Por Artur Alonso
Quando no ano 2003, Lula da Silva ganha as eleições à presidência do Brasil, o Império Ocidental – dividido – e comandado pelos EUA, encontra-se emaranhado na armadilha do Iraque e o Afeganistão. Esta aposta geoestratégica unilateral nascida da Ideia certa de Único Império na história com capacidade global, tinha os seus dias contados. O fracasso, no entanto, ia dar consigo no acumulo de monstruosas dividas e aumento dos gastos de defesa, com consequente crescida dos problemas, na balança de pagamentos, para o Governo de Washington. Esses acúmulos aliados com desvio de ativos das bolhas das Ponto.com (a causa do craque do Nasdaq) – face ao sector imobiliário, numa estratégia de corta-fogo desenhada por Bem Bernanke, na altura presidente da FED (Reserva Federal Americana) ia trazer consigo a criação duma nova bolha imobiliária pronta a estourar. Dessa implosão, detonada em 2007 e feita visível em Setembro de 2008, que trouxe consigo o colapso sistémico e o derrube de toda a arquitetura financeira, estão hoje alicerçados a maior parte dos problemas geopolíticos que vivencia a humanidade.
Mas durante esses primeiros anos de entrada do século, a América do Sul, graças a um plano muito bem executado pelos diversos executivos Brasileiros até hoje, foi capaz de criar um espaço comum, que apesar dos seus contrastes e mesmo contradições (interesses confrontados e mesmo diferentes sistemas e apostas políticas) teve a suficiente autonomia como para, pouco a pouco, ir-se libertando do controlo externo e das ingerências exteriores, que desde a sua formal independência vinha sofrendo: primeiro das potências coloniais, depois do poder britânico e mais tarde do norte-americano. Esta firme aposta pelos mercados internos como MERCOSUL e pela diplomacia comum, deram como bons resultados para o Continente, que mesmo crises internas profundas como as da Bolívia, Peru, Equador, Venezuela, assim como manifestas rivalidades entre os seus membros, como os confrontos fronteiriços entre a Colômbia e a Venezuela, fossem solucionados internamente, travando, com resolução e firmeza, as tentativas de ingerência externa. Quando isto não era possível, como no caso do Paraguai, este tipo de situações podiam quanto menos ser isoladas.
Governos compatíveis – mais ou menos progressistas e de esquerdas – tornar-se-iam maioritários na região, desde o acesso ao poder do carismático Lula da Silva. Sem essa figura e sem o poder vital do Brasil na América do Sul, não seria possível essa virada e transição duma situação de dependência política e financeira, a uma nova situação de vontade política, menor pressão económica e mesmo tentativa de minorar a ainda crescente situação de dependência financeira, mesmo do próprio Brasil – com um sector bancário ainda muito dependente do investimento exterior.
Tudo isto fora possível graças a um projeto nascido desde Brasília – onde o famoso desenvolvimento brasileiro estava baseado numa sorte de mercantilismo de estado, combinado com certo processo de abertura ao capital estrangeiro, sobretudo em sectores onde tecnologicamente ainda eram precisas esses tipos de parcerias. A baixa privatização de alguns ramos, com o intuito de solucionar pujantes problemas (assim como a necessidade de negociar com capital privado), além da alta força do sector estatal em sectores vitais para manter essa independência, faziam o resto.
Uma espécie e reedição à sul-americana, dos velhos modelos do Estado Providência, nascidos na Europa da Guerra Fria, onde o Capital e o trabalho eram arbitrados, moderados, nas suas lutas pelo poder real do Estado, fora outra das colunas em que se baseava este modelo. Mas aos pés de toda esta arquitetura estava a semente vital, que era baseada nas conquistas sociais, que se tinham experimentado em todo o continente, e que permitiam o afluxo contínuo de votos aos partidos sociais e de esquerdas, no poder nos países geográfica e demograficamente mais importantes da região. A transparência no modelo de gestão visualizava também esse sentimento de confiança que os eleitores tinham demandado dos antigos governantes, sem nunca ter sido concretizado em governos de direita.
