Por Artur Alonso Novelhe
Passamos por um tempo de mudanças profundas, mudanças que nos levarão ao inicio duma nova era, duma nova civilização… Presentemente o único que conseguimos ver é o inicio da entropia final, que levara o sistema de ordem que vigora desde a II Guerra Mundial, à sua destruição.
Não nos cansaremos de repetir que o mundo nunca será o mesmo desde a crise de Setembro 2008, que na realidade começara em abril de 2007 (para estabelecer um ponto de inflexão na cronologia financeira), quando a New Century Financial, segunda maior instituição sub-prime, despede 3200 trabalhadores, metade do seu plantel; e já definitivamente se tornou visível quando em julho do mesmo ano Standar and Poor´s reclassifica para a baixa 612 obrigações baseadas em hipotecas de risco.
O novo sistema mundial de capitalismo financeiro nascido na década de 80 chega então ao seu fim. Já não é possível, a dia de hoje, continuar alimentando bolhas e imediatamente depois explodi-las ao mesmo tempo que se inchavam outras novas noutras novas latitudes. Pois o problema foi que ultima bolha já não rebentou na periferia, mas no pulmão do sistema, e ao invés da bolha das ponto.com, esta não se pode controlar, arrastando consigo todo o sistema econômico mundial, e pondo em causa o domínio Norte Atlântico do Orbe.
Segundo o próprio George Soros (um dos homens que mais se tem lucrado com este tipo de atuações impulsivas em bolsa): “A atual crise financeira desencadeada pelo colapso da bolha imobiliária, nos EUA, marca também o fim de uma era de expansão do crédito assente no dólar como moeda de reserva internacional”.
Novos cenários, procura de novos motores que ativem a riqueza, o próprio Soros não veria com maus olhos que a China, se tornasse no novo reator de impulsão, em substituição dos Estados Unidos, se em troca o governo chinês abandonasse o seu mercantilismo de estado e, desse entrada ao controlo da economia por parte das grandes Corporações Multinacionais mediante a privatização das empresas estratégicas. Pois na verdade o capital não tem pátria de partida nem tampouco de acolhimento e, o que interessa aos dominadores é manterem o controlo do mundo, com uma ou outra formula, acordadas segundo as necessidades de cada momento.
Mudanças, caminhos a trilhar pela primeira vez, sobre o pó de caminhos já trilhados, onde as velhas noções de territorialidade, independência e intervenção que estão a perder o seu significado, deverão ser substituídas pela noção de interdependência e domínio compartilhado.
O Estado nação, que deixará logo de ser principal ator político e histórico, vive na penumbra já na Europa, desterrado de todo valor, ao perder os seus direitos em favor de uma União ainda por construir. União onde os poderes fáticos privados mercantis impõem a rota de viagem.
Novas realidades emergentes chamam a remodelar a arquitetura de domínio herdada de Bretton Woods.
E dous modelos diferenciados, que não acabam de consertar-se em um mundo cada vez mais imprevisível e ao mesmo tempo mais perigoso; onde a cada mês que passa o rearmento se dispara e a indústria militar passa a ser uma das mais lucrativas depois do surgimento da crise.
Dous modelos: um desenvolvimentismo mercantilista de estado, e uma Ordem Mercantil Privada, que desde a chegada de Portugal ao Japão, vem tecendo devagar as suas redes até chegar a esta altura, onde praticamente todo o chamado Ocidente obedece às suas ordens, a tal ponto, que praticamente nenhum aspirante a político pode fazer uma mínima carreira sem ajuda de algum grupo de poder relacionado com o Mundo Privado Mercantil, quer dizer, com a Ordem Mercantil.
Irão e Venezuela são a dia de hoje os grandes desafios para esta Ordem, pois o seu modelo estatal de controlo social, choca profundamente com o modelo de Mercado Privado, e com o organograma da globalização efetuado por este.
Mas pela frente veremos, se formos capazes de salvar este escolho, outros desafios: que acontecerá com o modelo chinês ou brasileiro, o mesmo o da Índia, que a dia de hoje é um dos aliados mais firmes do Ocidente na Ásia?
Como poderão encaixar os modelos do mercantilismo estatal das potências emergentes com os consolidados modelos de Mercantilismo privado cada dia mais evoluídos no Ocidente, onde até os exércitos convencionais estão cedendo a passagem a exércitos privados, em tarefas de policiamento.
Para Brasil ainda fica por saber se estas eleições consolidaram este modelo estatal iniciado por Lula, como parece indicar a vantagem a que sua candidata tem nas sondagens de opinião, sobre o seu iminente opositor da direita, o senhor Serra, representante precisamente deste modelo de mercantilismo privado. Sendo o Brasil uma peça-chave numa América do Sul, onde três modelos compartilham território: o Brasileiro alastrado pelo Uruguai, a Argentina e o Paraguai (evidentemente com matizes próprios), o Venezuelano consolidado no ALBA, e o pró-norte-americano cujo maior representante e a Colômbia, e muito bem enraizado no Chile, como bastante bem assente no Peru.
A velha esperança brasileira de integração territorial com três diferentes modelos se apresenta agora irrealizável. A convivência com a ALBA ou mesmo com o modelo Norte Americano é factível a esta altura, e mesmo lucrativa. Mas a síntese ou fusão dos três modelos se tornou impossível, diante da impossibilidade atual de inserir o modelo chavista na folha de rota da globalização mercantil.
