Apostar no incerto (II)

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Por Artur Alonso Novelhe

O Começo dum beco sem saída

Nenhum sistema económico por muito benéfico que seja para o lucro de uns poucos, pode ultrapassar os limites biológicos do nascimento, crescimento e morte. O sistema económico atual, na sua última fase do denominado capitalismo financeiro, esta já atingindo senão a sua morte sim a sua velhice e senilidade.

Este sistema apenas há duas décadas era desencadeante dum impulso sem precedentes, que possibilitou um crescimento nunca antes visto, mas também foi o gerador de várias bolhas, como as do Sudeste Asiático, a bolha das telecomunicações, e por último em setembro de 2008 deu consigo na última grande bolha imobiliária e no colapso financeiro dos hegde funds. Nunca deixaremos de repetir que o mundo desde essa data nunca voltará a ser o mesmo.

Nestes momentos temos um sistema desgastado pela sobreprodução que provoca baixa nos lucros, o que por sua vez provoca que as empresas procurem concentrar-se em torno às suas atividades básicas mais produtivas, construindo oligopólios ao tempo que instauram políticas agressivas sobre despedimentos e salários precários; gerando em todo este processo desemprego e menor consumo.

Para paliar a escassez de consumo os governos apuram o gasto social, aumentando o défice público que por sua vez estimula certos setores económicos que de novo impulsionam a maquinaria financeira, preparando as novas bolhas futuras.

Estamos ante um sistema económico e social que chegou aos limites: nada o pode salvar, poderá atrasar-se a sua queda, mas ela e inevitável. Estamos no limite dos défices governamentais, alguns Estados inclusive se podem encontrar à beira da cessação de pagamentos, outros terão que reduzir os mesmos défices, tirando verbas das coberturas sociais e criando menos proteção ante o desemprego em massa que se está produzindo em todos os países da OCDE. Se piorasse a situação veríamos muitos serviços diminuídos, salários de funcionários reduzidos à mínima expressão, tirados de todo complemento, o que acarretaria grande conflituosidade social. Ante a minoração de salários e aumento de desemprego, o sistema bancário se ressentiria pela falta de cobrança das dívidas contraídas pelos trabalhadores, podendo ocasionar em Ocidente uma fase de colisão do mesmo.

Ante a necessidade de liquidez dos bancos, estes elevaram as taxas de juro, aumentando a instabilidade e as lutas dentro do sistema, tanto de classe como de interesses, criando grande insegurança social.

Mas com todo este panorama que nos cai em cima, as tendências hoje em dia parecem assinalar em simultâneo uma mudança estratégica na deslocação da hegemonia mundial, com o aumento das lutas entre os Estados Unidos da América e a China, a maior presença do Brasil no Cone Sul em aliança com Angola e a África do Sul, o aquecimento dos pontos de fricção no Médio Oriente, e nas fronteiras com a Rússia Europeia e talvez também caucásica, etc.

O problema da divida é um problema Ocidental, do qual a Grécia é apenas uma tela preta com a qual tapar o filme. No caso dos EUA a sua divida é impagável, pelo que os agravamentos na União Europeia virão muito bem ao Tio Sam, pois o medo a comprar divisa europeia, perante a crise, revigora o dólar e dá saída certa aos bónus do tesouro americano, agora que a China rebaixou drasticamente a compra dos mesmos.

Ante a maré revolta os investidores recorrem ao porto norte-americano, não como tábua de salvação mas pelo intuito de ter que procurar algum refúgio.

Setor público altamente endividado, setor privado altamente endividado. Montes de dívida a crescer sobre montes de dívida, com exércitos muito poderosos e uma indústria bélica em crescimento, não auguram nada muito bom a longo prazo. E em curto prazo a resistência como única solução à espera da tormenta, não parece tampouco poder remediar a evidência: próximo derrube dum questionado sistema.

Fica a ilusão duma corrida para as chamadas novas tecnologias verdes, ou mesmo a criação dum futuro empurrão económico nestas áreas, com o desenvolvimento de automóveis elétricos, energias renováveis, biocombustíveis, nanotecnologia, etc. Mas o grande problema é que a base da pirâmide que sustenta o sistema não está em situação de acesso ao consumo, tampouco as novas tecnologias estão a proporcionar a mão-de-obra necessária, mesmo qualificada, para injetar estímulos à precariedade laboral e salarial.

Pelo que neste tempo de transição, mais lento ou menos lento, as elites mundiais vão ter de lidar com reformulações no sistema de domínio internacional muito dolorosas, dando cabimento a novos atores mundiais, à vez que as contradições e choques de interesses crescem de modo exponencial.

Estas elites aguardaram por um derrube controlado do sistema, enquanto sentam as bases dos novos jogos e novos domínios, ao tempo que, pouco a pouco, o poder hegemónico e decisório se vai deslocando, como placas tectónicas que se movem até colidir.