Por Artur Alonso Novelhe
Lamentavelmente a campanha eleitoral tem um claro perdedor: O Galeguismo. E tem um grande vencedor: O nacionalismo espanhol. Este segundo também consolida as suas posições em Euskadi.
Portanto, se alguma vez houve um sonho de pluralidade Estatal, um sonho de federalismo respeitoso com a pluralidade e diversidade, estão a ponto de enterrá-lo por muitos anos, os de sempre.
Nos meses que vão a seguir, vão ir-se impulsionando os mitos mais rançosos, a maiores bem acrescentados pela mídia centralista: a Língua Castelhana é a língua comum de Espanha.
Para o castelhano se converter em língua comum de todo o Estado, teria que ter evolucionado historicamente como uma língua franca de consenso entre as diversas comunidades desse Estado. Mas este não é o caso, senão que a língua de Cervantes se converteu em língua de Estado pela simples razão de Estado de que era a língua dos vencedores nas disputas pelo controle do poder peninsular. Sendo portanto uma língua imposta.
De modo que não valendo em democracia a razão histórica conquistada pelas armas, o castelhano simplesmente é um mais dos quatro idiomas espanhóis com os que compartilha diferentes espaços nacionais, enquanto outros espaços são reservados só para a língua superior. O reconhecimento de maiores direitos é uma gravidade que nenhum direito constituído democraticamente poderia permitir e menos na sua Carta Magna: A Constituição.
Se alguma vez tivemos a ingenuidade de acreditar que o PSOE poderia, por inércia dos factos, tender timidamente pontes para um federalismo constituinte que, com o tempo, reconhece-se o direito dos povos à identidade e à sua sobrevivência, os recentes resultados galegos e a mudança estratégica em Euskadi fecham já, ao menos por muito tempo, essa remota ou ingénua, vital possibilidade.
Reforçando ademais em Catalunha uma visão de temor aos acordos de governo do nacionalismo de esquerdas catalão, que está a criar um clima de desconfiança nefando. Mesmamente trespassando à sociedade uma nostalgia certa dos tempos de CiU.
Na Galiza o BNG é já mesmo incapaz de aceder ao teito eleitoral que Beiras fixara no seu momento. A força mediática do espanholismo, assim como o assentamento do PP em vilas e cidades não permite avanços muito significativos pela via institucional. Criar uma rede de poder que permita ao nacionalismo galego uma margem de influência no terreno da mídia, assim como incidência em sectores empresarias tradicionalmente da direita centralista, onde o galeguismo não tinha efectiva presença, faz-se agora muito mais dificultoso ao perderem o governo.
No entanto, quando uma porta se fecha, abrem-se três janelas. Um novo rumo estratégico pode e deve ser concebido. Conservar aquele tecido representativo que ainda não está a ser afugentada com a derrota, é muito importante, mas também é preciso o essencial: o BNG deve voltar a dar uma olhadela sobre a base. Mas não com aquelas praticas ultrapassadas, de estilo estalinista, onde o partido exercia um controlo total sobre os movimentos sociais, criando inclusive organizações correia no terreno sindical, no campo feminista, etc. Mas tudo o contrário: fomentando a independência e o altermundismo organizativo criador de referências e programas que bem puderam ser aproveitados para uma orientação mais social dentro da organização frentista.
A crise estrutural do sistema de Capital, com o progressivo retrocesso económico da potência hegemónica, a acelerada debilidade do dólar que corre um grande perigo de implosão, assim como a dívida crescente tanto das famílias como do governo americano, estão a gerar alterações profundas que dificultam gravemente a recuperação económica mundial depois da hemorragia dos ativos financeiros tóxicos a nível global.
