No passamento do companheiro e amigo José Paz Rodrigues



José-Paz-Rodrigues.jpgQue difícil é falar das pessoas que sentimos por muito tempo tão próximas. De Pepe Paz fica-nos pegado como lapa o seu sorriso luminoso e a sua inocência. Sim ele era num oitenta por cento inocência, num dez por cento malandrice pícara, e noutro dez por cento ingenuidade. Como exemplo de malandrice pícara pois o facto de sempre tirar-se alguns ano ao dizer a idade. Essa sua ingenuidade não lhe impedia conhecer muitíssima gente e saber de todos alguma história ou de que pé andavam coxos.

José Paz viu a luz em 1948, um 12 de abril na Corna, uma aldeia da comarca do Carvalhinho, muito perto de Dozom, e lá teve o seu derradeiro descanso. Para ele nascer e estar na escola foi algo que aconteceu praticamente ao mesmo tempo, pois nasceu na escola d’A Corna.

Ele adorava a profissão de mestre, adorava as escolas e adorava o alunado, podia estar incansável arrodeado de crianças por horas sem fim, nesse meio estava como o peixe na água. E claro, fixo-se mestre.

Desde 1971, dá o salto a que era na altura Escola Normal de Ourense, o centro de formação de futuros mestres e mestras, e quando a sua aposentação era professor de didática na já Faculdade de Educação da Universidade de Vigoi

Da sua etapa de mestre, tirou dos companheiros, bons amigos para toda a vida, e por cima de posicionamentos e visões do mundo, a fidelidade com os amigos em Pepe Paz permanecia. Teve vários anos de companheiro de escola a José Luís Baltar, o que andando o tempo se havia de converter em cacique ourensão de velha escola, e a sua amizade permaneceu inquebrável…. Isso era o comum para todos os que tivemos a sorte de tê-lo como amigo.

Desde muito novo, uma das suas preocupações, amores e anseios, foi a Galiza, a sua pátria, que se juntou uma paixão que o recozia, os livros, era leitor incansável e procurador de livros em qualquer canto do mundo.

Para todos os seus amigos ele tinha fama de austero e um chisco agarrado, mas quando o assunto eram livros, desaparecia qualquer prevenção ainda que essa prevenção estive-se bem incutida no seu ADN.

A sua biblioteca ou bibliotecas, ultrapassaram mais de 30000 volumes, ele dizia 36000, repartidos em vários locais, a mais grande está nas Galerias Roma em Ourense, mais também na casa da aldeia e noutros locaisii. Nos livros havia vários campos de interesse, por um lado os que tinham, a ver com a Galiza e a sua cultura no sentido mais extenso do tema, tinha todo do reintegracionismo. Por outro os do mundo da didática e o ensino. Estavam também os ligados a sua paixão polo cinema, por isso esteve sempre ligado ao Cine Clube Padre Feijóo de Ourense e a muitos outros cineclubes e federações de cineclubes. E uma última e profunda paixão que era o grande poeta da Bengala, Rabindranath Tagore, de Bangla, como dizia ele que chegou a dominar a língua bengalí. Tagore foi objeto do seu demorado estudo, tema da sua tese de doutoramento, estava trabalhando neste momento num livro sobre Tagore e a Lusofonia.

A sua biblioteca ou bibliotecas, ultrapassaram mais de 30000 volumes, ele dizia 36000, repartidos em vários locais, a mais grande está nas Galerias Roma em Ourense, mais também na casa da aldeia e noutros locaisii. Nos livros havia vários campos de interesse, por um lado os que tinham, a ver com a Galiza e a sua cultura no sentido mais extenso do tema, tinha todo do reintegracionismo.

José Paz, em aulas ao ar livre em Santiniketon

José Paz, em aulas ao ar livre em Santiniketon

O que sentia por Tagore, e essa paixao tagoriana dele, levara-o neste século XXI a ir a universidade fundada por Tagore de Santiniketaniii, e que descobrira a Índia, toda uma nova paixão, para ele. Começou por ir uns meses a universidade e acabou por passar até oito meses ao ano trabalhando na Índia, trabalhando na universidade, trabalhando com crianças, criando um clube nacionalista galego em Santiniketan…e convidando a amigos e amigas a irem até lá para descobrirem a Índia e a semente frutificada do espírito de Tagore.

