DESCONFINAMOS A OBRA DE CARVALHO

Loli Suárez Baltasar: das aulas de Estraviz à leitura do Scórpio

Loli é docente de língua e participa do club de leitura sobre o romance de Carvalho



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Loli Suárez Baltasar

Desde os primeiros dias do mês de agosto a iniciativa “Desconfinamos a obra de Carvalho” mantém-se em constante movimento através do serviço de mensagens das redes sociais. Graças ao labor divulgativo do grupo inicial, posteriormente criaram-se outros dous e agora mesmo está sendo organizado outro novo, o quarto, que começa às 10 da noite do dia 1 de setembro.
Nesta nova cita com a audiência, a protagonista é a professora Lóli Suárez Baltasar, que participa diariamente no nosso grupo de leitura e que respondeu amavelmente todas as perguntas do questionário inicial que lhe apresentamos. Através das suas palavras, abordaremos de novo o costume de mudar de língua para falar com as crianças, teremos um recordo para os métodos pedagógicos de Isacc Alonso Estraviz e Vitória Ogando; e conheceremos a primeira impressom que lhe produziu a entrada no romance de Carvalho Calero.

Lóli Suárez Baltasar, das Rias Baixas. Tam perseverante que converteu um ponto e final num ponto e seguido.
Som de Vilaboa – Pontevedra. Levo na companhia da nossa língua desde o berço, apesar de que meus pais e a contorna familiar tentavam ocultá-la para falarem comigo. Na época em que o tivem claro, todo forom sornas, conselhos sobre que era isso de falar galego a todas as horas, insultos e todo tipo de burradas que nom quero nem lembrar. Mália toda aquela penúria, seguim adiante e hoje é para mim fonte de trabalho e umha parte da minha alma.

Falavas de penúrias como algo passado. Estamos conseguindo transformar os obstáculos em oportunidades?
Som docente da matéria de Língua Galega e Literatura e desde as aulas procuro assentar o amor por esta cultura nossa que tanto tem de importante. Espero que o meu labor consiga que, quando menos, a mocidade veja a língua com carinho, respeito e curiosidade.

 

Loli Suárez Baltasar

Loli Suárez Baltasar

Para isso a leitura é fundamental…
Gosto muitíssimo de ler. É umha “teima” que véu a mais desde que comecei a pensar nos porquês. Leio poesia, teatro, prosa, sobre plantas, biologia, ciência, história e sobre o comportamento humano e animal. Também sobre história das religions, mitologia e filosofia. Alguém dixo algumha vez que todo está nos livros e eu penso que é certo.

Como chegache a este clube?
De D. Ricardo tinha poucas referências. Este ano, com motivo das Letras e porque havia um livro de leitura curricular em 2° de Bacharelato, dedicim informar-me. Lim primeiro A Xente da Barreira, depois a poesia e agora estou na segunda parte do Scórpio. Por umha querida companheira, Teté, soubem do clube e anotei-me.

Descobriche algo novo? Como está sendo a experiência?
Antes de começar a leitura do Scórpio o meu contacto com o reintegracionismo era mínimo. Tivem como primeiro achegamento as aulas que me deu Isaac Alonso Estraviz na Escola de Magistério em Pontevedra. Daquelas aulas guardo bons recordos polo respeito com que Isaac acolhia a divergência do alunado e -sobre todo- pola originalidade da sua docência que partia sempre dum inquérito. Antes, no instituto, fum aluna de Vitória Ogando. A ela e a Estraviz devo-lhes, em parte, a minha vocaçom e o meu afám por promocionar a língua.

A Vitória Ogando e a Isaac Alonso Estraviz devo-lhes, em parte, a minha vocaçom e o meu afám por promocionar a língua.

A experiência está-me a resultar prazenteira, amena e divertida. É umha maravilha estar falando com pessoas doutras vilas e países de algo que temos em comum: o gosto pola leitura. E, sobretodo, por fazê-lo em grupo, desconfinando umha autêntica obra mestra.

Agora que levas lido a metade, já te aventuras a opinar?
Scórpio é umha obra formidavelmente construída nos níveis morfossintáctico, léxico e semântico. Possui um domínio extraordinário do idioma tanto na descriçom como na narraçom, com umha plasticidade que se aproxima à dumha obra pictórica. Das personagens destaco a capacidade que apresentam para dar umha imagem esperada, mesmo que por dentro levem outra melodia bem diferente. A sociedade pede umha forma de actuar, mas a paixom inclina-nos a actuar ao nosso jeito. Ocorre que muitas vezes ganham as pautas estabelecidas e a covardia ou o medo ao fracasso fam que o ser humano se deixe levar polo caminho em teoria mais fácil ou que nom vai dar problemas. Nesta obra descobrimos sentimentos que ultrapassam os tempos e que definem as pessoas: a paixom, o instinto, o desejo, a inveja e as convençons estabelecidas que rivalizam e ganham com respeito à rebeldia ou ao câmbio individual ou social.

Scórpio é umha obra formidavelmente construída nos níveis morfossintáctico, léxico e semântico. Possui um domínio extraordinário do idioma tanto na descriçom como na narraçom, com umha plasticidade que se aproxima à dumha obra pictórica.

Mas a necessidade dos câmbios está presente…
Esta obra é sumamente interessante porque presenta umha época histórica fundamental no devir do país. Assistimos à apresentaçom dumha sociedade classista em que imperam a hipocrisia e aparência, mas essa mesma sociedade experimenta câmbios profundos até que chegam os momentos convulsos.

Que mais nos contas?
Por enquanto, mais nada. Continuo com a leitura. Estas palavras eram só um testemunho de que a obra me levanta o ânimo  e que é umha auténtica aventura fazer a leitura sentindo-se tam bem acompanhada.

Bernardo Penabade

Bernardo Penabade

(Granhas do Sor, 1964) é professor de Língua e Literatura em Burela. Desde 2004 participa na equipa promotora da intervenção educativa Modelo Burela, dentro da qual nasceram os programas radiofónicos Projeto Neo (2012) e Grandes Vozes do Nosso Mundo.
Bernardo Penabade


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