Por Artur Alonso Novelhe
Em 1991 os EUA venceram a Guerra Fria. Conseqüências: as repúblicas ex-soviéticas e países satélites não saltaram pelo ar, mas foram engolidos pouco a pouco pelas potências que melhor preparadas estratégica e economicamente estavam naquela altura: Alemanha no Centro da Europa, com reservas por que ao mesmo tempo não pôde evitar que aqueles países da sua área de influência terminassem fazendo parte de uma aliança militar americana, e a França, que também não gostou desse fato, pelas implicações posteriores que trariam no seio da União.
Os EUA deveram ver um grande perigo quando a Perestroika soviética impulsionada por Gorbachev desenvolvera novas relações entre a Rússia e a Europa. Uma Rússia amiga da Europa, uma Rússia aliada da Europa?… Os norte-americanos deveram naquela altura ter fortes dores de estômago, mas logo encontraram o remédio aos seus ardores: a época Iéltsin fez retroceder a Rússia de 24 milhões de km2 e 300 milhões de habitantes a 17.1 milhões de km2 e 150 milhões de habitantes.
E os EUA acreditaram então ser a única Superpotência. Daí surgem os seus males: Washington não percebeu que o tabuleiro sobre o que joga a sua partida mundial mudou. Não percebeu e continua a agir conforme as velhas regras nunca escrituradas. E isso foi precisamente outro dos ferros após a Guerra Fria: não só não foram fixadas novas regras a seguir à queda da URSS, como também não se tratou o perdedor com a generosidade que ensina a história, pois um povo maltratado após uma derrota, e submetido à pilhagem provoca nele, a certo prazo, uma reação contra-imperialista e movimentos internos neo-imperiais na procura de voltar ocupar a posição e o potencial perdido; a não ser que este país fique completamente arrasado.
Mas Rússia não ficou militarmente arrasada, os seus recursos estiveram prestes a ser absorvidos; mas os tempos viraram de Iéltsin a Putin, que manobrou astutamente para fortalecer-se economicamente e hoje irrompe de novo, num cenário modificado.
Os EUA não compreenderam ainda que já não são a única superpotência global. Malversaram o seu tempo de jogo: não pensaram em criar um novo tabuleiro com demarcações precisas, em consenso com o resto dos atores fortalecidos após o derrube do muro de Berlim. Ao invés de isso, rebentaram os foros internacionais, cruzaram as linhas traçadas pelo anterior estatuto bipolar, desprestigiando a ONU na segunda guerra do Golfo.
Os EUA ampliaram as funções de guardião global a zonas onde a Europa devia assumir-se protagonista: bombardeamentos na Sérvia; propósito imperial de integrar antigos aliados da URSS. Como agora a própria Servia, primeiro dentro da EU depois na OTAN, seguindo a linha dos países bálticos e centro europeus. Impulsionaram acordos com novas republicas centro-asiáticas, levando bases americanas mesmo dentro dos antigos limites soviéticos; sempre sem outra reação que uma tímida resposta verbal do Kremlin. Mas…
Um erro após outro debilitam irreversivelmente. A cobiça não tinha limites no controlo do planeta. Henry Kissinger dissera uma vez na década de setenta: «quem controlar o petróleo controla a economia, quem controlar o alimento controla a população», daí a revolução verde na África, que dizimou povoações inteiras, entregou terras às grandes multinacionais e deixou os camponeses atados até o fim da vida às sementes ‘made in USA’.
Nesta linha Rockefeller, Bill Gates e alguma das maiores multinacionais de Organismos Genéticos Modificados, como a Monsanto, ou a Syngenta, junto com o governo norueguês, decidem instalar na ilha norueguesa de Svalbard um banco de sementes, construído no interior de uma montanha. Controlar a população? Supõem que os povos vão ficar sem reação ante a alça dos alimentos? Porém, no petróleo têm sofrido demasiados reveses. E a Rússia controla o abastecimento a grande parte de uma Europa com grandes necessidades energéticas.