Um futuro de grandes dificuldades para as camadas mais desfavorecidas da população planetária, conflituoso e em luta pela sobrevivência e a dignidade, será um cenário não tão longínquo como imaginávamos. Assim como no seu dia a estratégia desenhada por Beiras do “Projeto Comum” possibilitou o grande avanço eleitoral do Bloco, ao desprender-se da sua visão “satânico-esquerdista” fabricada pelo poder, agora é imperativo mudar para uma nova realidade estratégica que permita estudar, com cautela, os novos reptos que estão à nossa frente.
Dinamizar a sociedade prestando mais apoio e meios aos movimentos sociais é na realidade a única oportunidade que lhe resta ao BNG de ganhar essa maioria social galeguista que possibilite a sua volta ao governo. Mas a interação tem de ser mútua: o Bloco deve prestar ouvidos às demandas dos coletivos sociais, à vez que os vai reforçando em número e dando tramitação parlamentar adequada às suas propostas.
Quer dizer, no período de oposição Partido e coletivos devem funcionar em simbiose.
Perdido o poder e nunca contando com os meios de comunicação de massas, ao galeguismo só lhe resta ganhar o campo cívico ou desaparecer na lentidão do processo.
Todas as forças galeguistas devem unir-se na lavoura de permear todos os estratos sociais, tingindo de galeguismo qualquer debate que gere a sociedade. Foi lamentável nestas eleições olhar como a mídia golpista ganhava a rua com mensagens tão simples e provocadoras.
Um grupo no governo não pode enfrentar estes sujos reptos, ao realizarem uma política institucional e de aproveitamento do momento; tem de ser comedido nas mensagens. Mas se a sociedade estiver bem atrelada na sua base popular, estará em condições de anular todas essas práticas tão maliciosas, senão pelo contrário será alvo de tais disparates.
O galeguismo deve entender que o Partido Maioritário, quando governa, deve fazer políticas e pactos nem sempre condizentes com os interesses dos diferentes sectores populares, mas o partido maioritário no governo deve também por sua vez assumir que os confrontos com as suas próprias bases são algo inevitável neste cenário. Do mesmo jeito, nunca deve ter medo de que outros partidos ou formações galeguistas alarguem a sua base pela esquerda ou direita, em detrimento do partido governante, pois disso se trata: o galeguismo deve preencher todos os ocos sociais, além de, se os tempos virarem mais conservadores ou revolucionários, sempre o partido maioritário pode transformar o seu discurso, ou bem os quadros mais adaptados, para da situação tirar melhor proveito.
O importante, pois, não são as organizações e o seu nome, o importante é a sobrevivência dum povo dentro da sua identidade. Experiências como as do PT Brasileiro mostram que mesmo nos momentos de mais confronto entre o partido governamental e os movimentos sociais, figuras destacadas deste mesmo partido possibilitaram saídas, quase impossíveis, para a abertura e promoção dos sectores de classe, e ainda por cima a realização de encontros tão importantes como o Foro Social Mundial, e inclusive animaram as bases a criar maior autonomia e, ainda as reforçaram nesta tarefa, apesar de que isso significasse mais conflito com o governo.
Estes dirigentes eram conscientes de que se essas bases ganhavam a batalha na rua, iriam também restando força global ao grande capital, e na medida em que elas avançassem na sua luta, o partido do poder não teria mais remédio que virar o rumo. Mas também esses dirigentes são conscientes de que as batalhas são longas e nem sempre dependem dos fatores internos. No entanto, também compreendem que se mudar a situação global, as forças sociais bem assentes estarão mais prontas para travar batalhas decisivas. Daí o respeito à independência destes coletivos.
O Espanholismo esta confiante, agora mais que nunca acredita possível acabar com os redutos de resistência nacional, como restos dum navio à espera de morrer noutras praias, e na sua dinâmica expansionista sonha febrilmente com um mundo em esticado em ñ. Infelizmente para eles, nunca foram fortes em questões de estratégia, de modo que se agirmos com inteligência, poderemos surpreendê-los.
Os tempos são propícios não só para resistir como para avançar. Eles o ignoram e nós sabemos, mas para isso primeiro às vezes há que retificar.
