Por Artur Alonso Novelhe
A visita do Presidente norte-americano ao Brasil, a primeira dum chefe de Estado após a tomada de posse de Dilma Rousseff, denota a importância que o país esta ter neste novo cenário de transformação mundial, desde um velho sistema em decadência e senilidade a um novo modo organizativo e distribuidor dos papéis a nível planetário, ainda em fase de construção, todavia muito embrionária.
Nesta encruzilhada o velho sistema mal pode abastecer a todo o organismo dos fluxos necessários para a sobrevivência, o que gera por sua vez escassez.
Esta escassez verifica-se na acumulação das tendências críticas que se foram forjando ao longo de decénios, por causa do desgaste e contradições que toda estrutura complexa gera. Nesta fase, pois, aceleram-se as diversas crises latentes em toda a cadeia funcional e nomeadamente as mais ameaçadoras para a humanidade: crise económica, crise energética, crise ecológica e crise alimentar… as quais por sua vez provocam maior escassez.
Nesta conjuntura uma nação como a brasileira reúne todas as condições para ser cobiçado aliado de qualquer poder hegemónico, em tentativa de sobrevivência.
O Brasil possui junto com o Paraguai quase 40% das reservas de água potável a nível mundial, no seu território situa-se um dos maiores pulmões do globo: a Amazónia, no plano energético com a descoberta do Pré-sal e o poder em expansão da Petrobras, está destinado a jogar um papel de primeira ordem. Já no terreno alimentar, além de ser um dos espigueiros do orbe, tem evoluído tanto no nível das qualidades produtivas como científico-tecnológicas até o ponto de deixar de ser importador de capacidades e passar a ser exportador das mesmas.
Além disto o Brasil é hoje em dia a 7ª potência económica planetária, mas quanto a poder de decisão global passa já a ser a 6ª por trás dos EUA, a China, a Rússia, a Alemanha e a França, dado a Grã-bretanha ficar completamente sintonizada com o seu aliado norte-americano.
Daí que na folha informativa divulgada pela Casa Branca no quadro da visita presidencial, se destacasse sobretudo a faceta económica da mesma. Sendo os EUA o segundo sócio comercial depois da China, com um intercâmbio total de 46 mil milhões de dólares, favorável ao Império em mais de 7 mil milhões, tudo isto faz muito sentindo. Daí também a Presidenta Rousseff insistir diante do seu homologo Barack Obama, da prioridade para a diplomacia carioca de conseguir a retirada das barreiras protecionistas, por parte de Norte América, a produtos brasileiros da importância da carne bovina, sumo de laranja, algodão e aço, que impedem uma relação mais equitativa.
Dez acordos bilaterais foram assinados durante esta breve estadia. Acordos que vão de áreas eminentemente estratégicas como os biocombustíveis ou o espaço sideral até outras que têm a ver mais com o desenvolvimento humano como a educação.
No entanto, um ponto de fricção não deixou de transcender, o qual tem a ver com a ambição brasileira de ocupar uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da Organização de Nações Unidas.
A este respeito a presidente Dilma assegurava que o governo Obama se mostrara favorável a esta hipótese, enquanto o assessor da própria presidente reconhecia mais tarde que o tema só fora possível introduzi-lo na agenda à última hora e por decisão da mesma Casa Branca, dado o departamento de Estado, encabeçado por Hillary Clinton, estar em desacordo em esta questão ser levantada durante a visita.
Seja como for, uma mudança de paradigma parece estar a operar a nível global. Dentro desta transação em formação, na procura de manter o controlo hegemónico do atlântico impedindo ou travando momentaneamente o seu deslocamento face ao Pacífico, o Brasil parece ter tomado já partido.
Isto fica demonstrado pelas recentes votações no Conselho de Direitos Humanos da ONU, onde Brasília votou em favor de um relator que fará uma investigação da situação dos direitos humanos no Irão, e duma proposta de estender n um ano o mandato do relator especial para a Coreia do Norte, este último país, até o de agora, fiel aliado da China.
Esta aposta nova do Brasil, que vem a reforçar os laços militares estabelecidos tanto com os EUA como com a França, vai encaminhada precisamente neste sentido: o de reforçar o eixo Atlântico Norte – Atlântico Sul, onde a chancelaria carioca pode jogar um papel de primeira ordem dada a sua primazia no MERCOSUL, assim como os laços que mantém com o cone Sul Africano, nomeadamente África do Sul, Angola e Moçambique (este último país estrategicamente situado nas rotas do Índico).
Nesta nova conjuntura, a Galiza poderia jogar um papel de primeira ordem, ao ser o Noroeste peninsular o berço tanto das culturas lusófona como celta; para isso teria que converter-se este território no eixo de aproximação cultural de ambos os mundos.
Mas também para que esta nova realidade tome força dentro da sociedade galega, o reintegracionismo deve fazer uma decidida aposta estratégica, consistente em procurar um achegamento entre estas duas realidades a todos os níveis que lhe for possível.
No mundo académico também o reintegracionismo terá de mudar até uma visão mais institucional, virando as costas a posicionamentos mais radicais ou anti-atlânticos e construir um discurso oficial de “realpolitik”, tanto nas declarações públicas como nos foros mais privados, que possibilite à Galiza um futuro despertar de interesse da sua cultura em todo o Atlântico, tanto sul como norte. Isto daria visibilidade à identidade galega como fazendo parte de uma cultura global. Para isso também é preciso superar os velhos paradigmas de territorialidade, que as novas tendências estão a varrer do mapa, para entrar nos novos campos do espaço multipolar, múltiplo e compartilhado, da interconexão virtual, do respeito à identidade diversa dentro de cada sociedade. Da criação dos laços intercontinentais transgressores do território como identidade única.
Para já o isolacionismo não pode jogar este benéfico papel, pelo que nas tendências globais de engajamento linguístico e cultural, continuar mantendo uma fantasia de encaixe dos particularismos está francamente condenada ao fracasso, mais ainda num caso como o da Galiza, que tanto para a sua comunicação interna ou externa não precisa para nada deste velho modelo, dado o castelhano cumprir essas funções. Daí que a única alternativa viável em curto prazo para a língua própria do país seja a assunção do galego internacional como segunda língua estrangeira do ensino, até não consumar-se um facto mais longínquo no tempo, aquele que permita a mudança da correlação de forças entre o castelhano e o galego, e de reconhecimento no ensino da necessidade de incluir para quanto antes melhor a implementação do galego internacional em substituição dum galego isolado sem possibilidade de sobrevivência, pela sua falta de utilidade linguística real. Utilidade que tem o galego internacional desta nova perspetiva de defesa da conceção atlântica.
De modo que o reintegracionismo deverá também superar velhas guerras com o isolacionismo e criar uma alternativa cívica d a base até os sectores mais intelectualizados e académicos, virados a construir a alternativa atlântica que a história nos está a fornecer, criando tanto essa mentalidade Europeia como universal de sermos filhos duma cultura e identidade global, manifesta em diversas formas nos diversos recantos do globo, destinada a unir dous mundos, em certo modo, nascidos da entranha Calaica.
Lembrar-se daquele provérbio oriental. “ O rio chega sempre ao mar, porque sabe contornar obstáculos”
Também sabe receber no seu seio afluentes, acrescentaríamos nós.

