Por Artur Alonso Novelhe
Acontece que está acontecendo, um lento mas implacável movimento de placas tectónicas, desloca o centro do poder unipolar e vai situando os novos poderes multipolares, em cima do tabuleiro. Em Yekaterimburgo está a acontecer, e o simbolismo tem algo a ver nisto. Em Yekaterimburgo fuzilaram o último Czar, em Yekaterimburgo em 1960 foi abatido o piloto norte-americano Gari Power, do invisível e logo visível avião U-2.
Reunidos os presidentes do BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) decidiram acabar lentamente, de vagar mas com firme passo, com a festa gratuita dos EUA.
O sistema atual assente numa forte dívida dos Estados Unidos da América, numa emissão sem fim de títulos do Tesouro Americano, que as potências emergentes, junto aos Emirados Árabes e a União Europeia compram e lhes permite ao Governo Americano dominar o mundo, financiar as suas bases militares e guerras energéticas, que permite também às corporações transnacionais americanas comprarem empresas de ótimo rendimento nesses mesmos países, ou obrigar os empobrecidos a pagarem as suas dívidas à custa da asfixia das suas populações, pode começar a ter um princípio de retrocesso.
Os países emergentes não podem deixar de investir na dívida americana, porque se não o fizerem o dólar afundaria, as suas divisas nacionais alçariam as cotações e as exportações dos mesmos se veriam gravemente ameaçadas, criando desemprego e grandes desajustes no sistema internacional; o qual não nos leve a engano, a nenhum lhe interessa derruir.
No entanto, a Rússia está muito zangada desde que os Americanos decidiram financiar com os dólares que retornam a sua economia, via compra de Títulos do Tesouro Americano (pelos russos entre outros), o escudo antimísseis na República Checa e na Polónia, ajudar a Geórgia a ser membro de pleno direito da NATO, etc. À China acontece-lhe o mesmo ou mais desde a tentativa de boicotar as Olimpíadas de Beijing, e a Índia vive desconfiada, desde há muito, da ingerência das agências norte-americanas no fracasso da sua nova relação económica num mercando único indo-paquistanês, com alargamento à fronteira chinesa.
No caso do Brasil, apesar da sua interesseira relação como os EUA, e a sintonia afetiva Obama – Lula da Silva, também quer participar em certa medida do almoço gratuito que os Americanos inventaram só para si, a um tempo que aspira a jogar um papel de ponte de entendimento entre os países emergentes e os próprios EUA, de jeito diferente, mas na linha do seu papel de interlocutor entre a Ibero-américa e Washington.
Deste modo os Países BRIC, estão tentando incrementar o mercado direto entre as suas próprias divisas para assim receber menos dólares, ao tempo que num futuro poderão obrigar os EUA a enfraquecer o seu programa militar, obrigando assim a deixar livres zonas de influências, que estas potências reclamam para si, como pode ser o Centro da Ásia.
De isto acontecer, a Rússia, a Índia e a China, que têm as suas próprias rivalidades, teriam de chegar a acordos pontuais para tentar criar novos governos amigos na zona de controlo. A Rússia já o fez quando despojou os EUA do domínio total sobre o cinturão que dividia a sua fronteira com a chinesa, impedindo à vez, que os Norte-Americanos cercassem e isolassem as duas potências.
Ocidente, pois, deve contra-atacar para evitar perder o seu domínio na região. Irão é a dia de hoje uma das peças chave para impedir esse projeto. Daí o apoio de Ocidente a um candidato reformista como Mousavi, apoiado pela burguesia e classes média e alta iraniana que visam um acordo com Ocidente favorável aos seus negócios. Ahmadinejad, pelo contrário, é o homem anti-ocidente, apoiado pelas milícias e o exército, assim como pelas classes pobres, camponeses e operários, que na atualidade são maioritárias. Uma mudança de regime no Irão vai ser muito benéfica para Ocidente, por isso a Rússia, a Índia e a China já se apressaram a reconhecer a vitória de Ahmadinejad.
Além de valorações éticas sobre os acontecimentos, as escolhas da mídia internacional vêm sendo avaliadas segundo os interesses dos seus respectivos patrões: deste modo, as eleições da Venezuela, ganhas por Chavez, ou as da Palestina e Gaza com a vitória do Hamas, foram tachadas de fraudulentas. Evidentemente nem Chavez nem Hamas eram os aliados. Assim, porém, no Líbano sim foram aceites os resultados, apesar de muitos analistas independentes falarem de a coligação liderada pelo Hezbollah obter 53% dos votos. Neste caso a mídia Ocidental celebrou rapidamente os resultados e os líderes ganhadores encorajaram rapidamente os seus seguidores a inundar as ruas de ledice.
Ocidente deve tentar, e isso é o que faz que o seu declínio seja o mais lento possível, ou do contrário os desatinos também serão múltiplos.
As necessidades marcam os passos na política e a necessidade Americana de crise económica chamava por um Obama negociador, pois biologicamente o império atingira o seu limite e já não podia caminhar impondo a sua bela vontade, sem um risco de implosão financeira dentro da própria casa.
Depois da queda de Wall Street o dólar começou a perder o seu papel de moeda forte e patrão monetário internacional, a desconfiança inundou o globo.
Agora o BRIC, junto com a Organização de Cooperação de Shangai simplesmente está a levar a adiante um desenho mais acorde com a realidade atual do mundo.
Lembremos: Não ofende quem quer, mas quem pode. E hoje Ocidente já não pode dominar todo o mundo, sem pactuar devidamente. Terá de ceder espaços, e se for astuto, chegado o momento, dar um relevo pacífico aos novos donos do planeta. Senão, com toda esta carga de armamentos sobre a qual dormimos, o mundo poderia também ficar reduzido a cinzas.
