O Caminho Mágico dos Celtas

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Por Artur Alonso Novelhe

Chovia, e no entanto, saímos.

– Santo André proverá – disse o Professor Pena Graña, e eu olhei para ele como quem atentamente observa dez mil anos de sabedoria.

Saímos, pois, de Narom, pois Narom também tem caminhos e na Galiza todos eles conduzem até Avalom, a ilha das maçãs em primavera, a ilha eterna em juventude.

Iniciando o pé até Santa Comba e ao Dólmen que perto testemunha milhares de anos, que a maiores acompanham o nosso destino, esse que procuram os homens, esses que desviam os caminhos: daí porquê nos perdemos.

– Santo André proverá… e santo André proveu contemplar Santa Comba da Ponta Prior, no cabo que o nome lhe empresta agradecido, de que nós ao longe imaginemos «Os caminhos dos santos e as barcas de pedra» no horizonte detidos. Esses caminhos hoje conhecidos pelo «Caminho Francês», têm a sua provável origem num passado pagão, quando no Neolítico os homens vêem o sol como um bem muito necessário nas suas vidas.

Nas sociedades de caçadores e semeadores, os nossos agricultores viam o sol remontar pujante ao nascer do dia, detendo-se quedinho ao meio do dia e declinando depois, em direção ao mar, para iniciar-se outra noite, por eles tão temida. Estas doze horas do dia coincidem com os doze meses do ano, correspondendo-se no seu evoluir com a posição dupla dia/noite, luz/escuridão, vida/morte; como a estival época clara da primavera, do verão é seguida duma invernal época escura onde a luz do astro deixa passo às horas de sombra.

Desaparecendo, pois, absorvido pela noite, o sol ressurge em cada primavera com resplendor renovado. Daí que ao observarem estes fenómenos os nossos antepassados do hemisfério norte, na Europa Ocidental Atlântica, pensassem com segurança que seguindo o sol na sua carreira, renascer iam também as nossas almas após a morte.

Falava o professor com este calor e amor nas palavras de quem sabe sem presunção, de quem dá sem pedir em troca. E como a conversa ia demorada, não havendo motivos para interromper, rumámos para convidar e fazer participar da mesma a «Moura da Pena Moleja». Enquanto percorríamos sineiros vales bem assentados, assente o professor nos explicava como numerosos petróglifos atlânticos, da Idade do Bronze, mostram em relevo perfurado nas rochas um sol muito baixo dirigindo-se até um navio que, sobre as águas do Oceano, está aguardando. Como também estão a aguardar as almas de animais e homens que lá fazem caminho em procura de descanso. Como nas lajas da Galiza onde aparecem as alma subidas em suas barcas de pedra até o pôr-do-sol, em última travessia vogando.

Assim como o andar também cansa em Pena Moleja sentamos, enquanto a Moura, invocada pelo Professor André Pena, ia aos nossos ouvidos evocando múltiplas histórias das quais eu uma, pelo seu valor, ressalto:

De extraordinária formosura esta mulher, ser mágico, fantástica, nas noites de São João aparece-se como a mais bela das belezas femininas jamais vista sobre a terra a um moço que vagaroso se assoma dos seus domínios. Oferece-lhe a bela moça o seu amor ou um tesouro escondido de dimensões nunca vistas, e os jovens, normalmente levados pela cobiça, escolhem o tesouro desprezando a donzela, bondosa e em outra qualidades rica. Acontece, a seguir, para seu mal feitio, o ouro converter-se em cinza, e as mais das vezes como castigo ficarem os moços em pedra aderidos, dorida sua alma até a eternidade retida.

 A Moura falou sincera antes de voltar a seu soterrado mundo, enquanto o professor com agarimo em nosso nome fazia as despedidas, transformando-se ele em três mulheres contínuas: a nova, a segunda que é a mãe, a terceira a velha que transporta na sua mão uma grande pedra que assenta com dedo onde lhe convier, indicando-nos de esta forma que a Serra da Capela estava na nossa fugida. E à serra chegamos e na serra de novo fomos seres perdidos.

– Santo André proverá!… e ao pouco tempo, como do poente surgidos, uma parelha de moços nos acompanhou até Teixido. Andamos com sumo cuidado, não fosse ser que pisássemos pelo caminho as almas que se transportam em forma de inseto, réptil ou bicho, tomando a rota de Santo André, que como bem é sabido: «A Santo André de Teixido / quem não vai de morto / é porque foi de vivo»…

Saudamos, com muito respeito os homens que falam ao vazio, pois como as almas são cegas, alguns bondosos ajudam os seres queridos, falando-lhes alto e concreto, preocupados de que não se extravie, seu irmão, pai ou avó, mentes a seu lado fazem o percurso. Recolhemos, depois, uma pedra a fim de sermos redimidos, deitando-a sobre os «Milheiros», pois pelas gentes é bem sabido que essas pedras hão de falar chegado o fim do mundo, e nossas testemunhas hão ser das boas intenções que levamos neste caminho.

Para, já no fim do dia, do alcantil mais alto da Europa soberba e às vezes fria, com a presença dos Deuses Celtas, frente ao Atlântico indomável, de si próprio cativo, olhando a curvatura do horizonte, sermos testemunhas firmes da mais grandes das magias, para a alma dum galego que se preze de ser livre: o sol adormecido entre a névoa, as nuvens trás dele como majestosas  cortinas, de celestial dourado luminoso, de um branco limiar intenso abrir-se destino, indicando sobre o mar com estrelados lampejos precisos, o caminho até Avalom, que seguem os corpos vencidos.

Foi em presença do nosso Grande Mestre, o nosso particular Druida, ilustre interlocutor entre a gente de aquém e a de além que mutuamente se escutam, com palavra que diz verdade, e com o vento traz de novo a voz de aqueles que foram vestígio.

A eles, nossos ancestros, aos Deuses que em tal dia nos saudaram amigos, aos avós dos nossos avós com orgulho, deste alcantil nos dirigimos, gritando do interior da alma: «Não deixaremos que nos roubem, arteiros e vendidos, a identidade construída pelas vossas cinzas, hoje raízes».

Obrigado Professor Pena Graña, por essa aula de luxo, esse rigor na palavra, por este dia já inesquecível.