“Plus ça change, plus c’est la Mme chose – mais se muda, mais é a mesma coisa”
(ditado popular francês)
Quando as circunstâncias nos sobrepassam enfraquecemos, quando nos adequamos bem às circunstâncias fortalecemos. Tanto no nível coletivo como individual, experimentamos esta evolução, segundo os condicionantes do momento. Nos tornamos positivos com respeito a situações que podemos ultrapassar ou controlar, tornando-nos negativos quando as situações nos são adversas. Ditas situações tornam-se mesmo angustiosas quando nos desbordam. Todo fluxo de energia grupal descende em espiral, circulando de cima para baixo, desde o topo ate à base e, volta para cima revigorada quando as sociedades sendo ativas e participativas, estão em pleno período de expansão e vitalidade. Pela contra, quando uma sociedade começa perceber excesso de inquietude, resulta normalmente que no topo as circunstâncias começaram já a detonar o alarme e na base da pirâmide o ar chega já demasiado contaminado, para poder revigorar o másculo coletivo. Este é o momento preciso para a mudança: aferrar-se então ao poder ou reproduzir velhos tratamentos já ultrapassados pelo tempo, o momento e as circunstancias, resultaram não somente inadequados, senão altamente involutivos e desequilibrantes. No curto prazo estamos a preparar uma crise futura (encoberta já por roupagens gastos e farrapos, que começam a cair ao chão tombando com eles, aos poucos, o edifício que mantinha o poder e a mesma arquitetura social, que esse poder delineara). No longo prazo, ao longo de breves percursos, começam a combinar-se pequenas crises, que têm por nexo uma crise central, dum poder que já se torna insustentável, decadente.
A União Europeia, parece que chegou a esse final de ciclo, no qual de não haver pronta mudança, o risco de involução, desequilibro e queda, pode tonar-se num futuro, talvez mais curto do desejável, numa sequencia real de enervado retrocesso. A ideia mesma da Europa, tornou-se por circunstâncias próprias e alheias inviável. Europa deixou de estar no pilar central da harmonia. Agora avança dando tombos dum extremo à outro, em evidente desequilíbrio. Na altura que teve centralidade e viabilidade, o Estado Providência ou Estado do Bem Estar, estava em pleno rendimento, numa época em que os dous extremos da balança, caminhavam em “guerra fria” e desafio hegemónico permanente, por trás das luzes e câmaras. Mas aquela posição de equilíbrio e centralidade era na realidade uma “miragem” geoestratégica, enquanto o capital (impulsionado pelo poder americano) e o trabalho (impelido pelo poder soviético) estavam com energias em alça, a Europa optou pelo Estado como intermediário entre ambas as forças em pugna pelo controlo ideológico, cultural e político da sociedade. Mas enquanto os EUA venceram a União Soviética a finais da década de 80 do século passado, o modelo neoliberal e o poder das finanças submeteu a economia real de mercado; virando tudo do avesso. A força desenvolvida pelo pilar financeiro, aos poucos forçou a unilateralmente o edifício económico ocidental, que no ano 2007/2008, quebrou a estrutura interna do mesmo, ao fundir-se o pulmão desta atividade, na mesma bolsa central de Wall Street.
A maiores Europa cometeu graves erros geopolíticos: começando pelo entusiasta apoio a guerra da Líbia, que criou um imenso “buraco escuro” de delinquência e mercados escravagistas, aos pés do próprio continente, simplesmente para intimidar pela força da supremacia militar a outros adversários que tentassem sair do circuito sagrado do petrodólar, ou criar aventuras de união africana baixo o poder duma moeda única em concorrência com a moeda global de reserva. A China está a fazer agora isso, mas a China sabe ser mais prudente e comandar melhor os ciclos: isso tem a ver mais com o taoismo que com o confucionismo (por muito que este seja a coluna filosófica de referencia estatal). O velho continente caminhou da mão dum jihadismo instável e difícil de controlar, para derrubar também o presidente Al-Assad, na Síria, gastando enormes recursos e ficando a ver, uma mudança drástica de cenário pela Rússia, que marcava assim uma virada nos seus limites de consentimento (aqueles que a NATO estava acostumada desde a guerra da Jugoslávia). Finalmente o poder europeu permitiu e encorajou a abertura da vala de contenção da migração na Turquia, deixando às máfias wabahíes o controle daquele transito, já orbitando em torno do anel cultural jihadista e, o pior bebendo das suas fontes supremacistas e intolerantes (que impossibilitam, na pratica, o encaixe desta versão islamista dentro do Continente, criando cisão entre a povoação residente e muitos dos acolhidos). Jogar em favor da queda do regime autoritário de Putin na Rússia, para abrir às portas a Washington, do controlo geopolítico da China, foi outro grave erro; ao levar adiante uma agressiva política de sanções que na prática reverteu contra os interesses da mesma União e, a maiores tem fortificado a aliança russo – chinesa. Aumentando a efetividade de seus interesses no nível global, de modo a China sentir-se muito mais segura para desenvolver o seu plano económico dominante, que está prestes a retirar o poder Ocidental do 2 tabuleiro (o económico) e a Rússia, a fortalecer-se como ator indiscutível global no 1º tabuleiro (o militar). Não parece esta estrategema ter resultado de muita efetividade.
