A lenta deslocação

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Por Artur Alonso Novelhe

…”só há um tempo em que é fundamental despertar. Esse tempo é agora”

Gautama BUDA

A revista americana Monthly Review, de inspiração socialista, destacava no seu último número a tendência que, a seu parecer, o Ocidente estará a percorrer a caminho de uma ou duas décadas de estagnação; afirmando cousas como a que segue:

“desde há muito temos destacado a estagnação como uma tendência permanente nas economias capitalistas avançadas, enraizada no aumento da desigualdade do rendimento e da riqueza, monopolização crescente e maturidade industrial. Esta tendência de estagnação com raízes profundas foi parcialmente contrabalançada no passado pelos gastos militares, défices governamentais e, no último quarto de século, por uma mudança estrutural da produção para a finança (caracterizada pelo crescimento explosivo de dívida pública e privada). Tais estimulantes artificiais potenciam o crescimento económico no curto prazo, mas são incapazes de ultrapassar o problema estrutural a longo prazo”.

Reconhecendo talvez que a passagem dum capitalismo industrial e produtivo a um capitalismo financeiro e especulativo tem chegado a seu fim. Sociedades altamente endividadas tanto publica como privadamente, não têm fôlegos para criar nem mercados de consumo nem incentivos para a criação de riqueza. Assim, pois, impõe-se criar um novo modelo para ultrapassar a crise e continuar mantendo o domínio mundial nos aspetos não só militar e tecnológico como também comercial.

Este é o grande desafio do Ocidente, que agora parece apostar toda a sua energia na supremacia das novas tecnologias, à procura de novos mercados emergentes, dado os mercados internos, tanto dos EUA como da União Europeia, já não prestarem para ser os motores do sistema.

O Japão tem a seu favor a proximidade dos grandes mercados do momento: a Ásia. Por um lado está o peso demográfico dos mesmos; como referente lembrar que entre a Indonésia, a China e a Índia, possuem perto de 50% da população mundial, que só a Índia tem incorporado à classe média, nos últimos anos, 300 milhões de cidadãos; por outro lado está o efeito de estas populações não estarem como em Ocidente altamente endividadas, o que facilita o crescimento destes mercados emergentes. Se acrescentarmos que 70% do petróleo mundial passa pelo Oceano Índico, o quadro fica completo.

Hoje em dia fez-se impossível revigorar os mercados europeus ante a pujança dos novos mercados emergentes. Na América do Sul o Brasil destaca com uma força irradiadora que projeta a sua potência por todo o Mercosul, e o novo mercado unificado do Unisul, ainda em formação.

E no caso Africano, o continente negro já não é somente um viveiro de matérias-primas em troca de sangue. Países como Angola, que conseguem ultrapassar o estigma das guerras, têm criado mercados em expansão, que não deixam de ser atraentes, e onde países como a Índia, a China e em menor medida o Brasil, estão a fazer grandes negócios e não só no ramo energético. Como apontamento basta dizer que Luanda, capital de Angola, é na atualidade a cidade com a habitação mais cara do mundo, e possui um crescente mercado de artigos de luxo, com grande procura.

Certo é que estes países ainda terão de abandonar aqueles factos negativos alastrados desde a colonização, como a corrupção, os poucos recursos destinados à saúde, educação… mas o seu percurso à modernidade é firme e inteligente, e mesmo no caso africano tem superado o estigma da anulação, quando nos anos 80 e 90 apenas passava de 1% na geração do PIB mundial.

A evidência mostra, pois, que a deslocação hegemónica pode usufruir dum ritmo mais o menos lento, mas não pode ser travada. Como referencia no nº 48 da revista europeia GEAB, do grupo LEAP:

“Dentro de duas semanas, com o anúncio dos pormenores concretos do vasto plano de redução das despesas públicas, o Reino Unido vai finalmente ter de enfrentar a crise socioeconómica sem precedente que tenta desesperadamente camuflar desde há meses e vai ter de o fazer por si mesma (uma vez que os Estados Unidos não estão em condições de ajudá-lo, e dado que o país se colocou fora do sistema de salvamento financeiro europeu).

E, em três semanas, os Estados Unidos vão simultaneamente expor uma paralisia política sem precedente a seguir às eleições intercalares, enquanto a Reserva Federal dos EUA vai lançar-se numa nova tentativa de salvamento da economia americana monetizando um plano de relançamento que o governo federal já não está em condições de lançar”.

Augúrios muitos escuros para um Ocidente que conserva ainda a sua força militar e o policiamento global da orbe, encarnado nas missões da NATO, mas para mover toda esta maquinaria e alimentar o complexo militar industrial que nos EUA come aproximadamente 70% dos orçamentos governamentais, precisa de continuar a emitir dívida do Estado; e que no resto do mundo se comprem essas dívidas. Além de manter um dólar com capacidade de continuar a ser o protagonista a nível global, algo que começa a estar em causa desde há já algum tempo. Daí as guerras cambiais não serem mais do que um episódio deste jogo pelos domínios.

Pois ainda que neste momento os interesses dos BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China) e de Ocidente não sejam de todo divergentes, cada protagonista tenta levar a sua à melhor, num mundo em mudança, onde a incerteza às vezes produz fendas na estabilidade global.

Daí a importância da próxima cimeira do G-20, que o Brasil e a Índia impulsionaram decididamente e agora estão cansos de tantos intentos vadios, por chegar a construir soluções planetárias, que nunca se concretizam.

Esta será mais uma oportunidade, talvez não a última, mas muito pouco crédito restará se falir esta cimeira. Se não se puser remédio às relações internacionais, logo se instalarão nelas a lei da selva, e o batido: cada um salve-se por si mesmo.

E para poder chegar a acordos globais será preciso o Ocidente compreender que já não pode gerir o mundo unipolarmente, e para ser real o mundo multipolar em que realmente vivemos, os ocidentais teremos de fazer cessões muito dolorosas. Se não o fizermos em breve caminharemos para uma nova ordem internacional onde o encaixe dos emergentes já não será possível. E passaremos da colaboração à franca concorrência.