a consciência é necessária, o observador é necessário. É o observador que converte as ondas de possibilidades, os objetos quânticos, em eventos e objetos reais.”

Partindo da velha superação do paradigma mecanicista iniciado com Descartes e Newton, e da realidade filosófico – racionalista, que se veio implementando na Europa desde a Idade Média, com figuras com São Tomás de Aquino e Santo Agostinho; passando pelo resgate de Aristóteles e Platão, mas com maior influência decisiva do primeiro que do segundo; podemos afirmar que se bem as resistências a acreditar no novo paradigma iniciado em princípios do século passado são muitas e variadas, na realidade graças à revolução tecnológica desenvolvida ainda neste século (revolução impossível de realizar sem ter em conta os princípios da mecânica quântica) o certo é que o mundo, devagarzinho, já virou para um novo conceito de interpretação e implementação da realidade.

Assim que a consciência é a grande criadora da realidade. Nós somos os responsáveis pelas nossas escolhas e pela construção da realidade onde queremos viver. Assombrosas experiências, como as do Dr. Emoto no Japão, onde a intervenção da nossa consciência pode mudar as molecas da água, diz tudo ao respeito.

Podemos ver a experiência em http://www.youtube.com/watch?v=fyEeA3vqebk

Interior é correlato de exterior. Exterior e interior deixam de ser separados e formam uma unidade, no campo da realidade, mas também no da mudança. Todos sabemos algo disso, não pode haver mudança exterior – mesmo da sociedade – sem mudança interior. O melhor sistema político, precisa também de seres humanos evoluídos – senão o sistema é inviável.

Proposta – Nova Vanguarda reintegracionista versus Nova Vanguarda linguística.

Todos navegamos no mesmo barco. Cada pérola (como no mito da rede de Indra) reflete à sua vez os perfis das outras pérolas ao tempo que ela se vê refletida nas outras. Cada partícula subatómica influencia a sua partícula correlata – como no esquema quântico – à vez que a consciência influencia o experimento que tentamos observar.

No campo, pois, da realidade em mudança das problemáticas linguísticas, a consciência coletiva vai ser o grande agente da mudança. Para construir uma consciência coletiva teremos, pois, que iniciar o despertar da consciência individual. O salto do individual ao coletivo já não pode ser feito de maneira linear (No novo paradigma não existe linearidade, nem tampouco movimento contínuo, mas pequenos pacotes de energia chamados “quanta” – formulado por Max Planck em 1900: a emissão e absorção de energia eletromagnética dos corpos se dá através de “pacotes” contínuos de energia). Para produzir um salto quântico e que o eletrão mude de órbita, este precisa ganhar energia. As melhores ferramentas energéticas que o galego tem à sua disposição é a sua capacidade de interagir a nível global, com as outras variantes dialetais irmãs.

Para criar uma consciência de normalidade individual na própria língua seria preciso recorrer a ferramentas, que infelizmente o galego norma AGAL, hoje em dia – por motivos históricos político – administrativos, muito claros e bem estudados – não possui. A norma do Acordo Ortográfico ou o Padrão Português ou brasileiro, sim. Qualquer cidadão da Galiza pode viver a sua língua desde a infância à maturidade – fazendo uso adequado dessa rede global lusófona. Isso não tira à norma AGAL o seu caráter de ponte e transição entre a atual normativa e uma adequação a um futuro, mais prometedor, dentro da comunidade lusófona.

Alargar e normalizar essa rede é o grande desafio. Mas para isso é preciso ganhar mais consciências individuais e ir criando pequenas consciências coletivas ativas.

Como no caso da nova realidade tecnologia que está já a ser implementada no mundo com o novo paradigma quântico, as novas gerações AGAL – Pró-Academia… estão a implementar na Galiza o novo paradigma reintegracionista. Eles agem enquanto outros, a partir do isolacionismo ou lusismo, travam debates (internos e externos), muito valiosos às vezes, mas outras maçadores para a grande maioria destes novos ativistas desenhadores dum novo país.

Abrem ligações além-mar, além-Minho. Vivem como galegos. Usufruem da net – e enraízam amizades no Brasil, em Angola… que libertam janelas à Galiza, pelo único canal que tem a cultura galega de se fazer visível no mundo e manter-se erguida em casa: a Lusofonia. Em vez de tentar domesticar a natureza, vivem dentro da natura.

“O retorno dos elétrons às suas posições (desde que não tenham se desprendido do átomo) libera a energia recebida para realizarem o salto. Essa energia é liberada na forma de um fóton, o que ocasiona emissão de luz. Os elétrons das últimas camadas necessitam de pouca energia para saltar para as camadas mais externas”

O reintegracionismo tem construído, desde inícios de 80 do século passado toda uma cadeia de transmissão de energia que tem possibilitado a luz que agora irradiam os novos reintegracionistas. Todos e todas seguimos no mesmo barco. Todas as pólas são parte da mesma árvore. Se as raízes – Carvalho Calero, Guerra da Cal, Marinhas Del Valle até Estraviz – são fortes e flexíveis, também a árvore. Quando neva a flexibilidade do conjunto permite tirar a neve, sem danar os ramos das árvores.

Abrir debate.

Abramos debate de como possibilitar uma alternativa vivencial galega. A única que a este povo resta – pois a galego-castelhana, fugiu, esvaiu-se. Façamo-lo a partir da norma AGAL, façamo-la a partir do Acordo Ortográfico, a partir do Padrão Português ou brasileiro… Não brigando, mas deixando que as novas gerações reintegracionistas as vivenciem e por realização pratica decidam eles qual vai ser a sua norma… E qual variante galega, dentro do imenso e enriquecedor mar lusófono… Eles e elas vão de seguro construir essa variante – nem todos vamos gostar dela. Não entanto, ela significará a aurora depois da noite de pedra.

Vamos continuar a possibilitar que os galegos e galegas que já vivem como galegos tenham mais rede lusófona para poder continuar a viver como galegos, sem medos nem complexos, fortalecidos – olhando para o castelhano de tu a tu. Sem brigas sequer com os galegos que façam a escolha de viver em castelhano. Se afinal uma telenovela mexicana enriquece um castelhano, porque não nos vão enriquecer a nós os telefilmes brasileiros?

O reintegracionismo precisa de todas as suas visões, de todas as suas diferentes formas de estar e expressar-se. Porquê?

Para respostar a isso, talvez deveríamos ligar àquele dito dos índios navajos, que se mal não lembro vinha dizer algo assim:

“Não acredite em mim. A minha verdade é só verdade para mim: ela fala da minha história. Mas aprenda a escutar. Pois se aprende a escutar eu poderei relatar-lhe a minha história.

Não acredite nele, pela mesma razão, mas aprenda a escutar também a história dele.

E o que é ainda mais difícil: não acredite em você; você só conhece a sua história. Mas aprenda a escutar, porque se aprende a escutar atentamente, poderá observar que por meio das meias verdades (das pequenas histórias de cada um), a verdade aparece”…