Mas um grande problema de falta de autocrítica e arrogância, vem inflamando a Europa desde a queda da URSS, e o sonho louco dum mundo Unilateral, que em princípio a Franca de Chirac e a Alemanha de Schröder rejeitaram, mesmo zangando Bush filho, ao não participar da guerra suicida do Iraque.
A Cábala nos ensina que: “a solução do problema do Mal e sua erradicação do mundo não serão obtidas por meio de sua supressão, cortando-o ou extirpando-o, mas por meio de sua compensação e conseqüente absorção na Esfera de onde ele proveio, isto é, pela sublimação”. A esfera onde proveio o mal do wabahismo é a esfera material – física e psicológica ideada pelas mentes intolerantes, de muitos dirigentes políticos e religiosos da Península Arábica, herdeiros duma tradição não compatível com a evolução atual mundo. Essa cosmovisão arcaica e tribal deve ser renovada no mundo árabe, aceitando a divisão e independência dos três poderes: legislativo, executivo e judicial. A influência do Ocidente é vital para essa mudança. Mas uma pressão excessiva inclinaria as alianças na região em favor da China e a Rússia, pelo que se antepõe um acomodo dinâmico, saudável e eficiente, mas não turbulento.
Se o discurso do Presidente Trump, em Riad, tem ajudado a cambiar estas tendências, no caminho da mudança lenta, mas decidida, e provocado a rápida intervenção do príncipe Mohammad Bin Salman, decretando prissão de grande parte da aristocracia saudita por causas alegadas de corrupção, somente o tempo pode mostrar-nos (se é que ao tempo lhe dermos permissão numa zona tão quente e trepidante como a do Meio Oriente). Mas podemos afirmar que a imobilidade da anterior administração Obama, foi o pior dos aliados ao encorajar em aras da criação daquele “Meio Oriente alargado”, a explosão fanática duma guerra jihadista lesiva para toda a humanidade; enquanto a Europa observava a seus pés aquele dramático filme, sem pressionar para mudar o guião. O discurso do Cairo de Obama em 2009, que abriu a porta para as revoluções da primavera árabe, resultou num verbo verdadeiramente poético e esperançado, mas nefasto na sua conjugação.
Certamente podemos entender que Ocidente viu-se advogado a apoiar a Fraternidade muçulmana desde inícios da guerra fria, pela simples razão de que os partidos laicos que pretendiam modernizar o mundo árabe, eram aliados da União Soviética; no entanto não é menos certo que a velha Inglaterra tinha decepcionando os velhos líderes árabes, que lutaram contra o Império Otomano, deixando-os dum lado e provocando uma desconfiança, que pouco ajudou depois a estabelecer posteriores alianças. A maiores o direito dos líderes laicos árabes a modernizar e criar prosperidade na sua região, chocava (naquela altura) com os interesses de domínio ocidental norte-americano.
O Meio Oriente sempre esteve demasiado perto da Rússia, como para ficar independente. Ocidente não podia permitir-se uma abordagem mais aberta sobre esse assunto, como também não permitiu a finais da II Guerra Mundial, uma Alemanha não-alinhada na NATO, muito mais perto todavia da União Soviética, no marco iminente duma guerra fria, a pesar de Moscovo na altura ter aceitado a unidade da Alemanha baixo aquela condição (unidade que como sabemos agora nunca chegou a produzir-se, e teve de aguardar a queda do muro de Berlim, construído em 1961, já sem necessidade do beneplácito soviético e com o todo o país plenamente integrado na NATO).
