CARTAS MEXICAS

A unidade do reintegracionismo



«Uma diferença da grossura dum cabelo e eis aí dividido o céu e a terra…»
(Anónimo)

Todos temos, nalgum momento, reparado nessa linha do horizonte; num dia muito tranquilo, olhando a pé de praia, ali onde o mar se funde com as nuvens baixas… Para alguns, essa linha significa o começo da divisão entre esse mar e as nuvens à sua frente; para outros, simplesmente é o símbolo da sua unidade: inicio da fusão.

Alguns olham e deixam-se embalar. Alguns ainda tentam averiguar qual é essa essência única, que une ou separa —à vontade própria— céu e oceano. Há quem chama essa origem do Incognoscível, outras pessoas preferem mencioná-lo como Deus; alguém nomeia-o de Vacuidade, outras, outros, preferem chamá-lo Campo Unificado. Ainda há quem precise dizer-lhe O Inexistente… Na mesma, sem saber, eles estão a referir-se à mesma natureza virginal: aquela força que tem a capacidade de unificar ou dividir, dentro si própria (dentro da mesma essência).

No entanto, o ser humano não gosta da Unicidade —isso é mesmo bom—. O problema é quando confundimos unicidade com unidade. Este ser dotado de grande inteligência acha que para quebrar essa unicidade —que ele confunde com unidade— tem de elevar a diferenciação ate um conceito divergente.

Essa divergência tem um lado positivo ao criar polaridade e sublinhar os diferentes aspetos de uma mesma questão. Mas também tem um lado negativo ao gerar um contínuo multiplicar de tendências, que constroem uma inércia perpétua de separação, dentro da unidade. E apesar das múltiplas cisões, impossível resulta despegar as diversas visões da primogénita raiz, donde todas surgiram.

O reintegracionismo, durante anos quis transitar dentro dessa polaridade; desse lógico percorrer, necessário para aprendizagem dentro da experiência humana. Reivindicando, no entanto, ambos os caminhos o mesmo berço: idêntica fonte. Porém, nas dinâmicas de guerra impostas nas nossas sociedades —talvez, como afirmava Mircea Eliade, desde a sublimação paleolítica da figura do “caçador”—, a concorrência pela supremacia torna-se uma lógica muito ligada ao principio da sobrevivência, portanto, ao medo. O medo a ficar marginalizado por quem detém o poder temporário. O medo à imposição pela força. O medo a desaparecer.

Por outro lado, a tendência natural humana à identificação e ao apego, complica ainda mais a capacidade de consenso. Ao identificarmos a nossa psique com nosso pensamento —o «penso, logo existo», de Descartes— ficamos emocionalmente atrelados às nossas construções mentais, que sempre são subjetivas. Desapegar-se dessa dinâmica também facilita um trânsito, a prol de um novo modo de olhar muito mais flexível, mais amplo, mais abrangente e mais em concordância com a continuada mudança —que se verifica por toda a rede natural da vida.

Dentro da velha compreensão de apego ao pensamento, ao se verificar uma mudança grupal sentimos um ataque à nossa integridade —se estivermos fora da posição maioritária—, criando uma certa tensão psicológica que vai em aumento — segundo a perceção da ameaça for sentida com maior intensidade.

Curiosamente, o verdadeiro motivo da mudança muitas vezes é proporcionar o material psicológico necessário para a aceitação da nova realidade. Fora da dinâmica de guerra, essa aceitação verifica-se com naturalidade e confiança, permitindo uma confluência das diversas visões e perceções… Ajudando à assimilação por parte de todo grupo, somando a diversas perceções ao todo; evitando cisões e confrontos. Ao retirarmos os condicionantes de medo, podemos observar com claridade o movimento contínuo —interior e exterior— que impele essa mudança.

A unidade, pois cimenta-se na confluência de diversos caminhos e diversas caminhadas, num clima de paz e compreensão mútua; mas aberto à necessidade de mudança.

O pequeno e muito ativo movimento de vanguarda que se tornou o reintegracionismo, tem pela frente importantes desafios de futuro que só serão possíveis realizar com coesão, flexibilidade, integração e unidade —dentro do respeito a diversidade—. Com confiança e sem medo.

No nível geoestratégico, muita pouca gente se tem apercebido da importância futura que o galego português, como língua, vai ter a nível global.

