Por Artur Alonso Novelhe
Se calhar a mim mo parece, e só é um reflexo que eu mal interpreto, mas ultimamente se está a impor um modelo de comunicação e debate baseado na força evidente, não na força da evidência. Autores e executores deste modelo denotam certo tom na voz, uma como forma de escrever tão soberba, com tanta altivez que lhes dá como por imperativo legal o dom da verdade total, da clareza, da segurança de estar sempre no certo. E este é um grande erro. Mas é um modelo que se ajusta muito bem a essa sensação social derivada de uma forma de vida capitalista que fomenta de tal jeito a concorrência, que mesmo chegamos a supor no nosso mais interiorizado ego que só pela força se podem obter os meios para a sobrevivência.
Porém as e os galegos temos, não sei se pelo atraso secular, não sei se por esse atraso e dominação nos manterem dentro de uma cultura muito peculiar emoldurada nos Atlânticos eixos, não sei muito bem, mas as galegas e galegos até agora ficámos, excetuando algum mau imitador “castiço” nos jornais de mais exaltação hispânica centralista, ficámos, digo, com a impressão de que na Galiza quaisquer debates, inclusive os mais polémicos, guardam as formas mais moderadas de respeito ao alheio pensamento. E mais dá como a impressão de todas, todos darmos por certo partir da nossa verdade, mas não de possuir a verdade absoluta, que seria como possuir um pensamento obsoleto.
No entanto , nos últimos anos na Galiza, com a recente urbanização, com a chegada a qualquer local dos insaciáveis meios chamados de comunicação e que mais deveriam chamar-se de in-comunicação social, esse modelo esta a chegar pujante às nossas vidas: o modelo do saber absoluto, quer dizer, do pensamento obsoleto.
Devemos lutar contra esta corrente. Mesmo nas filas mais revolucionárias esse contágio é recente, até mesmo nos sectores que mais admiram formas de luta violenta, esta forma de agir é recente. Supor que o dominado, o machucado, o diminuído nos seus direitos, tem direito ao ódio, tem direito a exercer violência física ou verbal é um grave erro. É o mesmo que supor que o dominado é tão irreflexivo que não se importa em usar os mesmos métodos impositivos que sobre ele foram usados; tão ingénuo para pensar que usando estes métodos ele não se transforma também em essência naquilo que ele combate. Diz que o problema é que não pode haver revolução sem violência, que os possuidores do monopólio da violência nunca renunciam a ela senão é pela força. Sendo assim não há mais remédio do que repetir eternamente o ciclo de explorado libertado, futuro explorador. Para isso é muito importante fixar bem as linhas entre agredido e agressor, entre defesa contra a violência e violência agressiva como desculpa da defesa. Que o modelo pacifista não pode funcionar, às vezes até mesmo sim, às vezes não.
Diz-se que Gandhi realizou a sua revolução pacífica graças ao apoio da burguesia local, mas nem isso é mesmo certo, pois precisamente Gandhi foi morto para evitar que a sua revolução aprofundasse em programas como: o fim da divisão de castas, o modelo feminista alternativo, o modo de vida ecologista: respeito por todos os seres vivos que nos rodeiam… Certo que não tinha muito claro e estabelecido um modelo económico alternativo e mais justo para a Índia, mas nunca o deixaram chegar além. No entanto, uma revolução social pacifica devera dar-se numa nação muito madura socialmente, ou quanto menos madura civicamente.
A Galiza est á a madurar, e durante séculos os seus intelectuais mais ilustres e comprometidos têm mostrado uma atitude muito conforme com estes princípios não violentos do chamado formulário budista dos três R: “respeito pelos demais, respeito por um mesmo e responsabilidade dos teus atos”. De Murgia a Castelao, Carvalho Calero, Guerra da Cal, chegando ao nosso grande humanista Jenaro Marinhas del Valle, têm em maior ou menor medida seguido fielmente esta regra, mesmo não estando na moda dos tempos. E eu acho que a nossa intelectualidade deveria recuperar estas formas tão galegas de ser e estar no mundo. Somos um povo de paz, temos capacidade e tendência a construir a não a destruir, pois somos imaginativos e constantes no trabalho diário.
Neste exemplo está-se a mover nos nossos dias, como brilhante intelectual luzeiro que deve alumiar caminhos, a AGLP (Academia Galega da Língua Portuguesa), no seu oferecimento a toda a sociedade de um diálogo justo e construtivo sobre a língua, sem imposições e aberto. Nesse mesmo exemplo e como bom representante da mesma Instituição Académica se moveu o outro dia numa entrevista passada pela televisão o Prof. Martinho Monteiro Santalha, mostrando ao vivo o comportamento intelectual que qualquer galego bem formado deve manter; continuando com essa tradição de intelectualidade comedida e aberta a sugestões, que com honra nos precede.
Sabe Martinho, como aquele homem formado que é, que partir duma verdade não é ter a verdade absoluta, sabe que por diversos caminhos se pode chegar ao mesmo núcleo, que muitos afluentes tem um rio, que muitos rios desembocam no mesmo mar… Parabéns amigo Martinho, esses são os caminhos a trilhar. E digo mais. Deve ser missão também do reintegracionismo espalhar esta forma de ser como óleo que suavemente se pousa sobre superfície para logo permeá-la. E mais deveria o reintegracionismo adotar no fundo do seu espírito valores não só da dignidade que se lhe supõe como também de honestidade e humildade, sem renúncia aos seus princípios, mas uma flexibilidade que lhe permita ser forte como o elemento água, que dizem os orientais, perfura as rochas e apaga o fogo das mentes mais fechadas e à luz inacessíveis.
Seguindo este caminho talvez Galiza renasça, e se converta num exemplo para o mundo.
Virão épocas duras, mas não insuperáveis.
