O Brasil desiste de ser hegemónico



bolsonarovirusO recente discurso do Presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, diante da Assembleia Geral das Nações Unidas, deixa um esboço bastante claro de qual o rumo tomado pelo governo atual.
Além da visão de guerra fria fabricada para consumo interno das suas bases, dentro dum país, ideologicamente, a cada dia, mais polarizado… No alinhamento global, o governo Bolsonaro, deixou bem clara a sua associação com os sectores financeiros globalistas privados, representados pelo poder Ocidental, em guerra aberta, já não encoberta, com o modelo global chinês, de controlo estatal sobre as finanças.
E desmarcando-se também da visão patriótica antiglobalista, hoje em dia, com menor influência, e talvez somente sustentada por parte do poder russo.

O problema deste posicionamento é que ele se alinha dentro da tese norte-americana, herdada da distorção feita a doutrina anti-imperialista Monroe, convertida pelo coronel Edward Mandel House, e o poder financeiro internacional, que toma o controle dos Estados Unidos, em 1913, numa doutrina imperialista, pró-ocidental, onde todo o Continente americano, ao sul do Rio Grande, passa a subordinar a sua economia, ao Poder Corporativo norte-americano, depois também europeu e hoje também chinês.

No alinhamento global, o governo Bolsonaro, deixou bem clara a sua associação com os sectores financeiros globalistas privados, representados pelo poder Ocidental, em guerra aberta, já não encoberta, com o modelo global chinês, de controlo estatal sobre as finanças.

Esta doutrina ampliada por Spykman, no sentido de se for preciso, realizar uma intervenção norteamericana em qualquer parte do continente, isso não devia estar em dúvida. Mais tarde Kissinguer viabilizou a inversão desta visão, pela de intervenção indireta, para travar qualquer tentativa soviética de adentrar-se no continente americano.

Os poderes corporativos norte-americanos realizaram assim, após a II Guerra Mundial, o revezamento do poder britânico no continente.

O problema é que um estado como o brasileiro não tem um centro financeiro global, como o Ocidente ou a China, pelo qual, ao abrir mão da sua indústria estratégica, em forma de privatizações, entrega este acervo vital para a independência nacional e futura consolidação, dum centro hegemónico na América do Sul, aos poderes globalistas internacionais, bem sejam ocidentais ou chineses.

O problema é que um estado como o brasileiro não tem um centro financeiro global, como o Ocidente ou a China, pelo qual, ao abrir mão da sua indústria estratégica, em forma de privatizações, entrega este acervo vital para a independência nacional e futura consolidação, dum centro hegemónico na América do Sul, aos poderes globalistas internacionais, bem sejam ocidentais ou chineses.

Se pode evitar um peso excessivo do Estado que possa estrangular o sector privado e, à sua vez, a eficiência económica, baseada numa dinamização de fluxos entre ambos sectores… Mas deixar ao Estado, único garante da soberania económica nacional, ante o embate do grandioso poder corporativo e financeiro internacional, sem a capacidade estratégica suficiente, para exercer o mesmo, aparenta pouco menos que uma aposta de muito risco, para um país imenso, com extraordinárias potencialidades e, presentes e futuras possibilidades, como o Brasil…

Subordinar a agenda nacional em favor duma agenda continental desenhada por Havana ou Caracas, também não parece muito inteligente.

brasilO Brasil, precisa, pela contra, de uma agenda de unidade nacional, com acomodo político dos diversos sectores, em favor duma estratégia de crescimento hegemónico e expansão, na América do Sul, e no sul da África, com reabilitação da aliança com a Índia, e a África do Sul, Angola, Moçambique… Que permita desenhar um mercado global sul – sul, como uma terceira via de desenvolvimento, entre o poder chinês e ocidental…

Terceira via, que mesmo poderia num futuro travar as tensões, a cada vez mais inquietantes, entre a China e os Estados Unidos.

Mas isso somente será viável se primeiro não se acomoda o pátio político, social e cultural interior.
Evitando maior divisão e guerra interna da qual somente podem sair beneficiados interesses forâneos que procuram manter o Brasil, atrasado e atrelado, no seu labirinto de confrontos internos e descuidos geopolíticos… Sem, finalmente, capacidade de nenhum bando submeter ao outro, situação que cria um desgaste de longo prazo, que hipoteca toda oportunidade de futuro, no gigante sul-americano…

Todos os povos de cultura latina, de raiz celtibérica, ficam adoecidos quando nos grandes Fóruns, onde se debate o destino do mundo, o Brasil está ausente… A Índia, pela contra, como a China, Rússia e Ocidente, sempre está presente… Todos eles entendem bem como se cria e fortalece uma determinada hegemonia, seja regional, continental ou mais global. E como esta se defende de interesses adversos.

Reflitam, pois, os poderes do grande irmão brasileiro, antes da sua falta de visão, tomar um caminho de não retorno…
Lembremos que algum dos sócios aos quais o Brasil agora está alinhado, já manifestou o seu interesse pela Amazónia, ou, mesmo alguma personalidade falou publicamente da Amazónia ter de ser gerida pela ONU…

Menos guerra interna e mais profundidade estratégica…

Artur Alonso Novelhe

Artur Alonso Novelhe

Galego, mas nascido no México, é diplomado pela Escola Pericial de Comércio de Ourense. Exerce como funcionário do Serviço Galego de Saúde do Governo da Galiza. Publicou várias obras de poesia e colabora habitualmente com diferentes publicações, entre as quais o PGL. É sócio da Associaçom Galega da Língua (AGAL) desde os meados dos anos 80 e académico da AGLP.
Artur Alonso Novelhe

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