Por Artur Alonso Novelhe
Desde meados dos anos 70 os EUA têm aprofundado na sua peculiar espiral de endividamento. As diferentes administrações americanas trabalharam, em todas as ordens: cientifica, tecnológica, política, militar e social, para fazer possível que, desde a década de 90, os Estados Unidos conseguissem o domínio hegemónico global. Mas o preço a pagar foi um endividamento crónico de tamanho estratosférico.
Hoje a sua hegemonia descansa em alicerces cada vez menos sólidos.
O sistema capitalista que lhe deu a sua força, chegou ao seu limite biológico: já não pode crescer mais sem pôr em perigo o difícil equilíbrio do ecossistema planetário.
Outra espécie de crescimento sustentável em longo prazo deve ser experimentada. Mas essa nova organização só será realizável em harmonia com o resto das espécies, com as que compartilhamos o mal chamado “nosso mundo”.
O termo humanismo foi ultrapassado pelo próprio decorrer histórico. O ser humano deverá reconhecer-se, numa nova dimensão, como um simples interlocutor mais e não como o eixo motor sobre o que gira a inércia do desenvolvimento e as mudanças. Devemos, pois, trabalhar num novo conceito de vida, na base da interação com o resto de seres vivos em uma nova simbiose acordada de prévio conhecimento mútuo.
Mas o grande problema continua a ser que a arquitetura do grande domínio americano descansa sobre uma pirâmide que alimenta as suas raízes dos frutos produzidos globalmente, onde a riqueza gerada em qualquer ponto do globo é transferida para os centros financeiros de controlo, onde este fluxo é reciclado para de novo engraxar a maquinaria do crescimento fictício sustentado na “divida eterna”.
O excesso de produção já tampouco pode ser digerido pelo mercado interior americano e mesmo europeu, as suas populações estão estagnadas pela dívida.
Os países exportadores veem-se obrigados a retrair a sua produção industrial. Milhões de operários são despedidos em todo o mundo. A esses países, pois, restam cada vez menos fôlegos para acudir ao resgate da dívida americana, necessária para continuar financiando o seu desmesurado poder hegemónico.
Não nos enganemos, a cadeia do capital começa a quebrar-se. Novos mercados como o Brasil ou a China, com uma nova classe média ainda não endividada, poderiam paulatinamente substituir o grande mercado de consumo americano, na mesma lógica de seguir à frente empregada desde lustros pelo capital, mas ainda assim nenhum outro pólo do planeta esta preparado para substituir o papel assumido pelo Grande Irmão Norte-americano. Se o dólar falir o único recurso à vista será o Euro. A moeda europeia está preparada para tal, mas a União Europeia não.
Portanto, como numa espécie de deslocamento silencioso, as placas tectónicas do poder americano começam a mover-se, sem que a dia de hoje ainda possamos atestar qual pode ser o desenrolo futuro desta tendência. Mas a tendência existe.
Um novo sistema é preciso para assegurar a existência sobre a Terra. Os poderes do mundo estão interligados, são aliados temporários enquanto o sistema funciona, mas as alianças tornam-se fracas quando a crise segue a sua lógica destrutiva e catastrófica.
O sistema de capital chegou a seu fim.
O Capitalismo não conseguiu corrigir, nem pode, pois é algo nele inerente, o desperdício imenso que gera: milhares de toneladas de desperdício ao longo de todo o planeta, pelo qual ele tem por lógica que falecer.
A pergunta é quantos desequilíbrios mais em forma de guerra, ditaduras multimídia, restrição das liberdades, confrontos com as próprias populações, etc. será capaz de gerar ainda antes de dar passagem a uma nova ordem sustentável, onde a humanidade possa sobreviver em harmonia com as outras espécies que com ela compartilham a Mãe Terra, sobre cuja barriga todos caminhamos?
