Uma questão de método



“Do poder supremo de Deus, ou da natureza infinita, um número infinito de cousas, ou seja, todas as cousas surgiram necessariamente num número infinito de formas, ou fluem sempre da mesma necessidade; tal como da natureza de um triângulo, decorre da eternidade e para a eternidade, que os seus três ângulos interiores são iguais a dous ângulos rectos.,Ética, Parte 1, XVII

“A maioria dos escritores sobre emoções e comportamentos humanos parece tratar de assuntos alheios à natureza em vez de fenómenos naturais que seguem as leis gerais da natureza. Eles parecem conceber que o homem está situado na natureza como um reino dentro de um reino: porque acreditam que ele perturba em vez de seguir a ordem da natureza, que ele tem controlo absoluto sobre as suas ações, e que é determinado unicamente por ele próprio. No entanto, o meu argumento é o seguinte. Nada acontece na natureza, que possa ser atribuído a um defeito nela; pois a natureza é sempre a mesma, e em todo o lado uma e a mesma na sua eficácia e poder de ação; ou seja, as leis e decretos da natureza, pelos quais todas as cousas acontecem e mudam de uma forma para outra, estão em todo o lado e são sempre os mesmos;”. Ética, Parte 3

“Sem inteligência não há vida racional: e as cousas só são boas, na medida em que ajudam o homem a desfrutar da vida intelectual, que é definida pela inteligência. Pelo contrário, qualquer cousa que impeça o homem de aperfeiçoar a sua razão, e a sua capacidade de desfrutar de uma vida racional, é apenas chamada de maldade”. – , Ética , Parte IV, Apêndice V

(Baruch Spinoza, 1632-1677)

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Girih-Nó persa

Antes de começar a desenvolver una série de artigos sobre o Eneagrama, um instrumento de aproximação psicológica e filosófica mal compreendido e abusado por um excesso de uso superficial que o tira fora do seu âmbito de auto-conhecimento espiritual vou introduzir uma questão de base. Trata-se do método.  A relação entre a questão do método na raiz das instituições e formas culturais a que a cultura ocidental deu origem é muito importante porque está na base dos mal-entendidos do ensino e do próprio sentido de civilização. Ao conceber o “conhecimento” e, em particular, o “conhecimento científico” como um tema de “objetos” e “fenómenos”, a ênfase foi colocada precisamente no que é, na melhor das hipóteses, apenas metade do conhecimento, na pior das hipóteses, simplesmente um extravio. Mas não só tem sido considerado “conhecimento por excelência”, como também tem demonstrado ser imperialista na sua tentativa de invadir áreas em que esta metodologia é totalmente inadequada, destruindo e degradando a relação com a realidade e com o ser humano ao concebê-la como um objeto, apenas mais um fenómeno entre outros. As pretensões de cientificidade das ciências humanas sob esta ideia extraída das ciências naturais tem sido uma luita e uma operação profundamente ideológica de carácter fundamentalmente colonial. Esta atitude e metodologia permeia todas as instituições atuais e impede-nos de ver as cousas e a realidade tal como elas são. Mas qual é o outro lado da moeda que poderia completar uma perspetiva de valor para equilibrar as cousas? Simplesmente algo que está contido num livro de um grande estudioso da ciência e da razão humana, Immanuel Kant. Na “Metafísica dos Costumes” (que é propriamente uma metafísica da moralidade) Kant escreve:

“O primeiro mandato de todos os deveres para consigo mesmo

Este mandato é: conhece-te a ti mesmo (examina-te, sonda-te), não de acordo com a tua perfeição física (de acordo com a aptidão ou inépcia para todos os fins, arbitrários ou também mandados), mas de acordo com a perfeição moral, em relação ao teu dever, – examinar se o teu coração é bom ou mau, se a fonte das suas ações é pura ou impura e o que pode ser atribuído ao próprio homem, quer como pertencendo originalmente à sua substância ou como derivado (adquirido ou adotado), e que pode pertencer à condição moral.

