Galiza deve aprender a ser vanguarda

Partilhar

Por Artur Alonso Novelhe

“Assim, a velha ciência destes três últimos séculos nos ensinou que todos os fenómenos são fenómenos de coisas formadas por matéria. É um monismo baseado na ideia de que a matéria está na base de tudo o que existe. Em lugar disso, o novo paradigma postula um monismo baseado no primado da consciência – que a consciência (chamada de Espírito, Deus, Mente de Deus, Ain Sof, Tao, Brahman etc., nas tradições populares e espirituais), e não a matéria é a base de tudo o que existe; um monismo baseado em uma consciência unitiva e transcendente… Nós somos essa consciência. Todo o mundo da experiência, inclusive a matéria, é a manifestação material de formas transcendentais de consciência.” (Texto extraído do Livro “A alma da Física” de Amit Goswami)

Galiza vive de costas à vanguarda científica, filosófica e política. O que é pior, o galeguismo, e a sua expressão política maioritária, moram reféns de velhos paradigmas, que são a expressão, por um lado, do poder organizativo herdado do período franquista – com o triunfo do paradigma anticeltista (“castrejo”) e anti-reintegracionista (“isolacionista”); e por outro do velho paradigma herdado da guerra fria – com uma esquerda enraizada na fontes do “materialismo dialético” e nas fontes do “centralismo democrático”… e uma visão de organograma fortemente centralizado, que lentamente se tenta modificar, mas que ainda esta custando ultrapassar.

No entanto, novos setores mais vanguardistas do pensamento galeguista estão reagindo com determinação e achegando por várias vias, magníficos estudos, desde variadas óticas: científica, filosófica, política, económica…

Modelos mais abrangentes e mais descentralizados, visões científicas mais conectadas com os novos paradigmas, reformulação histórica mais ampla…

O celtismo cobra vigor desde novas achegas arqueológicas, desde novas achegas linguísticas, desde os novos estudos genéticos… O reintegracionismo é uma aposta estratégica tão visível, que velhas discussões ficam esquecidas pela inércia de saber que apostar por uma língua global e ativa, num mundo global e interconectado, onde as línguas em utilidade progridem e línguas minoradas, ou restringidas a quatro províncias, não têm nenhuma oportunidade para a sua sobrevivência… ajudam a lentamente virar a tendência a favor do reintegracionismo, ainda que não com a força suficiente para poder travar a gravíssima perda e abandono do galego por parte das novas gerações…

Exemplos de valia estratégica da nossa língua: “A fabricante de automotores francesa, Renault, anunciou nesta quarta-feira um aumento da capacidade de produção no Brasil e diz que aposta forte nesse mercado, onde está presente há 14 anos. A Renault investirá 266 milhões de dólares (490 milhões de reais) em seu complexo industrial Ayrton Senna, situado em Curitiba, no Paraná, anunciou o presidente da empresa, Carlos Ghosn, que viajou à fábrica para a ocasião”. (fonte) “Com um desemprego de 22% em seu país (no Brasil o desemprego é de 6.7%), uma dívida externa de 160% do PIB (a do Brasil é de 14%), e menos de 30 bilhões de dólares em reservas internacionais (as do Brasil são de 350 bilhões) a imprensa da Espanha, talvez com o senso de realidade afetado pela crise, está anunciando, com grande estardalhaço, que hoteleiros cariocas – muitos deles estrangeiros – estariam dispostos a trazer milhares de espanhóis para o Brasil para trabalharem.” (Fontes: Imprensa do Brasil e Lavangaurdia.com.Economia) “Angola, com seu estrondoso crescimento económico, num período pós–guerra civil (1961-2002), afirma-se já como uma emergente potência regional na África. Contudo, o caso de Angola é suis generis, pois tende a direcionar, simultaneamente, a sua influência e poderio político–diplomático, económico e militar a dois grandes blocos geopolíticos africanos, nomeadamente a África Austral, em primeiro plano, e a África Central, em segundo plano, de cujas organizações de integração regionais faz parte e influencia bastante, particularmente nas grandes questões de paz, segurança e orçamento regionais. Angola possui posições militares em alguns de seus vizinhos fronteiriços da África Austral e Central. Angola alberga a sede da Comissão do Golfo da Guiné, uma organização inter-regional africana que tende a seguir o modelo do Conselho de Cooperação do Golfo (Pérsico)”. (Fonte Wikipeidia). “A Diretora executiva da Iniciativa de Logística do Corredor de Maputo (MCLI), Brenda Horne, disse que esta empresa vai ampliar a capacidade do Porto do Maputo dos actuais dez milhões de toneladas anuais para 48 milhões até 2025. Ela anunciou, em Joanesburgo, na África do Sul, que esta para breve a entrada em funcionamento do novo posto fronteiriço de paragem única entre a África do Sul e Moçambique, em Komatipoort/ Ressano Garcia”(Fonte: Zambézia online) “Os doadores e os líderes timorenses estavam entusiasmados em provar que fontes de petróleo poderiam ser uma bênção e não uma maldição. Por esta razão, chamaram especialistas da Noruega para aprender com o famoso Fundo Soberano daquele país [en]. A ideia básica era: anular a afluência massiva da receita e gastar apenas o que é obtido com o cuidadoso investimento daquela mesma receita. Existe ainda uma alusão à criação de um fundo soberano – chamado Fundo Petrolífero -, na Constituição de Timor-Leste [en]. A subsequente Lei do Fundo Petrolífero tem uma formulação muito rígida e específica em relação ao que pode ser retirado do fundo” (Fonte: Global Voice) “Timor vai investir em Títulos da Dívida Portuguesa através de fundo do petróleo…” (Fonte: RTP)