Utopicamente falando, vemos uma alternativa certa a construir no nível planetário. O Império Ocidental, em franca decadência não tem nada que oferecer à nova humanidade —além do grande avanço cientifico-tecnológico de que foi grande impulsor.— A Rússia e a China continuam atreladas também às velhas dinâmicas de guerra e concorrência hegemónica. Ocidente representa o velho esquema de domínio mercantilista dentro das dinâmicas de guerra. China e Rússia, o velho organograma de controlo estatal, receoso da autonomia individual e coletiva. Ambos só podem oferecer confronto e sofrimento; dominação mais subtil ou mais bruta, repressão do saber alternativo e da universalidade do pensamento —que é enfrentada como ameaça—. Uma nova humanidade precisa dum novo centro, nascido dum novo paradigma de paz, que só será possível modificando a visão de luta dentro da polaridade.

Uma nova visão de confraternização e unidade dos contrários, pela analogia, será precisa. Chegado o momento do ser humano ficar saciada da guerra, dor e sofrimento —sempre em contínuo aumento dentro desta tendência.

A humanidade terá que compreender que as correntes que atrelam ao oprimido também atam o opressor. O oprimido sofre imensamente lutando pela libertação momentânea —até se tornar opressor e sofrer o processo contrário; única opção dentro das dinâmicas de guerra, polarizadas—. O opressor desenvolve paranoia e tensão patogénica por medo a perder a sua posse; sofrendo imensamente numa experiência de aparência material abundante. Mas em ambas as dinâmicas se verifica escassez ou material ou de bem-estar psíquico.

Um novo paradigma precisa de um novo centro de irradiação, que não poderá ser nem o Império Ocidental, nem a Rússia ou a China. Acreditamos, pois que a deslocação hegemónica, no tempo, se verificará do Atlântico Norte ao Atlântico Sul… E não podemos esquecer que no hemisfério Sul a língua mais extensa é o galego-português. Galiza, pois, terá um certo papel de relevância nessa transação cultural devido à sua ligação com o mundo lusófono e à América do Sul. No tempo, as mudanças contínuas trarão a mudança linguística no território galego também. O reintegracionismo não pode evitar a perda alarmante de falantes, mas quando se detêm os planos, podem-se voltar a construir as cidades. Devemos também lembrar que o poder da unidade transcende ao da soma das suas partes.

A força do reintegracionismo está precisamente nessa unidade. Para mantê-la, precisamos mudar para um novo paradigma de paz e comunhão… Com aceitação e respeito à diversidade, que é riqueza; mas também com compreensão da fonte comum e da necessidade vital da constante mudança… Trabalhar esse caminho é nosso grande reto.

 

Artur Alonso Novelhe

Artur Alonso Novelhe

Galego, mas nascido no México, é diplomado pela Escola Pericial de Comércio de Ourense. Exerce como funcionário do Serviço Galego de Saúde do Governo da Galiza. Publicou várias obras de poesia e colabora habitualmente com diferentes publicações, entre as quais o PGL. É sócio da Associaçom Galega da Língua (AGAL) desde os meados dos anos 80 e académico da AGLP.
Artur Alonso Novelhe

Latest posts by Artur Alonso Novelhe (see all)


PUBLICIDADE

  • Louredo

    A extensom do português no mundo é um dado irrelevante se nom se convence à sociedade galega de continuar a usar o seu idioma. Muitas EOIs e muitas aulas de português nom necessariamente fam falantes de galego. Os galegos tenhem à sua disposiçom duas línguas muito difundidas inglês e castelhano, fai falta algo mais de números para convencê-los. Fai falta tocar a tecla identitária e do sentimento de amor à terra, à vez do que a comunhom luso-brasileira

    • https://www.facebook.com/antonio.gilhdez.1 António Gil Hdez

      Há dous factos (sic), contraditoriamente duplos, que os galeguistas em geral e os reintegracionistas (que assim se declaram, mas nem sempre são) em regra descuidam:
      1.- A co-existência (nada pacífica) da “lengua nacional del reino bourbónico”, estritamente formalizada, e da “lingua propia de Galicia”, procurada e discutidamente desformalizada ou nunca formalizada.
      2.- O discurso da utilidade e universalidade ligado aos usos da “lengua nacional del reino bourbónico” e os textos, quase sempre definhados, sobre o “galego” “lingua da identidade e do sentimento” reduzido à CAG.

