Por Artur Alonso
Alarma-me profundamente a confusão da esquerda ocidental. Mas isso tem a ver com que esta esquerda ainda não superou a derrubada do muro de Berlim, ainda continua presa em certo modo aos velhos dualismos próprios da guerra fria, ainda não foi capaz de extirpar de raiz o mal habito da organização estalinista, nem se orienta bem no novo cenário político.
Meu caro Leonard Cohen, já não tomaremos Berlim. Manhattan pode ruir economicamente, Obama vai ter o seu pior pesadelo, de certeza, com a luta social, mas ainda não nos adiantemos. Muitas lutas de classe estão por vir, mas analisemos agora a nova actualidade.
Infelizmente o estalinismo ainda não foi totalmente banido da esquerda, modificar consciências, desinfetar venenos é mais lento do que pensamos. Questão de gerações na maior parte dos casos.
Presa ainda das velhas ressacas a esquerda ocidental não entende muito bem o que está a acontecer tampouco no mundo islâmico.
Sonhavam com uma grande revolta social no Egito, democrática e popular. Houve revolta social pró-democrática, mas dirigida e controlada pelo interesse ocidental, logo desde o primeiro momento. A transação vai ser efetuada pelo estamento militar, verdadeiro poder no Egito por cima do clã Mubarak. Este é o diretor da governança com o qual os americanos estão a negociar desde o princípio das revoltas, ele foi o protagonista no terreno e nas sombras, apesar da sua passividade. Como bem explica James Petras, num recente artigo: “a falta de uma organização política nacional (do movimento de massas, entende-se) permite a personalidades e partidos da “oposição” neoliberal e conservadora substituírem o regime”. Evidentemente isso acontecerá depois das eleições, onde os candidatos amigos do ocidente provavelmente obtenham o poder. No entanto, vamos ver como serão capazes de programar de novo uma política neoliberal, cuja implementação pela ditadura claramente provocou este estalido.
Mas, de momento, o Ocidente não só ganhou a partida, como ainda as suas elites ganharam no jogo grandes maços de dólares, como afirma certamente Michel Chossudovsky: “A pilhagem monetária do país é uma parte integral da agenda econômica”. Não deve esquecer-se que a taxa de juro a longo prazo disparou para 7.2 no início do movimento de protesto. Segundo o próprio Chossudovsky, os investidores internacionais possuíam 1/5 do total do mercado de títulos do Tesouro e perto de 40% do mercado de títulos interno. A isto acresce que grandes quantias de capitais em fuga já foram extraídas pelas principais instituições financeiras e aumentaram enquanto o sistema bancário abriu a partir de cinco de fevereiro, ocasionando um esgotamento das reservas do Banco Central, o que decerto irá aumentar a dívida externa do país e claramente a desvalorização da sua moeda nacional, a libra egícia.
No entanto, no outro cenário terrível, a Líbia, o pensamento da esquerda anticapitalista, torna-se confuso, mudo, desnorteado, sem uma explicação clara e convincente. Alguns analistas tentam sutilmente defender o indefensável, o regime opressor dum Gadafi, que chama de drogados e amigos de Al-Quaeda, aos insurretos.
Infelizmente para esse pensamento de esquerda, o que está o ocorrer na Líbia é indigestível e nunca poderá ser olhado com claridade sem se ultrapassar a visão infantil de um Gadafi anti-imperialista e defensor da justiça social. Gadafi há anos que está abrindo o seu país aos bancos e corporações ocidentais, vejamos senão a pressa de todo o “mundo civilizado” em evacuar os milhares de trabalhadores que têm lá.
Este homem de aspecto ridículo que impôs no poder a corrupção e o despotismo, num país ainda organizado sob tradição tribal, cometeu o cego erro de todos quantos acreditam no terror como arma de paralise social, de situar os membros da sua tribo (os Gadafi), da qual ele tirou o nome, no cimo da maior parte do poder, relegando a uma segundo posição o resto das etnias da nação. Chegou a certos acordos com os outros líderes tribais; que nunca ficaram por ser satisfatórios, dado serem precisamente estes lideres tribais os que estão agora mesmo pondo em causa o poder do homem “inquestionável”. Para maior luz o que aconteceu em Bengasi, onde o todo seguro grande comandante em chefe, enviou o seu fiel exército para reprimir os revoltosos, surpreendido depois quando esse mesmo exército passou para o lado dos supostos “criminosos” simplesmente pela evidência da sua força política, envolvida no pano da lealdade ao clã. Não deve ser por acaso tampouco que a rebelião se iniciasse nesta localidade, a norte dos campos petrolíferos mais ricos do país e perto dos oleodutos, gasodutos e refinarias. Mas apesar de que isto indicia a ação de alguns serviços secretos, tal não pode ocultar a evidência de que a política neoliberal implementada pela Líbia, sobretudo na sequência da invasão do Iraque em 2003 (motivada também pelo medo que o ditador apanhou a um eventual castigo similar) tem causado os mesmos males em todo o Magreb: alta corrupção, alto desemprego, que, combinado com a alça dos preços dos alimentos, provocada maioritariamente pela especulação internacional, fez com que estas populações virassem para uma situação insustentável.
Que o ocidente tente infiltrar a rebelião é lógico, ao ficar a Líbia muito próxima das costas mediterrânicas da União. Que tanto aos EUA como a Europa não surpreenda este caos também é lógico, pois este cenário teve de ser previsto quando a Tunísia e o Egito entraram em colisão; mas no terreno da ação as duvidas são grandes e a mesma Itália está em pânico por causa dum possível “êxodo bíblico”. Tentativas de comandar a rebelião seguramente estão a ser feitas, prova disso poderia ser a substituição, por parte dos revoltosos, da bandeira do ditador pela bandeira do antigo rei Idris, no seu dia grande aliado dos britânicos, ou que a mídia ocidental clame a favor opositores.
Mas que o Ocidente seja capaz de reorganizar um clima político, após Gadafi, não está tão claro, e tanto o novo amigo de Obama, Putin, como algumas outras personalidades, temem uma espécie de iraquização, ao estilo magrebino, onde a chacina que atualmente assola o território remate numa queda brusca do regime, e na formação duma assembléia constituinte, onde cada senhor tribal reclame o seu pedaço de bolo, fazendo uma transição complicada entre Árabes, Berberes, Tuaregues e Tibbus… Além dos perigos do abastecimento energético, que já estão à vista perante a subida do petróleo.
Isto patenteia o pouco que, nos 40 anos que Gadafi leva controlando a Líbia, tem sido feito em matéria de educação, igualdade, ou saúde, afora pequenos enfeites… e menos ainda em matéria de direitos humanos ou liberdades.
É verdade que Gadafi nacionalizou o petróleo e derrubou uma monarquia. Logo agiu contra o Ocidente durante duas décadas, mas a substituição do mesmo não faz parte tanto de um plano orquestrado, mas, antes, está agora condenado à improvisação, e dentro do mundo ocidental muitos duvidam se apoiar uma sucessão caótica que pode derivar numa guerra civil, ou a intervenção direta de “carácter humanitário” para a seguir levar Gadafi perante o Tribunal Penal Internacional e com ele darem um exemplo a futuros desafiadores do poder ocidental; além de tentarem impor um poder momentâneo que vá construindo um cenário mais estável, que não complique tanto os interesses da Europa e dos EUA.
Assim, que apesar de tudo, a dia de hoje na Líbia, os governantes do mundo estão com os deveres por fazer, algo que não lhes aconteceu nem na Tunísia nem no Egito.