O auto-conhecimento moral, que requer penetrar até às profundezas do coração mais difíceis de sondar (o abismo), é o princípio de toda a sabedoria humana. Porque esta última, que consiste no acordo da vontade de um ser com o objetivo último, exige que o homem primeiro remova os obstáculos internos (de uma vontade má que se aninha nele) e depois desenvolva nele a disposição inalienável original de uma boa vontade (só descendo para os infernos do autoconhecimento abre o caminho para a deificação)”

A razão prática (ética) é, portanto, o pilar fundamental do método, é o próprio núcleo que orienta o nosso dever para o conhecimento. O Alcorão declara o dever de cada muçulmano de procurar o conhecimento até ao fim dos seus dias. Isto deve ser assim porque as decisões que enquadram o que deve ou não ser conhecido, a capacidade de objetividade e equilíbrio no raciocínio, ou probidade na utilização dos procedimentos desenvolvidos nos organismos do mais estrito conhecimento, não podem ser totalmente completadas sem a base de um desenvolvimento ético que permita um conhecimento das razões e intenções dos nossos desejos, atitudes e inclinações, que nunca se atreverá a ser chamado de “mau” sem uma observação atenta de si próprio. Kant fala do “inferno do auto-conhecimento” antes de abrir o caminho para a deificação. Não surpreendentemente, é  bem difícil enfrentar o próprio ego numa fase inicial.

Kant fala do “inferno do auto-conhecimento” antes de abrir o caminho para a deificação. Não surpreendentemente, é  bem difícil enfrentar o próprio ego numa fase inicial.

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eneagrama

Kant estabelece a base teórica de algo que não se desenvolveu como a principal razão para a atividade metodológica na cultura moderna, algo que tinha acontecido na antiguidade. Não é surpreendente que a palavra “alienação” tenha desempenhado um papel de liderança no vocabulário descritivo do homem moderno nos séculos XIX e XX. Literalmente “alheio de si mesmo”
É importante então compreender que não foi o Ocidente que estudou o Oriente. Isto é simplesmente uma ilusão. Foi o Oriente que estudou o Ocidente. Foram precisamente aqueles que seguiram a antiga tradição da “verdadeira ciência”, verdadeira ciência no sentido referido por Platão, os antigos presocráticos, árabes, persas, hindus, ou tibetanos, que se prepararam e estudaram o mundo ocidental, fornecendo tudo o que era necessário para continuar o seu trabalho onde fosse necessário. Em geral “orientais” ou não “ocidentais”, mas também ocidentais que aprenderam com eles. É muito simples, o Ocidente não tem a ciência certa porque não seguiu o método certo. Dispensou os alicerces e obtivo um castelo de cartas. E é assim que as cousas estão para a sua própria perspetiva: à beira de um colapso nervoso.

No século XII, Al Ghazali dixo na sua “Alquimia da Felicidade”:

“O primeiro passo para o auto-conhecimento é compreender que é composto por uma forma exterior chamada corpo e uma entidade interior chamada coração ou alma. Por “coração” não me estou a referir ao pedaço de carne mas aquilo que utiliza o resto das nossas faculdades como instrumentos e servidores. Na realidade, ele não pertence ao mundo visível, mas ao invisível, e veio a este mundo tal como um viajante visita um país estrangeiro: para comerciar e regressar imediatamente ao seu país de origem. O conhecimento desta entidade e dos seus atributos é precisamente a chave para o conhecimento de Deus”.

A base do método começa no próprio sujeito e é o auto-conhecimento. Mas não é um conhecimento baseado em factos que alcançamos por julgamento, transformando o nosso eu num objecto de investigação petrificado, produzindo uma identidade falsa. Embora muitas psicologias o entendam dessa forma. É uma realização do próprio ser imediato à consciência: é ver e perceber, observar onde nos recusamos a ver. Manter a visão. Daí que a palavra grega “ideia” signifique “o que se vê” e a palavra “teoria” signifique “contemplação ou visão”. Não é uma questão de pensar, mas de ver. Aqui surge, portanto, o problema da hierarquia metodológica. A hierarquia provém de um mandato ético inerente à identidade última do ser humano que coloca o princípio da ética acima do da lógica. A lógica vem mais tarde. O acto divino em si, a actualização dos mundos é  um (كن فيكون , kun fa-yakūnu) “Seja”. É um comando. A ética em Kant vem de um consentimento da nossa consciência a um Imperativo que brota da fonte do coração. Isto parece paradoxal quando visto de uma perspetiva que apenas olha para “os factos”. O amor e o dever juntam-se no abismo do coração. A palavra “abismo” em alemão é Abgrund. “Grund” pode significar “fundo, razão, motivo, causa, terreno, fundamento, base, etc.”, para que as nuances de Abgrund estejam ligadas a esta raiz e não se trate apenas de uma metáfora. A linguagem e o pensamento têm uma “lógica” e uma “ressonância” que impregnam o pensamento de uma forma conotativa, reticular, indicando a origem.

