A inteligência e a razão devem prevalecer

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Por Artur Alonso Novelhe

Umas forças sobressaem, enquanto outras vão perdendo o vigor de antanho. O mundo ocidental acrescentou o seu domínio com a chegada de Portugal a Japão e mesmo chegou a sonhar com um domínio perpétuo, mudado de nação a nação, regulado por ciclos curtos e longos de expansão e contração. Inclusive foi capaz de organizar esse domínio em base a regras seguras que hoje se viram contra ele mesmo, porque ninguém pode evitar o começo da sua decadência.

E agora ocidente decai sem remédio, e nada o pode evitar, porque faz parte da evolução universal e biológica do nascimento, juventude, maturidade e morte. E de novo o ciclo da vida a tornar com o renascer. Daí que à vez que decaímos devemos já ir depositando a semente para o ressurgir nesse ininterrupto ciclo mágico da vida.

E é que Ocidente esgotou o espírito renovador: contemplamo-lo na arte: comercial e repetitiva, na relação social entre indivíduos demasiado mercantil, fria e tendente à satisfação do indivíduo, não do grupo.

De momento Ocidente controla a ciência e a tecnologia. Mas os pólos começam a mudar e também esses recursos serão transferidos. Nada tem Ocidente para renovar o planeta, está ancorado no velho, no sistema ultrapassado, no que já foi; começam os sintomas do seu futuro esgotamento: quando desenhou o novo organograma globalizado deslocando o processo produtivo a países onde era possível abaratar custos, abrindo as economias de qualquer caráter protetor, pensou que controlando a sede financeira e o capital inversor, assim como o monopólio das transnacionais o seu domínio se elevaria ao incontestável.

Anos depois, após uma série de erros e guerras mal calculadas e estrategicamente mal travadas sobre o terreno, esse esquema veio abaixo.

E é que o problema é mais central: é um problema de sistema económico imperial que já não é valido para resolver os novos desafios a que se enfrenta a humanidade. E o pior Ocidente está tão embrenhado em esse sistema ideado por ele mesmo, que não pode mudar o seu rumo. Pode retificar sobre a marcha, mas isso não dá mais que para prolongar o seu declive.

Se Ocidente for inteligente, procurará o modo de ir recativando a própria queda ao tempo que pactua uma nova repartição de poder com as potências emergentes. Europa começa a vislumbrar isso com clareza, e esta inteligência pode levar a uma transição pacífica e lenta dos centros de controlo.

Mas EUA ainda sonha com o domínio global, com um passo atrás para tomar balanço: sonha que a sua superioridade científica, o seu poder tecnológico, vai vislumbrar uma solução que lhe sirva o domínio planetário pela via militar do controlo do espaço, do controlo dos recursos… E pela via organizativa de uma nova acomodação internacional para os novos desafios, tendo-se a si mesmo como núcleo, como sol à volta do qual os demais gravitem, e se fizer falta forçando essa posição de domínio com mais outra aventura bélica.

Esse é o perigo: à vez que a Europa tem a perspectiva de poder elaborar um plano sossegado que lhe permita uma passagem lenta, pacífica e bem organizada, ao mesmo tempo em que se reacomoda o melhor que pode nessa nova realidade que está por vir, os EUA não contemplam este panorama, vivem no espelho deformado da sua superioridade única na história das civilizações, e incluso os sintomas mais alarmantes como a quebra do sistema financeiro global não parecem desanimar o seu propósito.

Estas advertências criam alarme, mas se a quebra não for total, a luz não vai chegar com clareza a umas mentes ofuscadas, e os erros persistirão. Por isso é tão importante renovar esse pensamento, a tendência neoconservadora da administração Bush.

Este tipo de irresponsabilidade das elites ideológicas americanas é o que pode prender uma chama muito perigosa para o mundo. E vai ser muito importante que os futuros dirigentes Americanos tenham a capacidade de entender o seu declínio: permitam à Europa manobrar mais livremente dentro do próprio continente e espaço de influência, como já deixaram ao Brasil manobrar no cone sul da América, permitam à diplomacia Europeia ter o peso que lhe é reconhecido pelo seu poderio económico nos foros relevantes internacionais, e respeitem os acordos a que ela chegar, devolvendo-lhe um papel pujante que hoje lhe é negado. Então, então talvez possamos assistir pela primeira vez na história da humanidade a um revezamento sossegado. Pois os revezamentos são inevitáveis.

Precisa o planeta da nova energia das novas potências: de novos valores, estas à sua vez precisam estudar os erros das velhas para criar o seu novo e futuro sistema de relações e valores. Mas também precisam recolher o melhor da sua achega quanto à democracia, direitos humanos e demais temas em que as novas potências ainda têm um longo caminho a percorrer. Por isso se faz necessário um revezamento compensado que tem que dar os primeiros passos por um abrir a mão de Ocidente nos novos foros internacionais, tornando a colaboração uma arma ativa de trabalho conjunto e transmissão de visões e valores compartilhados. A crise financeira oferece esta possibilidade reformando o sistema global, mas a realizar-se com um acordo amplo entre as velhas e novas potências, que encaminhe outros acordos de repartição global em todos os foros internacionais começando pela própria ONU, que se não se reformular o seu papel ficará obsoleta e sem préstimo.

Aguardemos que prenda nos corações dos dirigentes mundiais a luz da razão e da paz. Possuímos armamento suficiente para destruir com facilidade várias vezes o planeta.