No caso do Irão, os planos de confronto militar estão muito avançados, ao falirem as tentativas de derrubo do regime pela via da mobilização e anteriormente, pela via eleitoral. Mas o resultado desta contenda vai depender também de fatores regionais, como a atitude de Israel face à Palestina.
Mahmud Abbas, presidente palestiniano, tem agora a oportunidade de verificar um acordo de paz minimamente aceitável para Fathat, com o abandono israelense da política de colonização, com o reconhecimento de Jerusalém leste como capital da Palestina, com a negociação da repatriação duma parte da diáspora.
Mas, mesmo neste hipotético cenário, o atual governo israelense teria muitas dificuldades e precisaria formar novas alianças para levá-lo à frente; porém, sem uma mínima aproximação ou encaminhada de futuras negociações se avizinha muito difícil que as potências moderadas árabes do golfo possam entusiastas apoiar a guerra contra o Irão, apesar dos múltiplos benefícios que para elas traria a anulação do poder xiita representado pela potencia persa.
No entanto, Israel poderia bem mobilizar seus medos contra Hamas e Hizbula, ante um futuro ataque ao Irão, e uma futura negociação em curso com a Autoridade Nacional alestiniana, que relegaria ambos os grupos a um beco sem saída, pois sem o apoio militar e logístico iraniano e sem a pressão decida dum povo palestiniano sem horizonte nas vistas, seria muito complicada a sobrevivência de ambos os movimentos. Daí que uma cilada israelense neste sentido poderia provocar outra guerra no Líbano ou em Gaza, que atrasaria a mesa negociadora com Fathat, e arrastaria talvez a uma intervenção americana no Irão, matando Israel dous coelhos duma cajadada só, ao mesmo tempo que oculta a pouca disponibilidade do governo Netanyahu a um entendimento regional estável, adiando indefinidamente a única real possibilidade de paz duradoura.
Este é o mundo em que vivemos, em que os galegos e o movimento galeguista trabalhamos. Se fôssemos um pouco cuidadosos, deveríamos saber colocar nossos esforços no caminho adequado, para podermos obter um mínimo de sucesso que nos permita sonhar na criação dum espaço galego definido e identificado, livre imposição centralista e enriquecido com diversidade internacional que lhe é própria, além de inserido na realidade atual do mundo.
Por desgraça, o movimento galeguista, nomeadamente o de esquerdas, tem atuado motivado por esquemas poucos esclarecedores, a maior parte das vezes achegados ou copiados do exterior, ou bem incentivados pela inércia da pertença ao estado espanhol, o que representa desenhar a suas estratégias dentro desta visão reducionista e alheia.
Daí ser muito freqüente o alinhamento com o mundo hispanofilo, as suas lutas, reivindicações e contradições, ate fazê-las próprias e, vivê-las como parte fulcral da nossa realidade.
Este mundo hispano onde o modelo atlântico galego, nada tem a ganhar e muito a perder, ao ser a Galiza periferia no Estado Espanhol e não existir como referente cultural na hispanofonia; ajudou infelizmente a deixarmos de lado as velhas alianças históricas com as ilhas britânicas e o mundo celta, onde a cultura e a causa galega deveriam ter presença permanente, alem de ajudar a criação dum mundo mais globalizado desde o fortalecimento das raízes comuns.
Por outro lado a implementação de um modelo ortográfico isolado do tronco lusófono ou galegofono comum, tem acelerado esta concepção de pertença ao mundo hispano, dentro da peculiaridade nacional galega, o que pouco tem contribuído para alicerçar a outra vertente de expansão natural da cultura galega, impulsionando com mais decisão um trabalho nestes paises.
Concretizando, o movimento galeguista, tanto de direita como de esquerda, deve virar completamente a sua estratégia de relações exteriores, priorizando o relacionamento com o mundo anglo e luso, sem descuidar as alianças já feitas, mas redirecionando corretamente as tendências em torno às quais o galeguismo deverá agarrar-se nos próximos decênios: a construção cultural da lusofonia, a configuração dum espaço celto atlântico ativo e a tarefa de ligação em todas as direções: profissionais, empresariais, solidárias, de lazer, culturais… Com agrupações e associações irmãs de estas duas vertentes.
Assim na prática o trabalho no Brasil deve ser priorizado ao trabalho em Venezuela, ou Bolívia. A solidariedade com a África Lusófona deve ser priorizada a solidariedade com Centro América ou as Caraíbas. O desenvolvimento de parcerias acadêmicas com o mundo celta, melhor do que com o mundo mediterrânico, etc. A aprendizagem do inglês como segunda língua deve ser prioritária à aprendizagem de qualquer outra língua, pois a relação com o mundo anglo depende deste conhecimento.
Não será fácil trabalhar num mundo em confusão, mas pouca claridade achegaremos desde este recanto europeu do Noroeste peninsular celto ibérico, se não formos capazes de fixar nossas próprias estratégias de sobrevivência… Pelo contrário, se formos capazes de ver com claridade esta necessidade, muito teremos contribuído para a criação duma futura governança mundial, sem a qual o mundo não tem horizonte de solucionar a curto e longo prazo, os seus múltiplos e enquistados problemas, ao fornecerem os galegos uma nova ponte de entendimento entre o mundo lusófono – galegofono e anglo; sem o qual a Galiza não pode sobreviver, como entidade de seu, num planeta a cada dia mais globalizado.