Nos anos 70 do século passado, ele é das primeiras pessoas em enveredar, que o futuro da nossa língua nacional, tem que se enxergar com o português, o galego com sucesso. Galiza, dizia ele, é uma grande Olivença. Entre os seus amigos estavam Issac Alonso Estraviz, Antonio Gil Hernández, José Luís Fontenla etc, curiosamente nenhum deles discípulo de Carvalho Calero.

Pronto adere as Irmandades da Fala da Galiza e Portugal, a primeira entidade reintegracionista que houve na Galiza, afirmando-se como tal. E ele e os demais apostam polo BNPG, e logo BNG, pois politicamente achavam que era a única força com um forte substrato e que não se abaixaria ante os dominadores, nem aceitaria a dominação subliminal do castelhano, a começar pola ortografia do castelhano para a nossa língua, frente a nossa histórica, pois a dependência do castelhano converte-o na norma de correção da nossa língua.

Quando dous anos depois nasceu a AGAL no 1981, ele lá está.

Nas primeiras eleições municipais em muitas localidades nas que agiam reintegracionistas no BNG, como em Ponte Vedra, Vigo e outros lugares, realizou-se propaganda pública na norma que gastavam as Irmandades da Fala da Galiza e Portugal. Ele comentava, -Paco Rodrigues e Pilar Garcia Negro, vultos ideológicos do Bloco são reintegracionistas-.

Fontenla logo amostrava com estatísticas bem elaboradas, que a propaganda reintegracionista não produzira nenhuma desviação padrãoiv no voto ao Bloco, com respeito a outros lugares onde a propaganda, fora em temas de escrita bem pacata, ou incluso a leitura era outra, quanto mais pacata menos incidência. Lembro duma assembleia em Compostela onde Fontenla acabou se ganhado o auditório todo.

José Paz era desde o começo membro da ASPG (associação socio-pedagógica galega). Em 1980 a associação põe em marcha a revista o Ensino destinada ao mundo do ensino e ao mundo dos professores e dos sindicados na UTEG (Uniom de Trabalhadores do Ensino da Galiza). O número zero aparece em 1980. A revista era quadrimestral.

O debate sobre o modelo de língua, era bem intenso, acabavam de sair a luz as normas da Comissão estabelecida pola Junta pre-autonómica da Galiza (BOG num. 6 Maio de 1980). O ILG e o governo do estado queriam fazer delas águas de bacalhau. A língua nacional da Galiza, após séculos de exclusão ia entrar no ensino.

A revista Ensino, os seus primeiros números são um tesouro arqueológico dos primórdios do reintegracionismo. A partir do número 4 de 1982, a revista é claramente reintegracionista, e percebe-se que só esse é o futuro de sucesso para a língua. Isso fora o resultado de um grande debate interno, claramente ganhado no seio da associação, em realidade os contrários ao reintegracionismo acabavam usando o simples argumento de que somos galegos e não portugueses.

A UPG/BNG decide dar um golpe na ASPG. Realiza-se uma assembleia na que aparece um monte de gente trazido a rebato, que logo nunca mais voltará a aparecer. A assembleia toma carateres incríveis, tira-se qualquer competência aos reintegracionistas, elege-se uma direção ad hoc. Lá se berra, já esta bem, somos galegos e não portugueses, não percebendo que ao berrarem isso, estão dizendo, somos espanhóis e não portugueses.

A UPG/BNG decide dar um golpe na ASPG. Realiza-se uma assembleia na que aparece um monte de gente trazido a rebato, que logo nunca mais voltará a aparecer. A assembleia toma carateres incríveis, tira-se qualquer competência aos reintegracionistas, elege-se uma direção ad hoc.

José Paz o grande inocente ficou profundamente abalado, aquela atuação que vinha de viver parecia-lhe incrível, não entendia como se chegara a aquilo, com gentes que diziam para ele uma cousa e agiam no senso contrário.

A ASPG passou a ter controlo UPG cento por cento, e o Ensino revista da ASPG desapareceu por muitos anos, até os anos 90 e com baixíssima frequência, nem nada se realizou fora das jornadas do ensino, nas férias de verãov. Para olharmos onde se acha a linha ganhadora da assembleia é muito boa a entrevista que a atual porta-voz do Bloco deu ao Portal galego da Língua há uns dias.

