No fundo não é o mesmo

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Por Artur Alonso Novelhe

O problema é segundo eles: “Que alguns galegos não percebem a língua como um elemento central da sua identidade”. E mesmo sendo assim não é o mesmo.

O problema, dizem eles: “haverá que revisar o pessimismo… dramatismo muitas vezes excessivo”. Mas o pessimismo nasce duma visão deformada da realidade, ou também da correta visão da realidade mesma que outros se negam a ver. E no entanto sendo assim, não é o mesmo.

“Migração interior, com o abandono do campo. Simultaneamente, chegava a rádio e a TV à intimidade familiar”. E agora: “… a imigração, Galiza entra na UE, desaparecem as fronteiras, as novas tecnologias aceleram a sua penetração no feudo tradicional galego…” pode assim ser visto, mas pode tudo mudar, como as águas dum rio, que já nunca volta a ser o mesmo, à passagem dos humanos seres.

Vai depender da focagem. Se eu dou por assente um mito, converto esse mito em núcleo central, ao redor do qual tudo se move em círculos. Ao redor posso construir, gastar imensas energias vitais, depredar na minha fantasia inúmeros recursos subtraídos na louca incoerência. E que bem usados poderiam mudar tantas e tantas cousas.

Mas a ofuscação é humana.

O mito surgiu porque era necessário para um regime autoritário, fortemente centralizado no territorial, anular qualquer língua universal que não fosse a língua oficial do estado. O mito desenvolveu-se porque no momento a dissidência no interior do território viu nele uma possibilidade, porque mais tarde os mais espertos viram nele uma oportunidade. E apesar do exílio exterior ser maioritariamente coerente, e apesar de grandes intelectuais primarem a verdade sobre as oportunidades de sucesso, o mito ficou. E vestiu-se bem com uniforme oficial de gala.

Assim se construiu a atual normativa oficial da nossa língua, sobre este falso mito: “O galego e o português são línguas diferentes”. O mito era insustentável, era como dizer: “Peruano e castelhano são línguas distintas”, ou mais acertadamente dizer: “Que castelhano e espanhol são línguas diferentes”, dado o castelhano como o galego serem a matriz das suas respectivas línguas internacionais.

Bom pois assim se fez, e o mito continua.

Mas quais são os problemas de sustentar um mito? O mais simples e prejudicial é que esse mito se instala na consciência colectiva, e como um muro imenso impede ver mais além. Fabrica diagnósticos falsos a partir de uma falsa realidade e como resultado o tratamento converte-se em desastroso: gasto de recursos, gastos de esforços, nenhum prático resultado… e todavia resta o pior: continuar inventando soluções a partir duma realidade desfocada em que figura de novo o mito no centro, nucleando o processo de elaboração das próprias ilusórias, irreais soluções.

Assim acontece no caso do galego, sendo hoje o grande problema fulcral a normativa mesma. Se o galego estivesse normalizado com a sua ortografia institucional, no centro da base de trabalho para a sua recuperação situar-se-ia a sensatez de visão correta.

Então:

– Tendo como base a concorrência do galego com uma língua também internacional e muito similar, elaborar-se-ia outra diagnose que levaria a outro tratamento. Tendo essa realidade em conta problemas tais como:

  • Reparto equitativo dos espaços a ocupar por ambas as línguas. Dando a história a vantagem à Galiza de poder utilizar duas línguas com áreas globais.
  • A ênfase na fonética: recuperar a fonética e evitar a sua perda nos locais onde este bem de saúde e ainda esteja viva.
  • Mudar a percepção da língua galega por parte da população com base na elevação da auto-estima, ao considerar o galego a matriz do mundo lusófono.
  • Desterrar o auto ódio, ao situar a Galiza de periférica no âmbito peninsular a central e dinâmica no âmbito Atlântico e lusófono.
  • Afiançar autoconfiança ao passar de ser o cidadão galego um emigrante em procura do êxito negado na pátria, a poder realizar na pátria ou no exterior um serviço acorde com o seu potencial humano, num âmbito cultural e linguístico comum onde a Galiza figura à cabeça do desenvolvimento tanto humano como técnico.
  • Rematar com o medo à recepção de emissões de TV, Internet,… em castelhano, dado o acesso a um mundo inteiro de interação em galego português a explorar em pé de igualdade, com a difusão dos média globais lusos, o que minoraria o tremendo domínio do espanhol em este âmbito.
  • Perceber o migrante a utilidade da nossa língua, e ele mesmo se interessar por inserir-se na comunidade a partir da aprendizagem de uma língua tão útil.
  • Etc…

 

Como vemos, é parecido mas não o mesmo. Podemos refletir sobre as mesmas causas, mas ao partirmos de diagnósticos diferentes, baseados em visões diferentes, evidentemente o tratamento é muito distinto. E se o médico vir com clareza o diagnóstico, as possibilidades de tratamento eficaz são maiores.

Aguardemos que a equipa médica oficial se dê conta de que o tratamento a aplicar está baseado numa má diagnose, mude a investigação e se aproxime da realidade, antes de o paciente entrar em cuidados intensivos, dado que por agora vai muito mal com a respiração assistida.