      Que fazerem os galego-reintegracionistas?

      Penso que são claras as vias ou processos a seguirem: formalização unitária e discurso da utilidade; secundariamente o resto… liberdade de eleição léxica e fruição do sentimento, da paisagem e do amor fraterno…

      • Venâncio

        Parem as rotativas! Nunca jamais Gil definiu tão bem, e tão explicitamente, a sua concepção intrinsecamente espanhola do Reintegracionismo galego. Sim, o Espanhol é, e foi sempre, a sua referência, a sua pedra de toque, o seu ideal.

        Não me alongarei. Só lhe peço que venha, um dia, falar em «formalização unitária» a portugueses e brasileiros, e outros utentes, verdadeiramente conhecedores do idioma. Vai ouvir umas belas gargalhadas.

        Em alternativa, pode já tentar responder à singela pergunta:

        Porque é que – bem contrariamente ao que acontece com o Espanhol – todas as traduções para o Brasil e para Portugal (da mais alta literatura até às instruções de máquinas de lavar) são feitas separadamente, por tradutores do país, editadas por editoras própias, e nunca comercializadas do outro lado do oceano?

        • Venâncio

          Seria uma profunda injustiça deixar a sugestão de que A. Gil detém o exclusivo da espanholidade ideológica do Reintegracionismo. Nada é menos verdadeiro. Também os restantes gurus reintegracionistas (com destaque para Cáccamo, Herrero e Fagim) propagam essa mesma concepção unitarista, laboratorial, reaccionária, do nosso idioma.

          • Ernesto V. Souza

            Pois eu diria que esses que cita e especialmente o Gil com o tempo demonstraram, que para o caso galego, levavam muita razão.

            Mas, afinal é irrelevante, porque a realidade ultrapassou todos os discursos e o único que importa já é a prática, os projetos e as obras do reintegracionismo.

            O bom é que isto é bastante uma cooperativa; e entre uns e outros, a cousa vai indo. Não sei se isto é unidade, mas é evidente que temos chegado a um ponto interessante no caminho. Nunca foi mais evidente que o reintegracionismo é um conjunto muito ativo.

            Há quem não leva bem que o resultado do debate na AGAL tenha sido aumentar a concórdia e desdramatizar o debate. A concórdia e a cooperação entre as muitas sensibilidades e perspectivas do reintegracionismo, parece que por fim começa a dar frutos.

          • Venâncio

            Caro Ernesto,
            Eu disse-o noutro fio, há dias, e repito-o aqui: sois um conjunto de simpáticos activistas.

          • Ernesto V. Souza

            Somos sim… e não fazemos dano a ninguém… podia ter-se-nos dado pela filatélia, a colombofilia, a paleontologia ou a geografia deu-se-nos pela língua, temos o nosso clube e nele imos fazendo algumas cousas… pequenos vocabulários, alguns congresso, alguns textos publicados, escolinhas Semente, uma ILP feita depois lei, e debates…

          • http://www.madeiradeuz.org madeiradeuz

            Para ganhar é melhor com simpatia. Sempre 😉

          • Venâncio

            Sim, Gerardo. Mas o conhecimento do idioma também não é de desprezar. 😉

            Repito, repetirei: onde está o gramático reintegracionista? Não o confundas com os pedagogos, decerto necessários no seu terreno. Mas a gestão do idioma pede mais.

          • Ernesto V. Souza

            Caro Fernando, acho que fez um mapa, há anos do reintegracionismo, sem dúvida era interessante e havia nele boas informações. Sempre pensei que como os cartógrafos antigos fizera de ouvido, por causa da gente com quem falava, e também por causa dos absurdos desencontros que teve.

            Acho que esse mapa, digamos que ficou desatualizado com as novas descobertas e com os adiantos do mundo. Mas não se espante, que acho que muita gente – muita e muita bem galega – ainda anda com mapas bem piores ou mais desatualizados. Digo-lho com completa sinceridade e com afeto, convinha-lhe o revisar.

            Apertas

  • Ernesto V. Souza

    Bom texto caro, apertas. Adorei isso: «Uma diferença da grossura dum cabelo e eis aí dividido o céu e a terra…»