No outro dia fum um dos muitos galegos que acompanhou a estreia da série Fariña na televisom. Sinceramente, gostei, achei-a com ritmo e fijo que fosse tarde para a cama, o que cos meus horários de acordar cedo já é bem significativo.
No dia seguinte, surpreendeu-me que muitas persoas, em conversas diferentes, tinham tamém visto o capítulo da série e comentavamos de todo um pouco, alguns estereótipos precisos para ligar os espectadores; as referências políticas, que nestes tempos de coacçons à liberdade nom se podem deixar de louvar; ou como o sequestro do livro tinha potenciado a série; até alguns dos meus familiares, criados nessa ria, no mesmo mundo do mar e sabedores do valor do silêncio, tinham reparado como nos antigos barcos de compra se introduzia o contrabando e o estraperlo, pois as transacçons das capturas do peixe eram feitas no alto mar sem passar pola poja em terra, o que facilitava a introduçom de mercadorias vindas desde Portugal.
Mais chocado fiquei coas críticas, ainda que tamém houvo louvanças, à maneira de falar dos actores e actrizes. Poderia-se chegar à conclusom que, já que a série nom foi gravada em galego, as personagens poderiam falar à vontade e que o acento galego quando se fala espanhol é característico e nada deveria ter de polémico. Para além de que é bem conhecido como polícias e tradutores galegos se especializaram nas comissarias e julgados espanhóis no decifrado das conversas interceptadas: “vai-che com farinha”, “meto-che as fanecas”, “levas boa xarda”…
Eis como no processo de desgaleguizaçom da sociedade galega tamém o sotaque galego dos falantes de espanhol, ou quando se fala espanhol, deve ser apagado, corrigido, melhorado, porque continua a ser feio, marcado, diferente…. galego.
Que nom se preocupem os alporizados polemistas contra “el acento gallego”, ao mesmo tempo que se apaga a nossa língua, tamém se desvanece o nosso jeito de falar outras línguas, e se alguém reparasse em muitas das conversas mantidas polas ruas das nossas cidades e vilas, seria-lhe bem difícil atopar quem fale galego e poderia comprovar como melhora a pronúncia espanhola dos galegos: “sanpasaoconelacentoosea”.
E sobre a série, para mim o impressionante é comprovar os magníficos actores e actrizes que hai na Galiza, forjados num território onde sempre fôrom vistos como suspeitosos contrabandistas de ideias, mais isso já é farinha doutro saco.