Os reintegrantes ao dia seguinte já estavam agindo, constituíram uma nova associação a ASPGP (associação sociopedagogica Galiza Portugal). A revista Ensinovi continuou publicando-se, e aí temos a homens como o tacanho José Paz, achegando recursos e fazendo de angariador, para que a cousa fosse avante. Publicara-se até o número 18, publicou-se outra nova revista de ensino Temas de Ensino. Publicarom-se também brochuras de especial divulgação e inúmeras unidades didáticas, não poucas elaboradas por José Paz. Realizaram-se inúmeras jornadas do ensino. E tudo isto a vez que colaborava com outros projetos reintegracionistas como Nós, Cadernos do Povo etc. e inúmeros meios em que colaboravavii

No 1994, julho, tivem a honra de compartir com ele 5 dias duma grande viagem a Lisboa, organizado pelos amigos portugueses da revista Portugaliza (dactilografada), A nossa viagem foi de grande impacto mediático em Portugal.

Iamos José Paz, Maria do Carmo Henriquez, Vilhar Trilho, Isaac Alonso Estraviz, Joel R. Gomes. Carlos Garrido, Alberte Garcia Vessada e mais dous reintegrantes que não eram da AGAL, e das que não lembro o nome.

Foi muito frutífera a troca com os colegas portugueses, tivemos um acesso aos meios de todo tipo incrível, e encetavamos um caminho, algo desbravado por outros, e que desde aquela não deixou de se alargar. Além disso estivemos uma tarde com Guerra da Cal e a sua mulher Elsie da Cal, na sua Casa, e logo numa ceia bem fantástica. Mas isso sim, do encontro com a Guerra da Cal, na Agália está publicado uma pequena crónica de Joel Rodrigues Gomes na Agália núm. 39viii.

José Paz voltou entusiasmado, com o entusiasmo com o que era agora sócio dos Colóquios da Lusofoniaix, que tanto tenhem fornecido à Galiza. Existiria a AGLP sem os Colóquios?

Em 2007 eu presidia uma equipas que foi eleita para dirigir a AGAL, e ele formava parte da mesma. Muita cousa achegou ao funcionamento da AGAL e desfrutamos do seu dinamismo, e nesse período aconteceu que no ano 2008, teve um problema com La Region. Ele sempre mantivera bom relacionamento com José Luis Outeirinho, o velho proprietário do jornal, e ele garantia ao José Paz, sempre um espaço para os seus artigos, isso sim, limitando bastante o seu tamanho. No 2008, o filho e a filha mandavam no jornal, e decidem eliminar a José Paz de colaborador. Aquilo deixou-o realmente zangado. Digem-lhe, não vai sendo hora de publicares na nossa web. E começou a fazê-lo. Além disso ele colocava-se metas e desenhava futuros artigos muito antes de ser publicados. Vultos da Galiza, vultos da Lusofonia, Aulas de Cinema. Vultos da Cultura Universal. Só na última etapa do PGLx, a atual, escreveu da ordem de 400 artigos, que somados aos das etapas anteriores, andam por cima dum milhar.

Vultos da Galiza, vultos da Lusofonia, Aulas de Cinema. Vultos da Cultura Universal. Só na última etapa do PGLx, a atual, escreveu da ordem de 400 artigos, que somados aos das etapas anteriores, andam por cima dum milhar.

Tinha a sua atividade atual centrada nas colaborações com o PGL que não lhe impediam fazê-lo com outros meios, nem que se reduzi-se a a sua atividade na Fundaçom Meendinho. Aquilo era para ele uma obriga auto-imposta, que se não podia cumprir fazia-o se sentir realmente mal.

img-20210426-wa0001O 3 de Março foi o seu derradeiro artigo, achava-se realmente mal, e estava pendente de uma operação de coração que era um bocado complicada, pediam-lhe inúmeros analises anteriores, e ele não estava regendo bem, foi internado duas vezes antes de ser operado.

Pediu-me que por favor fala-se com a diretora do PGL, já que não tinha o contato (o dele e a telefonia, daria para um tratado), para informa-la, que suspendia a colaboração, mas que superada a operação ia estar aí trabalhando para que não faltassem os seus estudos e depoimentos no PGL.

A segunda feira passada foi operado em Vigo, a quinta feira ele sentia-se realmente bem, a sua filha Núria dera-lhe o telefone para poder ler os correios e tinha-se já disposto a começar a enviar-nos mensagens para informar que tudo ia bem. Enquanto escrevia uma mensagem para amiga Curra, a tarde da quinta feira, o seu coração corajoso e ferrenho, parou.