Acho, sem arrogância, depois destes breves destaques, ninguém pode duvidar das vantagens de mudar para uma língua internacional. Se a isso acrescentamos que a Galiza tem, como os novos estudos científicos estão a demonstrar, indiscutíveis raízes celtas, Galiza poderia ser a ponte natural para criar uma rede internacional de relações atlânticas, que se expandissem até o Índico na rota natural Moçambique – Índia… Favorecendo o desenvolvimento euro-regional, ao tempo que fortalece a posição atlântica face a um hipotético desloque hegemónico do centro mundial para o pacífico.

Algo a dia de hoje fabuloso, numa Europa em crise e em transição do velho modelo de estado-nação até um novo modelo de União Europeia, onde a Galiza e a Euro-região Galiza – Norte de Portugal, deve jogar um importante papel, tanto a nível económico com a utilização e aproveitamento das ligações e auto-estradas atlânticas – com o melhoramento e ampliação dos seus portos e as áreas a eles aderidas; assim como deveria juntar esforços com outras regiões para favorecer o enriquecimento e a descentralização, causas da riqueza na diversidade e opor-se à centralização excessiva e uniformidade, causa de empobrecimento coletivo – neste caso de toda a Europa.

No mundo científico, a Galiza deve fugir dos velhos paradigmas e implementar para já os novos paradigmas que levarão a humanidade, nesta etapa – nesta mudança de Era – a ultrapassar o velho modelo focado pelo materialismo científico a um novo modelo mais abrangente onde ciência e espiritualidade, formem um comum nexo de ajudas mútuas, e aproximação dos seus recetivos e indiscutíveis legados históricos, património de toda a humanidade.

Nesta área os avanços já são evidentes após estúdios como os dos físicos: Fritjof Capra, e o já referido Amit Goswani; estudos sociológicos como os de Thomas Kuhn, que ajudam a entender como a mudança de paradigma científico acaba por transforma o paradigma social, como ele bem afirmou este novo paradigma afeta: “uma constelação de conceções, de valores, de perceções e de práticas compartilhados por uma comunidade, que dá forma a uma visão particular da realidade, a qual constitui a base da maneira como a comunidade se organiza”. Ou os descobrimentos de Arne Naess sobre a ecologia profunda; assim como as novas formulações mente-corpo na medicina, lideradas entre outros por Deepak Chopra ou Larry Dossey… são exemplo deste novo paradigma, que está a ganhar cada dia mais força.

Só utilizando estas vantagens comparativas que oferece a Galiza o seu lugar estratégico no atlântico, a sua língua internacional, a sua essência céltico atlântica – agora confirmada – assim como usufruindo das grandes novas visões que se estão dando a nível global, poderemos erguer uma Terra nossa, valiosa para Europa, e para a humanidade.