A Galiza a dia de hoje é um país Europeu com enormes potenciais: humanos, técnicos, científicos e empresariais
Galiza sonha. E os tempos são chegados.
Se veiculamos os nossos sonhos em espanhol, inevitavelmente estes têm de passar pelo centro de gravitação do mundo hispano que a dia de hoje é Madrid. E os nossos sonhos sempre dependerão de situar os nossos projetos com centro em Madrid, e para lhes dar forma universal e os fazer visíveis deverão ser transcritos ao castelhano ou, mais corretamente, ao idioma universal conhecido como espanhol, o qual é uma forma de nos situar no mundo muito respeitável, mas que pouco ganho lhe da à cultura galega.
Mas se a Galiza utilizar o seu potencial dentro da Lusofonia, a Galiza estará em condições de criar uma rede internacional de interações que lhe permitirão ter um papel relevante e universal de primeira ordem, aumentando assim o seu poder de decisão na Espanha e na Europa. A Galiza teria uma voz própria dentro da Europa, somando assim os 3 milhões de galegos aos 10 milhões de portugueses, com mais peso na Europa que o Neerlandês. No entanto, para isso se aguarda dos galegos que sejam tão inteligentes como os Flamengos da Bélgica que optaram pela reintegração da sua língua no tronco comum do Holandês, em vez de a isolar dentro das próprias fronteiras geográficas onde ela é falada.
O Brasil tem um peso decisivo de primeiro ordem na América do Sul, e portanto o português esta a ter também esse peso com cada vez mais sucesso tanto no Uruguai onde já é 2ª língua, como na Argentina onde a procura de aulas em galego português está a alcançar recordes históricos.
Angola é a dia de hoje uma das economias mais fluentes do mundo e mais sólidas da África, sendo o país africano que mais esta a crescer por ano na atualidade. Os seus recursos energéticos e de subsolo estão a ser explorados por países como a China, daí o interesse da China pelo mundo lusófono (lembrar que junto à Rússia, à Índia e ao Brasil, a China faz parte da BRIC), este interesse da China traduz-se numa crescente procura de estudo do português como nunca se tinha atingido.
Em Moçambique a maior empresa pesqueira galega está a tirar um benefício extraordinário da exploração dos recursos pesqueiros daquele país, situado no Índico. Esta empresa saberá apreciar estrategicamente o papel que um galego reintegrado no tronco comum poderá ter para a promoção da própria empresa e ao mesmo tempo da Galiza como potência referente com quem é possível trabalhar a sério.
Galiza tem um potencial extraordinário a desenvolver através da sua cultura e da sua língua numa comunidade que abrange já perto de 300 milhões de falantes. O galego poderia receber uma percentagem muito interessante do seu PIB pela projeção linguística, como de fato já faz o castelhano, em vez de destinar tanto orçamento ao seu cuidado e proteção, sem tirar sequer um rendimento de manutenção do mesmo na delimitação das 4 províncias, onde o galego não só perde falantes, como também prestígio. Pois seria muito cego não ver que se o galego com a normativa atual tivesse prestígio, a gente faria uma aposta de se realizar nele; muito pelo contrário, escolhem o castelhano, logicamente, por que esta língua oferece muitas mais possibilidades tanto no mundo laboral como no sócio-cultural. Reintegrando o galego no seu contínuo linguístico, galego e castelhano seriam duas ferramentas tão potentes e com tantas perspectivas na aldeia global que os galegos passaríamos a ser uns privilegiados no mundo, além da Galiza ser uma útil ponte para entrelaçar os mundos Hispano e Luso.
Daí que os nossos escritores, poetas, atores, cientistas, etc… escolham o castelhano para a muito lógica integração internacional, fortalecendo a cultura hispana global e ao mesmo tempo enfraquecendo a cultura galega de forma lamentável, podendo dar-se o caso de enriquecer e potenciar ambas as duas. E tudo isto pela teima de escrever: O Minho pasa por Ourense, em vez de O Minho passa por Ourense. Triste não é… mas nisto estamos.
Desta forma privamos a Galiza do privilégio que poucos povos têm de ser conhecida por si mesma e na sua própria cultura e língua por todo o mundo. E isto por culpa de uma grafia, e como diz o sábio camponês amigo meu, que por si próprio descobriu que galego e português são a mesma língua ao igual que guatemalteco e peruano: “os homens criam fronteiras para assim se sentirem diferentes uns aos outros”. E nós a criar mais fronteiras até que o galego morra na sua terra, por que já ninguém lhe presta crédito. Poderia ele ter esse crédito simplesmente com mudar uma grafia. Teria um peso no mundo correspondente ao potencial que o nosso país com tanto sacrifício construiu nos últimos anos, com base em migrações e sacrifícios pessoais de gentes que nunca se conformam com ficar ignorados. Teríamos na Europa um peso acrescentado por ser a nossa língua oficial da mesma e na América do Sul os nossos saudosos emigrantes poderiam ser a ponte natural entre o Brasil e os países de fala espanhola. Mas não, é melhor não mudar a grafia, não vá ser que os galegos não sejamos capazes de levar com dignidade tanto poder, mesmo dentro da Espanha, onde o nosso peso aumentaria a nossa capacidade de levar à frente iniciativas de exito. Galiza poderia relacionar-se com o mundo atlântico ao ser considerada na Lusofonia um peso de primeira ordem, por cima mesmo do Brasil e Portugal nalguns campos; ao fim e ao cabo as ilhas britânicas ficam mais perto da Crunha que Cádis; com uma rede adequada de transporte marítimo estamos lá em três horas.
E tudo por culpa de um nh, ou um lh. A propósito, desde quando é o ñ uma letra galega? Como uma vez dizia Carvalho Calero, que conhecia muito bem o nosso acidentado percurso histórico, ao galego a dia de hoje só lhe restam duas alternativas: “ou ser galego castelhano, ou ser galego português”. Com uma reflexão que coloco a maiores: sendo galego castelhano pode o galego sobreviver, e em quê condições? E porém, não é certo que adoptando uma ortografia comum, galego e português, não só se poderá incluir o léxico galego dentro da Lusofonia, como a AGLP (Academia Galega da Língua Portuguesa) vai realizar, enriquecendo todo um conjunto de países irmãos, como também será visualizada Galiza no mundo como merece um país grande e moderno, do qual não fujam cérebros que enriquecem o seu património material e imaterial, e do que todos possamos estar orgulhos de ser o que sempre tivemos vocação de ser, e que com tanto esforço de séculos podemos agora conseguir? Acaso vamos permitir que nos livre do grande sonho construído com suor e sangue uma grafia?
E ainda há quem pense que ser galeguista é defender Miño contra Minho. Absurdo, mas o homem é o único animal que tropeça mil vezes na mesma pedra.
