Por Artur Alonso Novelhe
“Viver é consumir-se de amor, dialogar, perderem-se nos outros. A vida é a interpenetração total das almas e das inteligências.”
Anónimo
Como bem escreveu Ana Donnard, no seu último artigo sobre O Paradigma da Continuidade Paleolítica e os Estudos Celtas: “As misérias humanas de hoje estão inscritas desde o paleolítico, como a fome, a intoxicação, a condenação de imensos grupos humanos ao extermínio puro e simples…” e ainda não sabemos em que época isto vai acabar, se alguma vez isto acabará, pois os seres humanos têm avançado cientifica e tecnologicamente, quanto menos desde a Pré-história conhecida, mas a sua sofisticação nem sequer muitas vezes serve para sofisticar os métodos de brutalidade ou mesmo de extermínio…
Nestas alturas do século XXI, encontramo-nos numa encruzilhada muito importante, que nunca deixaremos de sublinhar: A mudança completa de uma era, uma mudança muito mais radical do que significou a roda, a imprensa ou a máquina a vapor.
Mas os condicionantes em que nos vemos imersos não são precisamente optimistas quanto a uma transição pacífica mais ou menos lenta, e muito menos ordenada, deste sistema que hoje vigora para um novo ainda por no horizonte divisar.
A crise do Euro, como Jean-Claude Paye explica no seu últimos artigo, precisamente intitulado A crise gaguejante do euro: “Para pagar as suas guerras no Afeganistão e o Iraque, os Estados Unidos optaram por monetarizar a sua dívida pública, ou seja, repassar as suas facturas ao resto mundo”, algo que agora sofremos os europeus, dado que já não chega a pilhagem do terceiro mundo, como nas décadas anteriores, e se faz preciso devorar até mesmo os últimos recursos de sociedades, antes ricas e prósperas; nessa nova voragem que agora experimenta o sector privado comercial, na sua expansão por todo o mundo; na Europa à custa do próprio Estado-nação, já na prática um doente prestes a tornar-se terminal.
A nutrição das elites financeiras é simples, uma alimentação especulativa à base de criar, ano após ano, uma nova bolha financeira. Agora as dívidas soberanas fazem às vezes de bolhas imobiliárias, com o aumento constante dos seus juros, e o conseguinte encarecimento para os Estados do sul da Europa nos seus respetivos financiamentos. Esses mesmos Estados que salvaram com o seu endividamento essas mesmas elites que agora, sem piedade, se nutrem deles. Assim é o capitalismo dos rendimentos.
A Irlanda em queda livre foi aplaudida durante décadas pelo seu modelo liberal, que toda a direita europeia quis tomar como exemplo referencial. Agora essa mesma direita que no Estado Espanhol carrega nas tintas sobre os governos das esquerdas pelo excesso de gasto social, nada diz a respeito do seu sonhado paraíso irlandês.
A Irlanda, um campeão das políticas de desregulamentação financeira que levaram, como vem lembra Eric Toussaint, a uma explosão dos empréstimos das famílias, atingindo 190% do PIB em vésperas da crise. O que trouxe consigo a falta de pagamento das mesmas, provocando que as bolhas bolsistas e imobiliárias estourassem.
Daí ao enfraquecimento da exportação, a baixa das receitas do Estado e a elevação do défice orçamental só há um passo. O resto do filme é já conhecido: austeridade social, austeridade paga pelos mais pobres, destruição maciça de emprego público e privado. A Grécia foi a primeira, e Portugal e Espanha estão sob ameaça.
Na Tunísia ou na Argélia, a inflação galopante não deixa de alarmar as populações, que estão a tomar as ruas, como se fez com anterioridade na Islândia, na Letónia, na Grécia…
Ao tempo os relatórios confidenciais da inteligência americana, segundo revela Alfred W. McCoy, falam da decadência imperial dos EUA, entre 2040 e 2050, para o próprio McCoy seria sobre 2025.
Assim que não queremos ser alarmistas, mas o mundo de novo esta numa transação difícil, se as circunstâncias viram a mais difíceis, a sobrevivência será cousa dos mais fortes, e talvez a autoridade recaia em mãos dos mais brutos, algo que costuma acontecer em tempos de graves crises ou de guerras. Nesses tempos a palavra tende a ser substituída pela ação. E os portadores da palavra devem converter-se então nos seus guardiães, para preservar o legado da diplomacia, paz e da harmonia, que às futuras gerações será tão necessário.
Como bem dizia o monge tibetano Dugpa Rimpoché: “Nenhuma noite é o bastante longa e obscura para impedir a alvorada”. No entanto, nos tempos de escuridão o ser retrocede aos seus instintos mais primários e o esplendor, e multiplicidade criadora de diversidade, dá passagem à cegueira, uniformidade e encolhimento dos sistemas sobre si mesmos.
Além disto temos os inúmeros confrontos sem resolver, que podem ser ainda motivo de preocupação nas próximas décadas: na Europa, os Balcãs, a Rússia com a Ucrânia, a Rússia com a Geórgia, O Cáucaso das inúmeras nações, a Turquia com a Arménia, ou o Curdistão; na América: os Países da Alba, a Colômbia, o Haiti, as Malvinas; na África: o Sara Ocidental, o Congo, os Grandes Lagos, o Sudão (hoje em destaque) o Chade, a Somália; na Ásia: a China com o Taiwan, com o Japão, o Tibete, a Coreia do Norte…
Isso sem acrescentar os problemas próprios derivados da convivência religioso, étnica, cultural… e dos difíceis encaixes entre potências minguantes ocidentais e novas potencias emergentes; nesse inevitável transe que nos leva de um mundo Comandado pelo Ocidente com referências nacionais, a um mundo caminho da regionalização… Em trânsito a Mundialização, que requer da mistura racial, religiosa e cultural, para dela formar uma nova cultura universal, baseada na unidade da diversidade, com novos valores planetários, primeiras amostras dos quais são as declarações dos direitos humanos, do neno, da mulher, a luta ecológica, etc.
Eis o quadro, o cenário. Mas seremos os seres humanos quem devermos pintá-lo, se deixamos que a iniciativa a levem uns quantos no topo de cada sociedade, vamos encontrar-nos com que esses quantos preservarão ou tentarão garantir a sobrevivência e segurança das suas estruturas de poder, chamadas governos, alianças militares… Tentando como sempre tentaram, através da história, espalhar a sua influência, e misturando tudo isto com o seu instinto defensivo, à vez que de conquista, como magistralmente explicam Pascal Boniface e Hubert Védrine, no seu extraordinário Atlas das Crises e dos Conflitos…
Resta-nos cada dia menos tempo, e cada dia se faz mais necessário que as populações do planeta se unam, trabalhem em conjunto e procurem criar um espaço universal de procura da paz. Mais que nunca é preciso um movimento Internacional Pacifista. E da resposta da cidadania a este dependerá o nosso futuro e o dos nossos filhos.
Como bem afirma Erich Fromm:
“A fé na vida, em si mesmo e nos demais, tem de edificar-se num terreno firme de realismo; quer dizer, sob a capacidade de ver onde se situa o mal, de ver a cilada, a destruição e o egoísmo, não só quando aparecem a olhos nus, senão também nas suas múltiplas máscaras e disfarces”.