Mas a agenda pelo desenvolvimento também trouxe consigo a entrada maciça de capitais exteriores a estes países, e concretamente com maior pujança ao Brasil. Os macroprogramas de crescimento trazem consigo também contradições muito fortes, nessa necessitada aliança entre os sectores populares e os seus governantes. Contradições que têm de ser aceites e em consequência adquirir maturidade e desenhar estratégias paralelas de ação social para minar o desencanto. A afluência maciça de capital traz consigo também o surgimento da habitual corrupção – dado entre outros fatores, estes novos poderes da esquerda não ter tido tempo para travar, sanear e substituir o antigo sistema baseado na corrupção e compra de lealdades, herdado do colonialismo e da dependência político-económica dos séculos anteriores (se a Europa tardou 500 anos em avançar face a uma União monetária, económica e política… e ainda o modelo não está definido… como podemos pretender que o continente Sul Americano consiga o mesmo em apenas um decênio de Independência real e 200 anos de independência formal?).
Pressionado pelos fortes balanços comercias favoráveis, como nunca tinham existido na sua história, assim como pelo estonteante crescimento interior, em todas as áreas, o Brasil ficou preso do seu próprio sonho de converter-se já, não só somente num ator regional de indubitável prestígio, como também num ator global com capacidades e habilidades diplomáticas a ter em conta em todos os foros internacionais.
O Império Ocidental veio ter que aceitar o Brasil como o melhor dos candidatos possíveis a dirigir o continente. Mas ultrapassadas as piores das ameaças internacionais – possível perda dos pontos de geração e de distribuição da maior parte dos recursos energéticos no Oriente Próximo, assim como a possível perda também dos maiores corredores de controlo da Ásia e o Pacífico, e mesmo a África (ganhando o corredor que comunica a Líbia com o Chade, entrada para a África Central) – Tudo muito bem reorganizado ao transitar duma estratégia de guerra, da antiga administração Bush para uma nova estratégia de cooperação, lançada pela nova administração de Barack Obama; o qual permitiu que as revoltas da Primavera Árabe ficassem no ativo benéfico do Império Ocidental (graças à habilidade da inteligência ocidental e do bom uso de todas a ferramentas ao seu alcance, para encaminhar derrotas militares e torná-las em acertos estratégicos).
Dizemos, pois, que ultrapassados esses momentos de desconcerto inicial – e apesar de na agenda continuar sempre presente solucionar prioritariamente os desafios mais iminentes das potências mais beligerantes como o Irão (daí a guerra na Síria) – o Império Ocidental, pode de novo tentar reverter em seu beneficio as dinâmicas que até o momento o tem afastado do controlo direto sobre o Sul da América.
A grandeza do Império Ocidental radica em que, sendo um poder claramente talassocrático e não tendo as capacidades de ação militar terrestre dum império telurocrático (como o Russo), tem desenvolvido muito bem a sua capacidade geoestratégica e a sua flexibilidade, através do controlo da ciência e tecnologia, bem aplicadas ao campo da luta estratégica pelo controlo do planeta.
Uma das maiores premissas é reconhecer bem quais são as debilidades dos teus oponentes. Outra é saber com que poderes podes pactuar, que poderes são afins e que poderes são claramente inimigos – e com pouco margem de manobra para negociar. Os inimigos declarados como o Irão ou a Venezuela devem ser derrubados: isolados (impedidos de se expandir-se ou contagiar países limítrofes: exportar o seu modelo…), debilitados e depois finalmente derrubados.