Isto cria laços importantes em contraposição ao interesse do Grande Irmão Americano: Helmutz Khöl, de ex-chanceler alemão a diretivo da GAZPRON. O modelo Putin, Oligopólio Estatal, não muito democrático que digamos, molesta a imprensa européia oficial, mas dele gosta Berlusconi, ainda que na sua versão Monopólio Privado com Controlo Estatal.
A cobiça Americana tem desbordado Walt Streat, numa alquimia financeira que destrói famílias de classe média e média baixa, enquanto acode grande massa monetária da Reserva Federal aos grandes bancos pilares do sistema. Nada nunca é suficiente para o Capital, até ao ponto de já não serem os produtores mas os mesmos especuladores os grandes criadores da massa artificial de riqueza. O grande cancro do sistema de que falam os grandes analistas e ministros das finanças europeus.
A América declina, Ocidente declina com ele o seu poder, pois ambos jogam na mesma equipa. Então que procura a América, tensando a corda da imprudência bélica? Procura dar-se a ver como Omnipresente, agora que o mundo a começa perceber como Omni-Impotente.
Demasiadas frentes abertas, demasiado enquistamento: Israel – Palestina, com o seu grande aliado no Oriente Médio a perder por primeira vez uma guerra, a última do Líbano contra Hizbulá; por detrás o Irão, a Síria, o Iraque sem nenhum plano B: talvez o melhor desencadear uma guerra civil, antes da retirada das tropas, para que o poder Xiita aliado do Irão não se faça com o controlo total do país, como de fato controla Bassorá, e a partir daí o Sul.
«Uma guerra que anule o Irão», clamam de Tel Aviv. Mas neste quadro precisa do silêncio Russo. Muito complicado agora. Mas o Império supõe que ainda pode abrir mais uma frente: com a guerra da Geórgia, a Polônia e a Chequia apontam-se a assinatura do Escudo Antimísseis, Europa fica mais quebrada que nunca, como gostam os Gringos: não haverá sanções fortes contra o Urso Russo, mas também nom uma voz comum, numa Europa que no plano internacional parece só poder oferecer um espaço livre de alfândegas. A Ucrânia chama à sua porta, mas de mãos atadas à OTAN, e de novo uma frente mais aberta, com a Crimeia pelo meiio, e um possível aliado militar americano e outro possível dardo envenenado dentro da EU.
Colômbia a ponto de mover peça a favor dos EUA numa guerra inter-regional. Mas ao final pôde o Brasil acalmar as águas. O Brasil, que tem uma posição de vantagem, graças a Hugo Chávez ser a besta americana, graças a que o Grande Irmão não ganha literalmente dólares para mais domínio. E empantanado o Oriente, alargado até à Geórgia, não pode controlar o extremo do seu próprio pátrio traseiro. Conformar-se com tragar o México, limpar Centro América… E nisso nasce-lhes um Ortega na Nicarágua.
Tempos de fraqueza para a Potência Unipolar. Tempos que mudam para um mundo Multipolar. Os EUA não compreendem, consolam-se no divã a sós visionando filmes sobre Perl Harbor. Mitificam a sua grande superioridade tecnológica e cientifica. Mas as reservas e fundos não funcionam sem o auxilio Chinês, Europeu, Japonês, Árabe… A divisa Internacional começa a ser mudada em muitas zonas em favor do Euro. Ofegante cavalga o Império Global. Europa ainda pretende ser a ponte diplomata, pronta a conciliar. Mas a voz da Europa afoga-se dentro dela mesma.
Os EUA colocaram o Velho Continente numa situação que a longo prazo nem será muito boa para eles mesmos. Assim os EUA, aderidos por tantos meios, abrem tantas frentes que só lhes resta sonhar «com serem os eleitos de Deus na Terra»; ao tempo que o Papa sonha com um mundo confessional. Ambos têm os seus espelhos mágicos: o Papa a Polónia, os EUA Geórgia e mais algum. Enquanto eles sonham, (a Europa descansa no limbo), outros no mundo real pisam muito de vagar o terreno que eles deixam eclipsado pela sua própria luz de néon.
