Do Reintegracionismo ao Integracionismo

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Por Artur Alonso Novelhe

Dizia o Prof. Evanildo Bechara da Academia Brasileira das Letras, referindo-se ao movimento que na Galiza visa reorientar as políticas linguísticas numa confluência ortográfica com a lusofonia, dizia pois, o Professor, que para ele o termo exato desta tendência deveria ser integracionismo, dado que segundo as suas palavras textuais: ”não se pode reintegrar o que sempre esteve integrado”.

Deste jeito, se focarmos a problemática linguística da Galiza a partir do integracionismo, teríamos que afirmar que o galego, que ficou ruralizado e afastado dos centros de poder, definitivamente após a doma e castração, e que desde o século XIV foi perdendo o controlo sobre o centro peninsular ao tempo que o perdia a sua nobreza; esse mesmo galego avançava pelo mundo gerando novas formas, enriquecendo-se com novos léxicos, admitindo no seu seio novos sotaques e criando uma das mais belas literaturas universais, clássica e moderna. Porém, esse galego que tão vigoroso se mostrava fora das nossas fronteiras, ia-se isolando e deturpando na parte Noroeste do berço que lhe deu origem.

Visto então da nova focagem do integracionismo, os galegos e galegas deveremos aceitar que a nossa língua não só nos pertence a nós, não só é do nosso património e  que, enquanto na Galiza historicamente sofria um processo de deturpação, no resto da lusofonia se fortalecia e afirmava como língua nacional de vários países.

Também deveríamos conformar-nos com o facto de o galego, por distintas e complicadas vicissitudes históricas que estão bem à vista (mas não são objeto de estudo neste espaço tão breve), ser conhecido a nível internacional como português, do mesmo jeito que por interesses imperiais de uniformização o castelhano é conhecido internacionalmente como espanhol, não sendo a única língua da Espanha.

Além disso, o que hoje muita gente se empenha em chamar de “galego normativo”, num intento diferenciador e isolador, esse galego não é senão um galego deformado, inchado de léxico e ortografia castelhana, e altamente dependente da língua da meseta, com a que hoje compartilha espaço geográfico na Galiza, à vez que não ocorre o mesmo com o galego em Castela. Esta discriminação linguística vê-se hoje como normal, mas é de facto mostra evidente da imposição do castelhano na nossa nação, após o triunfo do reino de Castela nos conflitos pelo domínio peninsular.

Pelo contrário, o que hoje é denominado galego normativo, não é senão na realidade um “galego – castelhano”, formado por um processo similar ainda que mais prolongado no tempo, que a forma dialetal, mistura entre inglês e espanhol, nos EUA, que na atualidade também está normativizado, contando com usuais dicionários. O chamado “Spanglish” está a ganhar a partida, geração a geração, àquelas camadas sociais mais idosas que ainda conservam o seu castelhano original, isso apesar de o castelhano dos EUA contar ainda com algum poderoso meio audiovisual e escrito de propagação e promoção do mesmo. Na Galiza praticamente são inexistentes os meios escritos em galego, e os escassos audiovisuais são receptores e emissores do galego-castelhano, assentado normativamente na norma RAG, que durante mais de vinte anos não tem senão ajudado a desviar a língua do seu seio de origem (como se isto fosse possível sem destruir a mesma língua), e infelizmente provocado contínuas perdas de falantes.

O problema do galego-castelhano não é só a sua má adaptação à concorrência com o idioma internacional chamado espanhol, com que compartilha espaço, senão que é totalmente permeável à intoxicação lexical por parte deste.

Além disso, a normativa RAG tem adequado verbetes originários da língua castelhana, assim como léxico de criação própria que, longe de lhe dar uma seriedade e rigorosidade em face da cidadania, tem aumentado a sensação bem assente na sociedade galega, do galego vir a ser uma espécie de língua de segunda ordem, que cada pessoa pode falar a seu bel-prazer; enquanto o castelhano é a língua por antonomásia.

A normativa RAG ainda acentua a falsa crença de o castelhano ser a única língua para a comunicação séria, formal, e além fronteiras, pelo que deve ser bem tratada, bem falada, e bem grafada.

As distintas retificações da normativa RAG tampouco têm ajudado a criar um clima de confiança, em que a cidadania possa ver o galego como uma língua com fortes raízes, coesão e séculos de evolução, adaptação e consolidação em todos os países que usufruem dela, e em todas as suas camadas sociais.

Este tipo de problemas, causados pelo isolamento do galego-castelhano, aumenta lamentavelmente as possibilidades de o galego ir aos poucos perdendo não só falantes no seu território, como até que os falantes que vão restando cada vez estejam mais intoxicados de léxico castelhano, que pouco a pouco, como um cancro, vai corrompendo a língua por dentro: apagando palavras galegas e acomodando no seu lugar a versão castelhana da mesma.

A estas alturas é já patente que o galego falado maioritariamente é mais uma sorte de castelhano galeguizado, do que de galego-castelhano; sendo as franjas mais novas da população que ainda procuram em alguns círculos falar galego, as mais afetadas.

Daí que nesta realidade a necessidade de reconhecermos como sociedade que a nossa língua vigora forte noutros regiões do planeta e é uma língua de projeção global e prestígio económico, financeiro e diplomático, faz-se essencial para mudar os maus hábitos sociais, e exigir o que a esta língua corresponde, e só lhe é negado no seu berço de nascença, a saber: mais peso na mídia, mais peso na imprensa, mais peso institucional, familiar e social.

Utilizando para tal fim todas as ferramentas ao nosso alcance, como podem ser a emissão das televisões globais, chegada de imprensa, livros e demais em português.

Afirmando o uso da língua em todos os espaços a partir de iniciativas individuais, coletivas e plurais, para ir ganhando espaços que prestigiem o nosso idioma, e criem consciência entre a cidadania.

É muito importante que esses espaços ganhos para o galego sejam otimamente geridos, procurando os interessados aperfeiçoar o idioma de modo a que estes espaços gerem também circuitos de aprendizagem indireta, ao tempo que neles se deve fomentar a relação cultural com o meio lusófono, por meio de música, poesia, dança chegada desses países, como modelo para alargar a perspetiva do nosso espaço cultural e linguístico.

Focar a análise a partir do integracionismo fornece-nos uma nova visão baseada no facto de o galego já estar na lusofonia sem necessidade de o reintegrar. Também nos ajuda a compreender que o processo linguístico na Galiza vai acompanhado do evoluir do galego a nível global. Que a nossa língua já não só nos pertence a nós e que por esse mesmo motivo devemos estar abertos à riqueza lexical que nos fornecem esses povos, assim como eles já estão a introduzir o nosso léxico nos seus dicionários. Além disso, isto nos obriga a um bom cuidado e uso desse património comum da humanidade.

Por tudo isto acho que o reintegracionismo tem de evoluir para um discurso integracionista.