Apostar no incerto (I)

Partilhar

Por Artur Alonso Novelhe

O fim da multiplicação do pão e dos peixes

A sociedade americana é uma sociedade de dívida: alta dívida individual, corporativa e governamental.

A explosão da divida americana possibilitou a alavancagem de grandes fluxos de capital subtraídos também de seu, anteriormente pujante, mercado interno (70% do PIB americano provêem do consumo). Estes fluxos de capital irrigaram a indústria tecnológico-militar e civil, permitindo uma superioridade global aos Estados Unidos que mesmo desequilibrou o estatuto bipolar herdado da II Grande Guerra, atingindo a vitória final na chamada “Guerra Fria”, com o desmoronamento da antiga União Soviética, aprisionada dentro num sistema fortemente burocratizado e centralizado, incapaz de gerar os recursos necessários, para seguir a estela do grande despegue americano da década dos 80 e 90, que impulsionariam uma expansão do poder Imperial por todo o globo, com capacidade de intervenção rápida em todo o planeta.

No entanto este mesmo sistema, denominado na atualidade como “capitalismo financeiro”, altamente instável, volátil e especulativo, era um imenso castelo de naipes, submetido às inclemências do tempo: fortes ventos, sismos e maremotos.

Após a crise de setembro de 2008 – que marcará na historia da humanidade um antes e um depois, muito mais importante que o 11/S – assim como a subseqüente explosão da bolha imobiliária especulativa, esta espécie de multiplicação do pão e dos peixes, que são em realidade as finanças fraudulentas, chega ao seu fim.

O Império Global atingiu o seu limite biológico, a Unipolaridade já não estará presente nesta nova fase de transição, onde por primeira vez desde que os portugueses chegaram a Japão, Ocidente irá perder o controlo do mundo.

A divida das famílias americanas, o triplo dos seus rendimentos, assim como a dívida total americana, uns 350% do seu Produto Interior Bruto (PIB), deverá ser reduzida no futuro pela desalavancagem do seu consumo e défice orçamental, respectivamente, a pesar das políticas da Administração Obama, guiadas pela pressão dos lobbies de Wall Street e o  industrial farmacêutico militar, encaminhadas a mais défice e divida, que precisaram só para este ano um orçamento global de 2 milhões de milhões (trilhões) de dólares, que lhe permitam manter em pé o negócio das guerras, a especulação e o controlo das fontes de energia, além da sua distribuição; a desalavancagem terá lugar, ainda assim, caso não queira, em tempos vindouros, chegar a um colapso econômico de inescrutáveis conseqüências.

Assim que ao estarem os consumidores americanos forçados a poupar, o mercado interno também se contraíra, obrigando o capital global a procurar novos mercados emergentes que substituam, ou paliem em parte, a baixa acelerada da locomotiva consumista americana.

O grande mercado asiático é, sem dúvida, o mais adequado para esta transação, devido ao seu dinamismo, volume e capacidade de gerar novos consumidores (só  a Índia tem criado nas ultimas décadas o equivalente a 300 milhões pessoas somadas a classe média do país); mas Ocidente não se fia muito e teme as reações do fortalecimento de potências como a China ou a Índia.

Brasil pode aqui jogar um papel muito importante, se for corajoso e decidido, ao utilizar suas firmes alianças com Ocidente, nomeadamente os novos laços com França, e as estratégico-culturais com Portugal, para alargar o Mercosul (degradado por problemas de coesão interna, e distintas realidades confluentes, que na sua lenteza compreensível – lembremos Europa chegou a um principio de Unidade só depois de três Grandes Guerras: Napoleônica, I e II Mundial – dificultam a sua consolidação), e apostando por  abrir um novo mercado mais ambicioso e dinâmico no Cone Sul, com a participação da Angola e da África do Sul, as duas outras grandes potências regionais deste hemisfério, que dariam sentido a um mercado crível a nível mundial.

Incluindo no seu devir a ligação através de Moçambique, pelo oceano Índico, com a grande potência indiana. Isto reforçaria a necessidade do Brasil ativar com maior interesse a Comunidade Lusófona nas próximas décadas, tirando beneficio dele todos os membros de dita comunidade.

Os EUA enfraquecem, novos atores entram na cena global, medrarão, crescerão e se fortalecerão.

Novos modelos econômicos guiados pelos novos poderes superarão a “multiplicação do pão e dos peixes”, e o capitalismo das finanças finalmente será superado.

A Euro-região Galiza – Norte Portugal, tem sumo interesse em que esse deslocamento hegemónico não vire para o Pacífico e sim para o sul do Atlântico, dado esta Euro-região ser a ponte natural entre a Lusofonia, as ilhas britânicas, e as auto-estradas marítimas que aportam a França e Holanda.

Enquanto o Império Global diminui, grandes desequilíbrios, mas também novas possibilidades irão surgir, aqueles que saibam colocar-se no caminho correto que marque o novo devir da humanidade tirarão grandes proveitos; e Galiza tem a oportunidade, reafirmando-se na sua própria língua e cultura, de ser um ator, unido ao Norte Português, de grande poder na Europa e no mundo. Haverá que correr riscos, mas como diz o dito popular: sem risco não há petisco.