Europa terá de revisar a fundo toda sua concepção geoestratégica, mas a advertência do governo Iraniano ao presidente francês Emmanuel Macron, é uma triste lembrança da perda de capacidade global da União, assim como do seu peso real em esta nova conjuntura geopolítica. Europa de novo deve dar um novo sentido aquela famosa frase de Virginia Burden: “A cooperação é a convicção plena de que ninguém pode chegar à meta se não chegarem todos” Voltar de novo, mesmo sendo parte integral do Império Ocidental, a ser ponte entre Oriente e Ocidente (algo que sua mesma natureza e posição geográfica reclama). Sabendo encontrar um eixo de cooperação global entre os BRICS e Ocidente. Caminho difícil, mas qual caminho não é? A outra hipótese, leva a um confronto muito perigoso com a Rússia, o Irão ou a China… Estas pulsões geopolíticas que podem aumentar as feridas interiores e fendas cada vez mais amplas, que mesmo podem por em causa a própria idoneidade da União; pois tanto a Rússia como China, tem hoje capacidade também de influenciar a política doméstica Ocidental (algo que o Ocidente não estava habituado, acreditando ele ser o único com capacidade real para exercer esse privilegio). Um cenário novo ao que Europa vai ter que acostumar-se e tirar o melhor partido, sem cair em visões ideológicas faltas de pragmatismo. Isto leva revisar profusamente muitas das suas politicas internas e exteriores.
Poda que já nunca tenhamos força para sonhar com aquela Europa nascida para ser o guia da evolução da humanidade: a luz irradiando desde o Renascimento ao Iluminismo, na direção da razão, o amor e a liberdade. Aquela Europa que começamos a perder, trás a involução napoleónica e dos princípios da revolução francesa; aquela que sonhamos recuperar depois da guerra fria e achamos iria transformar-se, em parte graças as achegas cientifico filosóficas do grupo “Éramos” num marco de igualdade… Mas que morreu da mão da senhora Thatcher a inícios da década de 80 e, finalmente com a criação do Banco Central Europeu, em 1998 ao entregar nossa moeda, e dizer nossa riqueza, a um grupo de banqueiros internacionais privados (tal como em 1913 fizeram, para sua desgraça, os Estados Unidos da América, aquela grande nação que almejou elevar o cidadão a um patamar democrático de justiça e poder, como jamais se tinha visto no Orbe).
Aquela Europa não teve fortuna de nascer, enraizar, ficar connosco. No entanto ainda pode fazer um grande serviço à humanidade, se rumar acertadamente (em estes tempos de transação). De novo utilizar o preciso fôlego, que ainda lhe resta, para reconstruir um novo marco de cooperação, onde seu eixo tenha um plano para encaixar na engrenagem certa de fusão entre o verdadeiro Oriente e o Ocidente: aquele que dá coes coesão a ambos os valores. Não aquela insana política que da aços aos extremismos intolerantes, que logo virão, por proximidade geográfica, contaminar suas próprias sociedades, abrindo as janelas do confronto. Mas para criar essas novas dinâmicas, deve deixar de esconder os verdadeiros problemas que hoje em dia já são um reto interno para União. Abrindo espaços de dialogo permanente entre os diversos atores, que conformam nossas complexas sociedades, procurando atingir uma verdadeira solução e não aguardando passivamente a que situação transborde.
A burocracia europeia está a optar pela inação. Mas de não fazer nada, a quebra será inevitável e tão só questão de tempo saber, quando vai produzir-se, dado que aquilo que tenta lutar contra sua mesma natureza, remata sendo absorvido, queimado ou reciclado por esta… Lembremos que já Schopenhauer, nos advertia: “O perfeito homem do mundo seria aquele que jamais hesitasse por indecisão e nunca agisse por precipitação”.
Pela contra a Europa burocrática de hoje, ao serviço dos interesses financeiros e não dos cidadãos, assemelha indecisa e precipitada. Temos de mudar. Temos de ser também os cidadãos serem mais ativos, informar-nos melhor (fugindo se for preciso dos Grandes Meios de Comunicação, intoxicados pelo poder os sustenta), formar-nos mais (recuperando essa verdadeira tradição humanista europeia); para assim ajudar mesmo desde a base, forçar nossa amada Europa, à uma amorosa, aberta, mais também firme e severa, quando for preciso, mudança. Lembremos que no existe equilibro se compaixão e rigorosidade não estar harmonizadas… E agora mesmo o Velho Continente precisa desta fortaleza. Tal como afirma Martin Schuurmans Presidente do Instituto Europeu da Inovação e Tecnologia: “Mais do que nunca, a Europa precisa de Excelência e Inovação. Precisamos, nada mais, nada menos, do que uma mudança nas mentalidades.Vezes demais, as novas ideias são inibidas por estruturas rígidas. Vezes demais, o fluxo dos conhecimentos é bloqueado pelos limites impostos pelos diferentes sectores e disciplinas.”
