Crítica da Realidade, contra a irrealidade galega

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Por Artur Alonso Novelhe

Contra essa tão comum, ainda hoje viva, crítica literária que pretende circunscrever a realidade da criação escrita galega, tanto a histórica como a atual, a uma relação quase idílica entre as gentes, o fato literário em si e a paisagem: “…A poesia galega, toda música, toda queixas, suspiros e doces sorrisinhos, murmurando umas vezes com os ventos misteriosos dos bosques, bailando outra com o raio do sol que vai sereninho por riba das águas dum rio farto e grave…” (Prólogo de Cantares Gallegos. Rosália de Castro, Obras Completas, Tomo I. 1983).

Esta crítica que apresenta a atualidade de cada época como herdeira dessa saudade quase inocente, desse povo humilde e enroscado sobre si mesmo, falto de brio e coragem; parte da errada focagem que automaticamente situa o referente galego num fato regional, com aspectos próprios que prevalecem, afastado do tronco comum universal, e unido nas sombras que não se veem, mas se pressentem, de um quadro cultural referencial, superior e comum a todo o Estado; que parece magicamente fosse, através dos séculos, implementado pela natural superioridade dessa suposta cultura comum; e onde a peculiaridade própria de cada região se dilui em prol da inçada língua central de coesão. Esta crítica, de algum modo, associa e assume, sem reparar no efeito, a diferença galega como uma realidade particular dentro do tronco maior e melhor sustentado de essa imaginada cultura Estatal comum.

Esta focagem crítica, que ainda prevalece e diríamos tende a ver-se oficial, intui que o fato peculiar e particular desta forma de entender a galeguidade é interiorizado de modo natural, coletiva e individualmente, pelo ser galego, como um fato cientificamente demonstrado de a sua raiz pertencer ao âmbito familiar privado, ao âmbito das relações sociais que se vergam à mesma jurisdição delimitada pela particularidade assente na visão regional; e que em modo algum gera direitos, mais além desse ambíguo, desarreigado e desconexo mundo, com diferenças que não podemos salvar de freguesia a freguesia; e que pela mesma inércia e natural evolução da vida, lamentavelmente, a dia de hoje, tende à sua extinção.

Daí que nos insurjamos contra este tipo de crítica no campo literário, pois, a nosso modo de ver, contribui a reforçar o papel subsidiário, resignadamente aceite, dos valores, da cultura e da língua da Galiza; a outros valores, outra língua e outra cultura, falsamente denominada comum, e assumida por isso mesmo, como mais forte e superior.

Nada mais desajeitado e longe da realidade que descrever este processo, com o objetivo de enaltecer e glorificar a galeguidade, que olhar o perfil retraído e garimoso do galego, como algo sublime e subtil, sem ser capazes de ver aí os séculos de maltrato e marginalização da sua língua e cultura. O auto-ódio assumido durante décadas e décadas em que o galego foi considerado um dialeto sem préstimo e o castelhano e os seus valores idioma de cultura e prestígio. A baixa autoestima gerada em gerações e gerações obrigadas a serem escolarizadas numa língua e uma cultura alheias à sua própria vida e vital realização.

Inocentemente continuar a associar a dureza da alma galega, a sua obrigada obtusidade, a uma característica intrínseca associada ao clima ou à paisagem, só ajuda a continuar apagando da memória coletiva a história de substituição do poder galego, e das famílias nobiliárias galegas, por famílias e vassalos da causa castelhana, numa época em que na península se disputavam os diferentes reinos a superioridade na Ibéria. Criando-se a partir daí um mundo organizado e ordenado administrativamente em castelhano, em contraste com um mundo desagregado, degradado, ignorado e isolado na língua própria da Galiza; usado a miúdo como referente de atraso.

Desenhar, pois, o auto-ódio e a autoestima ruída, o desejo de abandono duma realidade de prática marginalização cultural, a nível coletivo e individual, como original, imaginativa e sábia, na vontade intuitiva da resistência galega, mas fechada para si ou inserida numa naturalidade de conformidade feliz; e à sua vez integrar toda esta triste contagem numa paisagem nascida como parte fundamental desta imaginária e fantástica construção crítica literária, onde o galego e a sua cultura subsistem e prevalecem no particular, porém expostos à contaminação ou contágio na sua vertente universal, parece-nos sem nenhuma duvida, um exemplo perfeito de estratégia a não seguir, que condiciona a viabilidade da cultura galega e a sua emancipação dum universo que a condena a extinção.

Negamo-nos, pois, a seguir esta senda e construímos uma nova focagem da critica literária, continuadora da já iniciada por figuras como Guerra da Cal, Jenaro Marinhas Del Valle, ou mais recentemente Joel R. Gomes… E vamos reconhecer a paisagem literária galega como o que na realidade é: uma riquíssima variedade na unidade também múltipla do mundo cultural galego lusófono, onde a nossa língua e cultura podem interagir em pé de igualdade, achegando novos frutos e enriquecendo-se de tão vasta e múltipla diversidade.

Carnota, 21 de Julho de 2009