Por Artur Alonso Novelhe
Eles nunca têm o suficiente. E em épocas de escassez eles não olham para o sofrimento dos outros: só pensam neles. Assim é seu exercício sobre aqueles que foram lentamente escravizados.
Nesta época da Austeridade na Europa, a demolição do Estado-nação tão necessária para continuar crescendo a tendência já iniciada há vários séculos – lembremos desde que os navegadores portugueses chegam ao Japão – da expansão da Ordem Mercantil pelo Orbe; chegou o momento de acrescentar um novo capitulo ao teatro, com o princípio do fim da desnecessária Democracia Parlamentar.
Com o desanimo social reinante, as lutas dos desesperados e empobrecidos ou marginalizados neste processo, assim como com a perda de legitimidade do discurso político eleitoral (juntamente com a tomada de consciência de certos setores trabalhistas e populares, de que os confrontos se tem da dar no âmbito Europeu); estamos a entrar no portão do fim também da Democracia Parlamentar.
As decisões tomadas na Torre de Marfim do Parlamento Europeu, ou no Palácio de Gelo de Bruxelas, cujas resoluções económicas são de aplicação em todos os Estados membros, ajudam de maneira clandestina a consolidar este processo. A capacidade do Sector Bancário Franco-Alemão de tomar o controlo fiscal de vários países do Sul da Europa, começando pela Grécia, já tem acelerado o processo de desaparição do Estado Nação… Acomodando as confusas populações a uma realidade futura onde o fim da ilusória vontade popular abre-se caminho com o desengano social do sistema Representativo Parlamentar, outrora panaceia da suposta “Representação Popular” e agora muito às claras representativo dos diversos poderes e interesses vários dentro de cada Estado.
O férreo controlo e a vassalagem exercida desde há décadas pela Ordem Mercantil dentro de cada Estado no Ocidente, agora está mudar por evolução lógica ate um Neo-Feudalismo exercitado a partir do Espaço Regional Europeu, cujo centro emana do Mega poder Corporativo.
Nestas condições a lealdade, a Ordem Mercantil Central Europeia é compensada dentro de cada Estado com postos de trabalho e cargos importantes no Novo Organograma da Austeridade que se está edificar a nível continental. Assim desde os primeiros-ministros até aos secretários Altos, médios e maixos da Administração Estatal estão a ser utilizados para demolir os pequenos alicerces que ainda ficam em pé do anterior Estado providência ou do bem-estar… Sendo entregue ao Setor Mercantil, neste processo, todo o grosso dos Serviços Públicos e Património Social Comum dos Europeus…
Utilizando por sua vez a sua capacidade de criar “dinheiro do nada” tanto a Banca Americana como o Banco Central Europeu – que desde dezembro passado até os hoje têm injetado um trilião de Euros ao sistema Bancário Europeu – marca uma pauta de domínio a nível global, do qual até agora só parece escapar a China.
Enquanto situa os empréstimos na Europa a uma taxa de juros de 1%, os banqueiros europeus podem recolher grandes somas de dinheiro e encaminhá-las a países onde as taxas de juros ultrapassem quantitativamente esses juros, com riscos muito baixos, e sem investimento real no tecido produtivo; ou então, seguindo a mesma lógica especuladora, investirem no Tesouro Estatal aproveitando a mesma dinâmica. Do mesmo jeito, também se está a mover o capital especulativo nipónico, onde as taxas de juro são ainda mais ridículas rondando o 0.1%…
Esta ilusão dos senhores de acharem que se calhar vai ser possível manter esta dinâmica até se ultrapassar a crise, está baseada não no senso comum ou em estudos rigorosos, mas sim no imediato “salve-se quem puder” tão lógico dos ciclos de desespero, dado os graves problemas de liquidez com que se encontram os amos do mundo desde o início da crise em 2007 e sua grande explosão em setembro de 2008.
Mas os senhores nos seus castelos de marfim ignoram quanto sofrimento estão a infligir às classes trabalhistas e mesmo teimam em que já não existe esse conceito de classe operária e que por isso não têm nada a temer dos novos protestos, tais como os movimentos de indignados, estudantes, pessoas que perdem empregos e lares, etc… por que eles já deixaram de ser atores da historia.
Porém, como bem aponta o geógrafo britânico David Harvey é necessário “redefinir quem é a classe trabalhadora e, para mim, é aquela que produz vida urbana”. Fazendo uma comparação significativa com a luta urbana desenvolvida na Comuna de Paris de 1871, ele afirma que desde os protestos de Seattle, passando pelos de Mar de Plata até aos últimos acontecimentos como o de Ocupa Wall Street, somados à criação de regiões suburbanas – devido à dinâmica do capital de empregar seus excedentes maioritariamente no ramo imobiliário – levou à criação duma nova classe trabalhadora que precisa pela sua essência de ser redefinida.
Além disso, no quadro atual, onde desde a implosão no pulmão do sistema financeiro internacional da bolha hipotecaria, misturado com a aplicação quase maliciosa de políticas neo-liberais que já demonstraram o seu fracasso em décadas anteriores, pela simples equação de salvaguardar os interesses dos grandes gigantes financeiros e as grandes transnacionais, a nova realidade Ocidental está a levar muita gente a situações de desesperação onde a única opção possível é a luta contra a espoliação de todos os recursos em favor dos monstros Corporativos.
Descridos da Democracia Parlamentar o peso das ações pode levar mais a frente um modelo Neo-Feudal de maior domínio dos Grandes Senhores, mas em simultâneo também um novo quadro propício ao protesto e a união popular.
Pouco a pouco as sociedades estão sendo cientes deste desafio, mas ainda lhes falta situarem com claridade por um lado o rival com quem tem de lutar, por outro lado, a forma de se organizar, o quadro onde deve ser travada essa luta e o formato sob o o que se deve estruturar um organograma plural, não excludente, que eleve a voz de todos, ao mesmo tempo que elabora um quadro de prioridades.
Por outra parte, os donos do capital, estão tranquilos, pois eles têm a ilusão de que nunca, sectores com realidades tão diversas, sem capacidade de adequação as novos tempos, sem apenas experiência, divididos, adormecidos em velhos debates, com tanta facilidade para serem infiltrados, comprados… podem representar para um perigo eles…
No entanto, o que os Senhores ignoram na sua ilusão desesperada é que os seres vivos também sabem procurar soluções quando o desastre se avizinha… Do mesmo jeito que ignoram que a depositária da Soberania é a Mãe Terra, que ela cede essa soberania a seus filhos em troca dum bom uso e gestão da mesma, os soberbos senhores sonham com a nossa imobilidade permanente…
Se nós seu filhos não somos agora capazes de mudar o rumo desta desfeita, ela a Mãe Terra não vai aguentar muito mais nossas ofensas, apesar da vã ilusão dos novos senhores que acreditam loucamente que são os novos Deuses.
