O Grande Congresso Internacional Celta em Narom

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Por Artur Alonso Novelhe

 

Como bem afirma o Doutor André Pena Granha, no seu muito esclarecedor estudo sobre “o Caminho dos Celtas ao Fisterre”, há mais de 20.000 anos a população da Europa Continental refugia-se no Noroeste Atlântico da Península Ibérica, fugindo do gelo. Retirada a glaciação, a população longo tempo assentada, foi migrando durante o Mesolítico e o Neolítico da Galiza, como bem recolhem as lendas, primeiro em direção à Irlanda, depois à Grã-Bretanha, para regressarem posteriormente ao continente.

Esta afirmação coincide com a moderna investigação da Dinâmica de Populações, estudada inicialmente na Galiza pelo Dr. Angel Carrecedo, do Gabinete de Medicina Legal da Universidade de Santiago de Compostela (e premio Jaime I de investigação), as quais se acrescentaram, anos mais tarde, às achegas do Dr. Bryan Sykes, professor de genética humana da Oxford University e do Dr. Daniel Bradley, professor de genética na Trinity College.

Estas populações celtas, que em seu dia chegaram mesmo ao território da atual Turquia, serão a primeira cultura de que tenhamos notícia, que vai formar uma unidade europeia, baseada num contínuo cultural religioso, e estruturada sob um sistema piramidal controlado pelos Druidas, assim como um culto de veneração à natureza, ao universo que nos rodeia e aos deuses que nela influenciam, cujas funções não variam ainda a pesar da variedade de teónimos utilizados.

A importância, pois, hoje em dia, dos estudos célticos, parte na Europa deste facto unificador cultural, que dá um princípio de coesão aos diferentes territórios europeus, em base a uma sociedade de caráter mais espiritual e que pode mesmamente orgulhar-se de denominar-se plenamente europeia, em contra daquela, tão orgulhosamente defendida unidade romana, que, ao nosso modo de ver, representou um império netamente mediterrâneo, região que maioritariamente controlou e por onde evidentemente mais se expandiu. Império de Roma, cuja cosmovisão materialista trocaria o curso da historia europeia, ao substituírem a importância espiritual pela necessidade material de angariar recursos para a sustentabilidade da sua estrutura organizativa.

Num mundo tecnologicamente evoluído, onde a revolução das comunicações permite, a cada dia, maior conexão a nível global, a importância dos estudos celtas radica também em servir a diferentes países, regiões, comunidades e línguas de nexo de ligação histórico, artístico, turístico, económico, gastronômico, identidário, que permita superar por um lado os velhos paradigmas localistas concretizados na ideia errada da singularidade e particularidades únicas; e concretize pelo outro a realização de projetos comuns nas diferentes áreas tanto cientifico-tecnológica, como artístico-culturais, que vão possibilitar tanto a reafirmação de zonas e territórios já por si só dinâmicos e tecnologicamente avançados, quanto – e o que para nós é mais importante – o desenvolvimento de espaços que, dadas as suas caraterísticas específicas, ficaram marginalizados de onda mundializadora.

Numa época em transição, de um velho modelo de organização social, a cada dia mais em confronto com os novos modelos tecnológicos e as suas aplicações práticas, a um novo modelo mais evoluído, que faça evidente o salto quântico que a humanidade precisa de dar para solucionar os múltiplos e variados problemas que o planeta enfrenta; onde o velho paradigma de homem dominador e conquistador da natureza e o seu habitat, deverá mudar para um novo paradigma do homem conciliador e respeitador do meio e as suas riquezas (vitais a esta altura para a sobrevivência da própria espécie), os estudos celtas não só podem fornecer ao acervo comum da humanidade uma nova visão de respeito aos valores ecológicos, que em conjunto com outras visões de outros povos podem ajudar a tirar-nos do labirinto evolutivo a que nesta altura chegaram as nossas sociedades, – onde à crise econômica temos que acrescentar a crise ecológica e a crise de valores –, desprezar estes novos valores que vão possibilitar a mudança psicológica, filosófica, política, económica, em suma, organizativa, dos velhos paradigmas às novas formulações e cosmovisões planetárias, não só seria uma ato de desprezo gratuito, como também uma espécie de porta aberta ao suicídio coletivo.

No tocante à Galiza, a importância dos estudos celtas radica em ser a velha Kalaika a matriz do mundo celta, como bem demonstram os estudos científicos que nas diversas áreas, da genética, linguística ou arqueologia, estão a ser feitos. O qual possibilita à Galiza uma porta aberta a criar um centro permanente desta disciplina, capaz de formalizar redes atlânticas em todos os campos, que ajudem a gerar riqueza em todos os seus âmbitos e aceções, para todo este fértil mundo atlântico e as populações que em ele se assentam, quer sejam britânicas, portuguesas, irlandesas, galegas ou mesmo brasileiras.

Por outro lado, sendo a antiga Gallaecia o berço também da língua e cultura lusófona, não estaria a mais fazer da Galiza uma ponte de ligação entre estes dous mundos, nomeadamente atlânticos, agora que, além de mais, os últimos trabalhos vêm de situar o nome Brasil como uma das ilhas da mitologia celta, que a cartografia medieval assinala ao extremo oeste da Irlanda.

Se a Galiza desempenhasse este importante papel de ponte entre estas duas culturas, geraria um posição de privilégio que dotaria o nosso país dessa grande oportunidade que os galegos estivemos esperando, desde a doma e castração efetuada pela católica rainha castelhana.

Agora a história abre-nos de novo o baú das oportunidades, mas vai depender de nós aproveitarmos com dignidade e honra esta magnífica oferenda que nos fazem os deuses atlânticos.

Este fabuloso Congresso Internacional sobre “Os Celtas da Europa Atlântica”, a celebrar em Narom nos dias 15-16-17 do vindouro abril, iniciam certamente esta caminhada, com figuras de prestígio a nível internacional, vindas de universidades tão prestigiosas como a Soborna de Paris, a London University, a Universidade do Porto, a Universidade de Urbelândia, a Complutense de Madrid, além das Universidades galegas, cujos professores estão hoje entre os especialistas mais em destaque desta matéria.

O Instituto Galego de Estudos Celtas é bom organizador deste evento, que contará com mais de 30 palestrantes de todo o mundo atlântico.

Eis a ligação onde as pessoas que gostem podem apontar-se: www.estudosceltas.org