Mas nos nossos corações e mentes ele permanecerá para sempre.

iNesta nota da Academia Galega, da que era membro, está bem resumido o seu percurso profissional

https://www.academiagalega.org/academia/info-atualidade/item/1954-falecimento-do-académico-josé-paz.html

iiUma das suas grandes preocupações era de qual ia ser o futuro do seu património bibliográfico, em janeiro realizou um convénio com a Deputação de Ourense, para que esta coloque a disposição do público as suas bibliotecas

https://www.elcorreogallego.es/tendencias/o-profesor-jose-paz-ofrece-as-suas-bibliotecas-a-deputacion-ourensa-CE6042325

iiihttps://en.wikipedia.org/wiki/Visva-Bharati_University

ivhttps://pt.wikipedia.org/wiki/Desvio_padrão

vFalando há uns anos com o responsável da ASPG, e de como estanharam todo um processo alegre e combativo pola língua e polo ensino de qualidade que se estava vivendo, Ele disse-me: Não esqueças Alexandre que a ASPG fomos quem negociou o acordo ortográfico, por iniciativa nossa com as gentes do ILG/RAG, e isso foi grande passo avante para o país.

Respondim, foi a vossa rendição a eles, a negociação para aceitar a rendição, e mais quando havia bem tempo, se é que alguma vez se cumpriu, que a prática das normas de mínimos da ASPG, salvo pequenos detalhes e não muito comflitivios, se cumpria.

viA revista Ensino é acessível na Universidade da Rioja . Isso sim está mañ classificada a quem pertencia e quem eram os editores.

https://dialnet.unirioja.es/ejemplar/410093

viiNa página da Academia e na nota sobre ele, há uma longa citação de meio. Ewu destacaria pelo seu volume nesta época o jornal La Region,

viiihttps://a.gal/Agalia/039.pdf

ixhttps://www.lusofonias.net

xhttps://pgl.gal/author/Jose_Paz/
Alexandre Banhos Campo

Alexandre Banhos Campo

Alexandre Banhos Campo (Crunha 1954) é Licenciado em Ciências Políticas e em Sociologia (especialidade de demografia e população) pela Universidade Complutense. Em Madrid foi membro fundador do grupo LOSTREGO.

Post-grau em gerimento de formação e processos formativos pela UNED, e tributários pola USC. Tendo desenvolvido alargadas atividades no campo da formação, em todos os ramos, e também na sua condição de formador.

Tem sido colaborador jornalístico, e publicado inúmeros artigos sobre os temas da sua atividade.

Ligado ao ativismo galeguista na Galiza desde há 40 anos, tendo ocupado diversos postos de responsabilidade em diversas instituições e entidades. Neste momento é do conselho consultivo do MIL, dos Colóquio da Lusofonia e o atualPresidente da Fundação Meendinho.
Alexandre Banhos Campo

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  • ernestovazquezsouza

    Que magnífico artigo Alexandre, não apenas pelo carinho e a homenagem devida, mas também pela contextualização de tanta cousa que nunca me ficara muito clara.

    Abraço!

  • https://pglingua.org/index.php abanhos

    Na ligação colocada à revista O Ensino, falta o número 5 do ano 1982. O primeiro realizado depois da expulsão da ASPG (de facto), e os números 23, 24, 25, 26, 27e 28.
    Temas do Ensino. O primeiro número saiu em 1981, e lodo após a ruptura sairam números até o número 38.

    Se alguém estiver interessado nestas revistas pode pedir a F. Meendinho, não todas, mas muitas delas e enviar-se-ão por correio sempre que se pagarem a despesa do envio

    • https://pglingua.org/index.php abanhos

      As eleições de que fala o artigo, são as municipais de 1979

  • Eliseu Mera Quintas

    Obrigado, Alexandre, formoso texto.

  • https://pgl.gal Valentim R. Fagim

    Muito obrigado, Banhos. Há muita informação que era bom saber.

  • Arturo Novo

    Eu que sou praticamente um recem chegado ao reintegracionismo, fico muito grato por conhecer a vida dos pioneiros que nos precederam. Toda uma vida de luta e compromisso nas suas vidas. Muito obrigado Alexandre por nos informar.