CARTAS MEXICAS

Nova era ecológica



A era económica de controlo do capital, criação de escassez e domínio das patentes chega a seu fim. Tudo quanto se torne propriedade, mesmo a intelectual, remata criando controlo dum pequeno grupo sobre um determinado bem comum.

Vários autores, em diversas áreas, por todo o mundo, têm visionado o fim desta era capitalista (vencedor da guerra fria e, pelo tanto, fim já da tentativa socialista) e chegada duma nova era, que não sabem muito bem definir. Podemos intuir mas não definir.

O economista britânico Paul Maison fala de pós-capitalismo. Manu Saaida fez uma comparativa com o modelo económico da série Star Trek, num mundo sem salários, sem moeda… Onde o prestígio pelo aprendizado seja a base de incentivação humana. Muitos outros economistas falam abertamente da impossibilidade de avanço tecnológico (com a consequente destruição de emprego) sem a inserção duma renda social básica (argumentando, entre outras coisas, que em aqueles países como Índia ou Brasil onde esta renda foi incrementada o emprego de qualidade subiu, o gasto em sanidade e educação baixou; incrementando-se ainda o acesso à formação).

O modelo atual económico que tende a concentração da renda e a criação dum capitalismo neofeudal baseado na absorção do património coletivo por uma elite financeira (que por sua vez utiliza este acervo para criar renda, obrigando a sociedade a um continuo pagamento pelos serviços) não parece ser compatível com uma futura sociedade tecnotrónica. As novas tecnologias aceleram o acesso livre à informação e travar esse aceso significa travar o desenvolvimento das mesmas.

Maison analisa, num recente artigo publicado em The Guardian, a existente contradição latejante entre a quantidade de produtos de informação acessíveis de graça e o atual sistema de monopólio, bancos, lóbis e governos que tentam privatizar e manter os benefícios comerciais em mãos duma pequena elite. Esta contradição aumenta por um lado a necessidade, que artificialmente têm as elites de criar escassez para controlar a riqueza, e por outro a necessidade que tem o sistema de expansão tecnológica de criar abundância informativa: compartilhá-la e aproveitar com maior facilidade a rede de interrelações pessoais em uma escala mundial

Novas sociedades terão, pois, de ser criadas em torno à abundância, alicerçando o fator humano como central e tirando-lhe a centralidade à economia. Nós iríamos muito mais longe: o planeta e a variante ecológica como centralidade.

Por outro lado, muitos são os analistas que se tem debruçado sobre o espinhoso tema do pico do petróleo e a descoberta de novas tecnologias (mais adequadas para uma eficaz solução dos problemas da humanidade). Muitos condizem na abordagem destas novas tecnologias (incluídas as fotovoltaicas) terem um custo muito baixo e uma fabricação relativamente acessível (em determinados casos) às comunidades de base. O que num futuro pode mesmo derivar em alteração da capacidade das transnacionais para assegurar o seu controle. Aliás, tendo em conta que as novas tecnologias da informação precisam da comunidade em rede; a autogestão de recursos terá de abrir-se passo, pouco a pouco, como alternativa real (não fictícia) ao poder neofeudal das rendas.

Uma nova experiência humana surge, pouco a pouco, mais adaptada à sua vez a verdade natural da teia da vida: o homem abandona pouco a pouco o ser ególatra freudiano e luxurioso, que ansiava domínio e poder para realizar seus caprichos; em face dum novo ser humano que tem necessidade de viver ativamente sua experiência em grupo. Obrigando-se, por esta inércia, a uma educação dentro dum entorno mais participativo (mais recetivo as necessidades mais amplas da comunidade, onde está inserido).

A ecologia cobra aqui seu maior significado, por que as novas tecnologias põem de relevo a necessidade comum de compartilharem o planeta. O ser tem com elas mais capacidade de descoberta e compreensão da riquíssima teia da vida. Essa mesma teia da vida impõe também como paradigma o trabalho em rede.

Estas tecnologias com as que trabalham, por exemplo, o brasileiro Norbeto Keppe (na sua Nova Física da Metafísica Desinvertida , a Magnetónica ou desenvolvimento do Motor Keppe) caminham a esse encontro entre o novo ser humano (renascido das dinâmicas de guerra-confronto) e o conceito de abundância natural multiplicando-se (entendendo abundância natural renovável, como respeito e aprendizado das técnicas que permitem à natureza a criação da extensa teia da vida).

