Por Artur Alonso Novelhe
Sabemos que o capital e a sua versão neoliberal são culpados da criação de grandes lucros e grandes misérias, de desemprego, desesperação, fome. Sabemos que os Chicagos boys, foram os economistas encarregados de predicar os supostos benefícios desta doutrina, sabemos que os seus aplicados alunos chilenos lograram por meio de impulsionar um sistema privado de pensão, o montante de capital preciso para especular e engrandecer a economia até o ponto de reduzir a pobreza dos 43 % aos 13%.
Sabemos que o intento de estender esta visão, mediante o chamado acordo de Washington de 1989 ao resto da América Latina e ao mundo, culminou com a venda do setor estatal mais competente a privados estrangeiros, abertura dos monopólios estatais à compra das empresas multinacionais, abertura e venda de recursos naturais a capital exterior, venda de paraísos naturais para degradação e exploração turística, o que se traduziu em quantidades de desemprego, baixos salários, horários desregulados, múltiplos empregos por pessoa, etc.
Se a isto acrescentamos a revolução verde de fins dos 50, cujo primeiro laboratório foram as terras agrícolas do México, e depois se estendeu ao resto do mundo nos 60 e 70 (nomeadamente à África), provocando a substituição do modo de produção agrícola tradicional pela agricultura intensiva em mãos das grandes multinacionais, o que trouxe acompanhado fugida de inúmeras massas camponesas dos lugares tradicionais que levavam ocupando gerações e gerações, até os bairros de lata da periferia das cidades, onde mal vivem amontoados em procura dum emprego que nem sempre cobre as suas despesas, mas fornece à indústria toda a mão de obra de que precisa.
Sabemos que isto mesmo fizeram, anteriormente, no Haiti os americanos depois das suas duas invasões. Sabemos que a partir da II guerra mundial os assessores presidenciais americanos desenharam um sistema no qual o consumo seria o eixo que canalizaria as ânsias e frustrações da população, geraria riqueza sem fim aos donos do capital, ao tempo que produziria a ilusão de ter cobertas todas as necessidades reais da sociedade.
Este tipo de filosofia que se expandiu por todo o globo tem provocado a geração de milhares de toneladas de resíduos tóxicos, que têm que ser reciclados provocando toneladas de gases tóxicos no seu processo; degradação dos valores individuais e familiares, fabricação de necessidades suplementares e ânsias de possessão, enaltecimento excessivo da propriedade privada e o seu valor, desvalorização das pequenas cousas como supérfluas, etc.
Concorrência desleal, enaltecimento do desejo, das falsas paixões, etc. Assim como precariedade na vida interior das pessoas, perante a falta de tempo para elas mesmas. Sabemos que este sistema está depredando o planeta, dado precisar de estímulos, capacidades e recursos infinitos, numa cadeia linear de produção e consumo sempre em aumento, enquanto os recursos planetários são finitos, se terminarem não se recuperam mais.
Sabemos que este sistema baseado no domínio do ocidente sobre o resto das regiões leva aderido guerra, rapina e submissão como norma para implantar e estender o poder central. Sabemos, pois, que este sistema é piramidal, classista, desestabilizador, poluente, etc. Sabemos que um outro mundo melhor é possível, o que não sabemos e como construí-lo.
Sabemos os erros que não deveríamos cometer na sua proposta de construção: o erro da falta de liberdades do falido estalinismo, o excessivo burocratismo dos regimes estatais, a imensa dificuldade da democracia participativa, além de serem experiências cativas, recém-nascidas e de pouco alcance a nível global.
Sabemos também da dificuldade de conciliar a iniciativa individual, e o direito dos indivíduos à criação, realização e potenciação, com o direito à coletividade e redistribuição justa da riqueza. Sabemos das dificuldades múltiplas tal como a distribuição e coordenação do poder, a facilidade de cair na excessiva legislação, e não distinguir âmbito público, natural e privado.
A necessidade de conciliar desenvolvimento sustentável, com escutar o resto de seres vivos e a suas necessidades. Isso sem contar problemas derivados da demografia, a inércia à invasão da nossa espécie e o desalojamento e extinção de outras espécies com que compartilha o planeta.
Sabemos, pois, algumas cousas, mas ignoramos o fundamental: como nos pormos de acordo, como aprendermos a ceder parte das nossas exigências ideológicas, ou dos nossos supostos princípios, de modo a criar um espaço comum em que a maioria do planeta possa desenvolver outras alternativas.
Isso sim: sabemos muito bem dissentir.
Também sabemos unir-nos unicamente na resistência, e é muito belo, como quando nos unimos nas desgraças, e muito poético e mesmo lendário, começo da futura epopeia, quando assistindo ao que já não tem remédio nos colocamos todos juntos, com firmeza à espera do fim. Mas além dos cantares que hão de fazer futuros trovadores, e os livros que hão de recordar a façanha, isto não vale para muito. Construir uma resistência hoje em dia é jogar a perder.
Então só nos resta um caminho, o caminho da criação da alternativa, mas para isso teremos ainda que suprimir muitos egos, teremos ainda que formar muitas novas gerações, e investir muito mais tempo e dinheiro em educação livre e não dirigida.
E, pois, que não seja de estranhar que mesmo fundido e em retrocesso o capital, seja capaz de inverter as tendências, como está a fazer na América Latina, isolando a Venezuela, Bolívia, Cuba e Equador. Obtendo proveito em Chile, superando o dilema de Honduras em favor dos EUA.
No entanto, na América Latina múltiplos enfoques de desenvolvimento e diferentes vias de enfrentar o capital, facilitaram a divisão que convinha ao Grande Irmão. Egos múltiplos, como sempre, impediram a união. E assim continuamos e continuaremos, pois apesar da oportunidade, não temos a preparação suficiente, e a humanidade ainda está a anos-luz de conseguir as capacidades necessárias para confirmar um início de igualdade.
Pelo que o mais provável é que o capital caia por inércia própria, pelo pesado fardo do da roleta das finanças, pelo deslocamento hegemónico para o Pacifico e o Atlântico Sul, onde poderão surgir novas realidades políticas e económicas. Enquanto os movimentos tradicionais, leia-se marxistas-leninistas, anarquistas, social-democratas, passaram a ficar na gaveta velha da história. Não se perderam as suas essências e bons ensinamentos, mas novas formas culturais e novas concepções filosóficas e de vida, também afetarão o campo da política.
Algo novo está a surgir, mas ainda estaremos muito longe duma humanidade que possa descobrir todas as suas potencialidades e possa pesquisar todas as suas possibilidades, em harmonia, justiça e paz.
As nossas mentes ainda têm de tornar-se muito mais sábias e muito mais flexíveis.