O Brasil conforma um poder com que se pode pactuar, negociar e nesse sentido não é um poder beligerante. No entanto, a própria necessidade do Brasil de criar um poder Independente próprio, baseado no mercantilismo de estado, confronta a longo prazo com a visão Ocidental de poder Privado Mercantil… Assim também a necessidade estratégica do Brasil de liderar a América do Sul, leva-o a estreitar laços de amizade – e mesmo a ajudar a manter no poder, regimes que são claramente beligerantes com o poder Mercantil Ocidental, como é o caso da Venezuela (lembremos que o acontecido nas eleições passadas e o rápido reconhecimento de Nicolas Maduro – candidato chavista, que rapidamente foi reconhecido vencedor pela maioria de governos da região: cujos presidentes foram à tomada de posse deste candidato).
Se tiveres então oportunidade de tentar debilitar o teu futuro concorrente – se bem não inimigo, sim representante dum modelo contrário à tua visão – ou mesmo afastá-lo do poder ou substituí-lo por um governo mais amigo, deves fazê-lo, o estarás a facilitar e acelerar a tua lenta, mas sempre inevitável, perda de poder hegemónico global (lembremos que todo o Império assim como toda a civilização responde à trilogia biológica de: nascimento – crescimento e fortalecimento – para no final chegar à sua inevitável deterioração e morte). Esse poder deve ser mantido o mais fresco e vital possível, mesmo para em caso de queda, ter a capacidade de passar o testemunho a um novo poder o mais afim aos teus interesses, como muito bem fez o poder britânico cedendo o comando ao novo poder norte-americano.
O Brasil, pois, ao nosso modo de ver, cometeu três grandes erros (evidentemente um poder em nascimento tem de errar e aprender com as experiências): Um, partir do princípio de que a aliança, difícil mas sustentável, povo-governo, dava um cheque em branco às políticas tanto internas como externas, a realizar pelo Executivo. Dous, acreditar que a consolidação na América do Sul duma via negociada entre sul-americanos, longe da influência estrangeira, podia ser mantida sem criar uma rede de referência, tanto política como cultural e científica, que mantivesse vivo e espalhasse o novo paradigma.
Três, falta de criação duma mídia global lusófona – que servisse como contrapeso à mídia Nacional em mãos dos poderes aliados ao Mercantilismo Ocidental. Uma mídia de referência no mundo lusófono ao estilo da Russa ou da Venezuelana, mas menos beligerante e mais capaz de criar pontes com o poder Ocidental. Só assim o Brasil poderia ter hipótese de não ver-se nesta difícil e labiríntica nova situação que as manifestações muito bem comandadas desde as redes sociais (redes que ainda que o poder executivo brasileiro tente controlar ou reprimir, não pode evitar a sua difusão), tem hoje empurrado o país.
Goste Dilma Rousseff ou não, a partir de agora é um novo filme. Dos desafios se aprende e com eles se cresce. Resta saber quanto terá de ceder momentaneamente o novo governo brasileiro aos poderes mercantis globais, para poder esfriar a situação, quanto dessa cessão num futuro será recuperável e quanto das novas estratégias necessárias para influenciar e ganhar a partir de agora a cidadania, tem hipótese de sucesso para criar a partir daí uma nova e mais firme aliança povo-Estado.
Do que com certeza ninguém pode duvidar é de que, para o Brasil em particular e para esquerda em geral, estes protestos de hoje são uma grande derrota. A nova esquerda precisa de manter a chama acesa da América do Sul (a Rússia morreu no seu estalinismo, o novo poder representa um estado quase de república czarista, a China vive numa tentativa de criar um poder Imperial regional e mesmo global mediante uma nova estratégia de alianças económicas – a Índia já deu à humanidade grandeza espiritual e material imensa, a África ainda está por fazer…). Assim que só duma nova América do Sul… pode nascer uma nova forma de ser humanos (combinando todas as anteriores experiências da humanidade e misturando todos os saberes tanto culturais como espirituais da mesma, longe do mercantilismo) da qual a humanidade tanto precisa. E lembremos que o Brasil é um micromundo, um grande caldeirão de culturas que contém dentro de si todas as raças e culturas dessa humanidade, que ainda sonha com um harmónico e futuro acordar, que faça possível o sonho de Gandhi: libertar, tanto o oprimido como o opressor, das cadeias que a ambos asfixiam…