A auto-organização deve avançar pois na dicotomia de ultrapassar o velho paradigma esquerda–direita, próprio do período decadente de guerra-confronto (necessário na anterior experiência humana criada desde que o homo sapiens gravou, com lume. a visão interior de dominador como único meio para garantir a sobrevivência).

As novas tecnologias, avançando em todas as áreas do saber (a raiz da abertura da física quântica), prazerão a humanidade capacidades, ate o de agora, referenciadas como ficção. A robótica pode contribuir extraordinariamente para liberar as pessoas das suas responsabilidades laborais – centrando-as nas ruas responsabilidades de crescimento pessoal e coletivo.

Mas antes de chegar a essa esperança futura, devemos ainda trilhar muito caminho de medo, sofrimento, precariedade. A existência já de milhões de pessoas com condições laborais precarizadas é um exemplo das múltiplas provações que teremos que ultrapassar. Mas, como diz o ditado romeno: o caminho também está feito de pedras.

A mais urgente, pungente, das atividades a dia de hoje passa pelo pacifismo integral. Impedir a possível nova Grande Guerra é nossa primordial prioridade. A realidade do Meio Oriente (onde a faixa de fricção pela hegemonia entre Rússia China e o Império Ocidental se fez mais evidente) compagina dentro do seu seio múltiplos atores secundários com interesses encontrados (Turquia, Irão, Israel e Arábia Saudita); não permitindo uma solução integral que não dizime os anelos dalgum protagonista.

Sem um poderoso movimento pacifista mundial (agora mesmo em decomposição) não será possível travar as animosidades belicosas, que põem em risco toda a humanidade (dado a possibilidade real dum envolvimento atómico). Isto tem de ser neste momento a nossa prioridade máxima: começar a articular o movimento pacifista; e a Galiza não deve ser uma exceção.

Esse pacifismo tem de começar pela ausência de violência em todos os seus matizes. Para isso é precisa a pacificação do indivíduo, as suas guerras internas e contradições, por meio da introspeção e observação continua. Atingindo níveis de reprogramação através do exercício a ética ativa, a prática ecológica e compreensão do próximo. Um grande trabalho necessário para toda a humanidade, se quisermos passar desta etapa velha de Império da Guerra, em ruína.

Pacifismo integral ativo, também requer de ação em todos os campos reivindicativos e lutas sociais em procura duma sociedade mais justa (sem nenhum tipo de recurso à violência). Trabalhando em favor da autogestão e auto-organização. Trabalhando pela cooperação ética.

Devemos ser cientes que não poderemos criar a futura sociedade libertária (sem amos nem servos) se não formos capazes de evoluir na psique; de modo a tornar-nos, como dizia Gandhi, a mudança que queremos ver no mundo.

Essa evolução da psique deve ter paciência para aguardar pela maduração coletiva (entendendo que haverá ainda muitas pessoas que trilhem o caminho ególatra da ganância, violência, desrespeito…). Não devemos permitir que interrompam a nossa maduração, mas também não podemos olhá-las com arrogância ou desprezo, pois em esse caso nós estaremos em retrocesso.
Devemos entender que sempre há distintos níveis evolutivos (a natureza nos oferece exemplos vários disso)… E ao igual que nós ainda precisamos muito avançar, outros podem precisar ainda muita experiência extrema de sofrimento antes de chegar, dentro de seu coração, a enxergar a luz do amor fraterno.

A nova etapa será de Confraternização (como muitas vezes temos falado). Mas antes teremos de aprender a abandonar o caminho inútil da imposição pela força: guerra–destruição.

Pico della Mirandola: “A guerra não é a última palavra”.

 

Artur Alonso Novelhe

Artur Alonso Novelhe

Galego, mas nascido no México, é diplomado pela Escola Pericial de Comércio de Ourense. Exerce como funcionário do Serviço Galego de Saúde do Governo da Galiza. Publicou várias obras de poesia e colabora habitualmente com diferentes publicações, entre as quais o PGL. É sócio da Associaçom Galega da Língua (AGAL) desde os meados dos anos 80 e académico da AGLP.
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  • Adela Figueroa

    Gostei. Parabéns.

  • Ernesto V. Souza

    Uma era de sentidinho… quem nos dera, caro, quem nos dera… bom texto.