Da Necessidade de Dominar ao Medo a ser Dominado

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Por Artur Alonso Novelhe

Com a Líbia já na bagageira, com a ONU a negociar o novo estatuto internacional que terá a nova província do Ocidente, a batalha mediática pela Síria em breve terá começo. O relógio parece querer contar para trás na casa de Assad.

Mas para levar à frente um novo cenário de demolição por meio de bombardeamentos, intervenção e apoio estratégico a grupos dissidentes, ocidente deveria contar com o apoio, quanto menos encoberto, da Rússia; dado este último país contar com uma base militar naval no noroeste da Síria.

Aliás, essa intervenção corre o risco de produzir um plano de batalha muito mais amplo, dado o Irão saber que ele será o seguinte da listagem e o Hizbulá no Líbano entender que teria de mudar radicalmente os seus princípios e visão política, para poder sobreviver sem o apoio da Síria e com Israel nas suas costas.

No entanto, acreditamos na capacidade geoestratégica que sempre demonstra o Império Americano, e vamos ver nos seguintes capítulos deste drama como a administração Obama desenreda o novelo do Oriente Próximo.

Após a vitória político-tenológica-económica e militar (primeira guerra do Afeganistão) sobre a URSS, os EUA estão a tornar-se, em parceria com os seus aliados ocidentais, na única potência com capacidade de intervenção militar em todo o orbe.

Continuam a manter o predomínio científico, tecnológico (apesar de os emergentes irem em seu encalço), mantêm também a supremacia mediática, agora reforçada pela nova aliança com a mídia de referência árabe, vital para as mudanças que se estão a dar no mundo islâmico neste momento. Eis, pois, no campo económico, onde Ocidente tem o seu calcanhar de Aquiles; neste campo o desloque hegemónico face à China e Ásia é um facto. Daí vir a ser tão importante conseguir controlar Oriente Médio.

No já famoso (passará à história) discurso do Presidente Obama na Universidade do Cairo em Junho de 2009, este advertia a seus homólogos do mundo árabe quanto à necessária viragem democrática das suas sociedades, dado tanto o Islão como Ocidente manterem valores comuns baseados na tolerância, ética, paz e justiça social.

Neste discurso se estava a dar uma mudança global de estratégia desde a Guerra contra o Terror, preconizada pelo seu antecessor Bush, à nova perceção de entendimento entre o mundo muçulmano e ocidente. Neste novo período que aqui se iniciava a Fraternidade Muçulmana ia ter um papel relevante, graças ao trabalho dos seus representantes no exílio, nomeadamente francês e inglês.

O regime Líbio, ao igual que o Sírio, fora em certo modo produto da descolonização e a posterior Guerra Fria. A sua demolição nas novas circunstâncias era ou é questão de tempo, de possibilidades de sobrevivência, em meio das mudanças.

Estes sistemas políticos dificilmente se adequam aos novos ventos que estão a vigorar no mundo árabe e ocidental, onde apesar da grave crise estrutural sistémica, a Ordem Mercantil continua a sua perpétua expansão desde que Vasco da Gama chegou à Índia.

Outra das vítimas do final da Guerra Fria tem sido o Estado Previdência ou Estado do Bem-Estar, depois de derrotar o fracassado modelo soviético, a Ordem Mercantil está agora a demolir os restos que ficam, por todo ocidente, do setor público, que passa sem maiores problemas, às mãos privadas.

Então para continuar esta lógica expansiva pelo mundo, e tentar minimizar os efeitos do furação económico, Ocidente precisa de controlar as rotas do petróleo, do gás e isolar a China. Mas para concretizar tudo isto faz-se preciso o apoio, ao menos tácito, da Rússia. Não sendo tão contra natura, como muitos poderiam pensar, dado uma das causas da derrota soviética na Guerra Fria, se produzir precisamente graças à aliança conseguida pela Administração Nixon com a China, na década de 70, permitindo a quebra em dois do campo socialista, e fomentado a concorrência dentro do mesmo.

Agora a Federação Russa poderia jogar esse papel à inversa. Se o fizer, o cenário de queda na Síria seria muito provável e a sequência a seguir, a tentativa de demolição do Irão, poderia mesmo ser factível.

Mas sem o apoio, quanto menos encoberto, da Rússia, todo se tornaria muito mais complexo e mesmo perigoso, pois um ataque aéreo à Síria sem a colaboração russa podia alterar todo o mapa do Oriente, alastrando os seus efeitos para o Líbano, Palestina, Afeganistão, Irão, Paquistão, e mesmo as fronteiras turcas.

Pelo que para o Ocidente controlar esta zona tão importante vai precisar de muita paciência, pois o ansiado apoio dos russos pode demorar anos.

No entanto, se algo tem mostrado ao longo da história a Ordem Mercantil Privada é paciência, mas se a crise estrutural continua a abalar o edifício sobre o qual se sustenta o “mundo livre”, pode que Ocidente se veja empurrado para uma escalada militar de prognóstico nada favorável, onde o risco a assumir venha a ser muito alto. Algo que, como bem sabem os assessores ocidentais, desaconselham claramente as guerras do Iraque e o Afeganistão.

Mas isto será em próximos episódios e de momento o Imperador pode continuar a mater o sorriso, e deverá preocupar-se um pouco mais com os assuntos internos.

E nós, como bem afirma Carlos Taibo, no início do capítulo 8 do seu livro “Decrescimento, Crise, Capitalismo” editado por estaleiro: “Temos a obrigação de perguntar-nos se tantos progressos como os que acumulámos nos últimos decénios fizeram de nós, habitantes do Norte desenvolvido, pessoas mais felizes do que aquelas que viveram no passado”…