Por Artur Alonso Novelhe
“Quando o primeiro-ministro espanhol declarou que o estado espanhol salvaria o Bankia enquanto, ao mesmo tempo, admitia que a Espanha não podia obter o cash para fazê-lo, havia duas explicações plausíveis sobre como este feito poderia ser alcançado.
Uma era que a Espanha se tornaria oficialmente o quarto estado membro da Eurozona a ter caído fora dos mercados, assegurando um salvamento do resto da Europa.
A segunda explicação era que a Espanha se tornaria o quarto estado membro da Eurozona a ter caído fora dos mercados, assegurando um salvamento do resto da Europa, sem admitir que isto fosse o caso – não oficialmente.Assim, foi isto que eles fizeram: A Europa permitiu à Espanha emitir nova dívida pública que é transmitida a bancos espanhóis (ao invés de dinheiro) em troca de ações. Então, os bancos enviarão esta nova dívida pública ao BCE como colateral em troca de cash que manterá em funcionamento as caixas multibanco dos bancos espanhóis. O resultado final será, naturalmente, que a dívida espanhola aumentará e os bancos permanecerão num estado zumbificado.”
(Yanis Varoufakis )
O Fundo Europeu de Estabilidade Financeira – EFSF –, empresa que foi criada pelos 17 Estados membros que partilhavam o euro em maio de 2010, é a dia de hoje o principal veículo financeiro criado na Eurozona para enfrentar a crise soberana, auxiliado a partir de 2012 pelo Mecanismo Europeu de Estabilização Financeira; no entanto, ambos parecem incapazes, apesar dos seus contínuos aumentos de reserva e injeção de liquidez, para travarem os intermitentes bombardeios que o eufemístico “Deus Mercado” lança sobre a fraqueza das dívidas soberanas dos Estados do Sul da Europa, derrubando um a um desde a crise global, primeiro a Grécia, a Irlanda, depois Portugal e agora na prática a Espanha.
Desde a criação da União Económica e Monetária e após a adoção na cimeira de Madrid de 1995 do Euro, todos os seguintes passos foram dados no intuito de eliminação do risco cambial e na facilidade para aceder aos mercados financeiros internacionais, procedendo a uma Europa mais Unida e centralizada no económico; que em teoria teria que trazer consigo um maior peso político e económico também no cenário global.
Tudo na curta parecia correr bem, mesmo o endividamento excessivo – mais privado que publico – de países como Portugal e Espanha, poderia ser resolvido facilmente sem consequências muito importantes para a zona Euro, se não fosse a implosão da crise financeira de 2008 nos EUA, obrigando os Norte Americanos a eliminar a concorrência do euro como moeda de reserva global em face de um dólar já de por si muito enfraquecido.
Para seguirem mantendo a governança global, o mundo Ocidental, tanto na Europa como nos EUA, tiveram de injetar liquidez de forma monstruosa nos seus respetivos sistemas financeiros, desde os seus respetivos Bancos Centrais.
Como consequência disto uma inflação encoberta atingia as respetivas moedas – dólar e euro – que na prática estão a depreciar seu valor continuamente, após cada nova injeção.
No nível global isto ocasiona incerteza, falta de confiança e grande desconforto por parte dos países emergentes que continuamente estão a trocar as suas gigantescas reservas em dólares ou euros, por dívidas soberanas dos respetivos países ocidentais.
Uma forma de combater esta tendência é reforçar, cada vez com mais decisão, o intercâmbio global nas moedas nacionais destes próprios países emergentes, assim como o comércio direto e planos de colaboração entre os mesmos.
Mas estes países tampouco deixam de ser atacados pelos braços invisíveis do Todo-poderoso “Deus Mercado”: utilizando a facilidade de criar dinheiro do nada, do mundo Ocidental, que permite ao Ocidente angariar emprestado dinheiro barato desde as suas praças de aprovisionamento e deslocarem o mesmo, imediatamente, para países emergentes, onde os juros são mais altos, obtendo imediatamente a rentabilidade correspondente e criando, de passagem, excesso de divisa no país recetor dos montantes.
Apesar disto, nem com todos estes “inteligentes negócios” os banqueiros europeus podem permanecer muito tempo a salvo, pois basta um ataque maciço a um dos pavilhões europeus do sul, como estes dias está a sofrer o IBEX Espanhol, e todo o barco das ganâncias vira do avesso.
Sendo assim, a batalha silenciosa entre emergentes e Ocidente continua por trás dos noticiários principais da media internacionais.
O preocupante é que a margem de mobilidade e capacidade de manobra, sem que entrem em colisão os interesses de ambos os gigantes, é cada vez mais estreita, o qual facilita pouco a capacidade de acordos globais, que desde a II Guerra Mundial, têm permitido uma certa estabilidade a nível global e uma certa prosperidade a nível regional, em determinadas zonas da Orbe – sacrificando outras, que bem poderíamos chamar de zonas de colisão, onde os poderes de cada momento jogam os seus avanços e retrocessos no tabuleiro mundial.
Deste modo pouco entusiastas podem ser as reuniões do G-8 ou G-20, como a futura a celebrar no México, onde as cada vez mais divergentes e menos conciliáveis visões de mundo se põem de manifesto.
Dado isto, só nos resta perguntar, se com o galho da crise económica na Europa, não estamos ocultando também outras importantes questões que afetam diretamente o cidadão, como é a necessidade de acelerar – não só a unidade da Europa, como também de todo o ocidente – ante uma possível futura crise nas relações globais; assim como a certeza de que tão só a Ordem Mercantil Ocidental é a única com capacidade para criar essa união – e que o único modelo que essa Ordem pode seguir é o que está já em vigor nos EUA e que muitos analistas da esquerda qualificam de capitalismo selvagem?
Então que esconde a crise: qual é o verdadeiro rosto da crise? O único que podemos afirmar, como sempre temos afirmado com relativa certeza, é que o mundo não voltará a ser o mesmo desde Setembro de 2008. Uma data que para nós é muito mais importante que o mesmo 11 de Setembro de 2001.
