Independências que dependem… não da vontade dos povos

Partilhar

Por Artur Alonso Novelhe

O Tribunal Penal Internacional de Haia, julga nestes dias o criminoso Radovan Karazic. O Tribunal, financiado principalmente pelos EUA, tem desenvolvido uma política muito favorável nos Balcãs a quem paga as suas despesas. A própria Carla Del Ponte, promotora chefe do citado Tribunal, reconhece no seu recente livro intitulado A caça: eu e os criminosos de guerra, que, sob a pressão de Londres e Washington, foi abandonada a investigação dos crimes de guerra cometidos pela NATO no conflito do Kosovo.

Durante a campanha prévia à intervenção das forças da NATO, a mídia ocidental denunciou repetidamente o holocausto a que estava a ser submetido o povo albanês, contabilizando cerca de 225.000 albano-kosovares em risco de extermínio. Este argumento possibilitou os bombardeamentos maciços que se seguiram. Depois, sobre o terreno, membros da própria NATO, entre os quais participaram forenses espanhóis, não foram capazes de encontrar as provas das ditas atrocidades.

Um ano mais tarde a contagem de mortes, incluídos sérvios, ciganos assassinados pelos albaneses do KLA (Kosovo Liberation Army), davam uma cifra próxima de 2.800.

O Tribunal, porém, foi pressionado para investigar só as barbaridades sérvias, mesmo Del Ponte reconhece neste recente livro que membros do Tribunal foram aterrorizados pelos albaneses.

No Kosovo encontra-se desde então a base americana maior da Europa, de aí a luta exterior travada pelo Império a favor da independência do mesmo. Não foram os direitos legítimos do povo albanês, nem se teve em conta as especiais circunstâncias históricas reclamadas pelos sérvios, nem tampouco o direito dos cidadãos desta nacionalidade a exporem os seus reclamos. O Kosovo tinha de ser liberado pela força dos “Amantes da Liberdade”.

A Federação Jugoslava era um apetecível mercado de expansão para Ocidente, em concreto para a Alemanha, formando parte do seu cinto de influência; por este motivo a Alemanha reconhece a independência da Croácia, junto com o Vaticano – que adora beijar novos parceiros católicos, arma as suas milícias, ajudando a explosão bélica de aquele delicado entrave.

Ossétia do Sul e Abcásia encontram-se agora no invés do navio. Com a mesma possibilidade, a que de seguro os seus povos se vão desesperadamente agarrar, mas com o poderoso Ocidente convicto de que a paz e a democracia favorecem a integridade territorial de uma Geórgia aliada de Washington.

Sobre o terreno Ossétia e Abcásia eram de fato independentes, ainda que submetidas ao fogo de artifício georgiano desde colinas limítrofes a diferentes cidades, onde o exército georgiano tinha seus últimos bastidores.

Assim a Geórgia, animada pelos EUA, num momento em que os olhares do mundo estavam postos na China, na cerimónia de inauguração olímpica, penetra na Ossétia, arrasa a sua capital Tskhinvali, derrui o único hospital civil da cidade, faz desaparecer literalmente os edifícios que albergam os órgãos públicos centrais da nação, acaba com vida de centos de civis, etc. Mas nos media ocidentais os invasores são russos.

Os “informadores do mundo livre” utilizam os abusos cometidos por milicianos ossetos e chechenos – até agora não há provas, nem para poderem ser tergiversadas pela imprensa ocidental, da implicação do exército russo nas tarefas de pilhagem, que deixam em mãos de milícias irregulares; utilizam, como dizíamos, estas atrocidades contra povoações georgianas para preparar a ofensiva diplomática Ocidental a seguir nos próximos dias.

No quadro geral estratégico após a Guerra Fria, Ocidente viu uma oportunidade única para ampliar e consolidar o seu domínio até a mesma fronteira russa. Onde ficara aquele compromisso assumido diante do último mandatário soviético Mikhail Gorbachev, uma vez que este deu luz verde à reunificação alemã, de não levar as fronteiras da NATO mais além de este último país?

Mudaram os tempos

Mas também os tempos mudam hoje. Rússia já não é a inoperante e ineficaz potência adormecida da era Iéltsin. Com Putin, e o novo estado centralizador, corruto e burocrático ao velho estilo KGB, a Rússia converteu-se numa potência militarmente eficaz, economicamente viável e sólida administrativamente, dentro dum esquema que não gosta ao mundo ocidental, mesmo porque as suas empresas energéticas foram e são convidadas a largar a força, no plano de criar uma forte empresa nacional dos hidrocarbonetos chamada hoje GAZPROM. Mas esta autoritária Rússia não esta disposta a ser ignorada no plano internacional, como há alguns anos deixou de ser campo de reparto das potências ocidentais que brindavam alegres dentro do seu território. De aí a nacionalização e centralização das suas riquezas energéticas.

Se permitir uma Geórgia dentro da NATO, se permitir na sua fronteira repúblicas viáveis fora do seu guarda-chuvas económico e financeiro, se permitir que os oleodutos Baku-Cehyan e Baku-Supsa – ambos passam por território georgiano, sejam realizáveis, e portanto, uma ameaça directa à sua estratégia de controlo político na zona, a Rússia sentir-se-ia ameaçada na própria integridade: o seu Império tornar-se-ia inviável, e mesmo a partição da mesma a médio prazo não seria descartável.

Assim que a pesar de se conter durante muito tempo, a Rússia ao fim agiu, vai seguir agindo, e Europa devia temperar o fumo do escudo anti-mísseis na Polônia, devia dar-se conta de que o conflito na Geórgia foi proporcionado pelos EUA para incitar uma campanha mediática que tornasse favorável a entrada da Geórgia na NATO, que limasse as reticências europeias à mesma, que abrisse a porta às tropas da NATO nas narinas e no cu duma Rússia com novos fôlegos.

No Cáucaso estamos a jogar uma grande batalha geoestratégica, não olhar desta forma o conflito seria até pernicioso para o mais simples cidadão europeu. EUA está-se a converter num menino mal criado, não atende formas, não se preocupa com o dano a infringir, não se importa com a estabilidade do mundo, as suas ânsias de realizar a sua vontade, a sua crise económica sem precedentes nos últimos anos, a sua visão de poder ilimitado, levam-no a não compreender que abrindo demasiadas frentes, demasiados campos de batalha nenhuma potência sobreviveu ao longo da história.

Europa devia reparar em quem é verdadeiramente o seu sócio, mas Europa está tão embrenhada nas estruturas económicas e militares desenhadas pelo Grande Irmão que, inevitavelmente, nem se dá conta de que o neoliberalismo, impulsionado à deriva pelo Império, fracassou quando não deu respostas aos retos que uma nova ordem económica planeia, nem reparou de que os EUA, o menino mimado, não desejam compartilhar nenhum dos seus brinquedos.