Mas voltemos à hierarquia: a hierarquia marca a ordem de precedência que tem uma dimensão axiomática (de Axios: valor, dignidade). Hierarquicamente, a racionalidade e a ciência dependem do “princípio”. O princípio, ou seja, o rei ou o príncipe do pensamento, está ligado a uma palavra como um compromisso que emana da origem, do abismo do coração:

“Eu era um tesouro escondido que queria ser conhecido, por isso criei as criaturas e dei-me a conhecer a eles, para que Me conhecessem”. (Hadith qudsi)

O comando não é algo opcional, pois não é opcional para 2+2 ser 4. Obedecer a este princípio com toda a consciência é, contudo, o que faz a diferença entre um conhecimento e outro, entre alguns seres e outros. Restaurar os princípios do conhecimento significa actualizá-los na realidade viva do ser e é por isso que o “conhecimento oriental” permanece intacto e ativo enquanto que o “conhecimento ocidental” é uma sombra insubstancial da Realidade (da verdadeira realeza e esplendor da Realidade). É como o conhecimento de um falso príncipe ou de um falso princípio, o que, aliás, é o mesmo.

Certamente, obedecer vem do latim vulgar “oboedescere” que é uma conjunção entre as palavras ob audire e o elemento -scere e tudo isto significa “saber ouvir”. Portanto, obedecer, no sentido em que temos vindo a falar aqui, seria algo como saber ouvir as profundezas do nosso coração.

“Aquele que se conhece a si mesmo, conhece o seu Senhor” (Hadith)

Um antigo aforismo da gnose grega dizia:

“Aquele que se conhece a si mesmo, conhece o universo e os deuses”.

ou o aforismo de Heráclito:

“Os limites da alma, caminhando, não os encontrarias mesmo que fosses até ao fim, tão profundo é o seu logos”.

Voltemos então ao método. Método, significa em grego, “a caminho de” e é equivalente à expressão árabe Taçawwuf (o modo ou maneira de fazer algo, o caminho para alcançar algo) que é a denominação própria do sufismo.

Sim, é uma questão de método. E um método errado só pode conduzir a resultados errados.

José António Lozano Garcia

José António Lozano Garcia

Nasceu na cidade da Corunha em 1967. É professor de Filosofia no ensino secundário. Foi finalista em 1988 do Prémio de poesia Nacional O Facho. Em 1989 publicou no livro coletivo Fogo Cruzado (AGAL) o relato O pêndulo sob o pseudónimo Jorge Mário Novais. Em 1993 foi prémio ex-aequo junto a Xavier Alcalá no certame de narrações breves Manuel Murguia de Arteijo pelo seu relato Retrato antigo:pinturas e superfícies. No mesmo certame recebeu em 2016 o 3º prémio pelo relato A Aranha de Sidney . Publicou em 2002 no livro comemorativo dos 10 anos do prémio Manuel Murguia o relato Porco Transgénico.
Em 1995 publicou Nocturnos indígenas na obra coletiva 7 Poetas com o grupo Hedral, do que formou parte.
Em Fevereiro de 2020 publicou Obscura Anatólia na editora Urutau, o seu primeiro poemário a título individual.
No âmbito da filosofia tem várias publicações em Portugal e na Galiza sobre o filósofo portuense José Marinho. Especialmente interessado pelas vias iniciáticas da Tradição primordial está a dirigir a sua criação atual na interação de filosofia, poesia, teatro e música para resgatar a conexão originária e viva da arte na sua função espiritual e sapiencial. Tenta ligar-se a um pensamento libertário que integre as sabedorias ancestrais e originárias da raça humana.
É colaborador da revista digital Palavra Comum onde tem publicado ensaio, poesia e narrativa.
José António Lozano Garcia

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  • Arturo Novo

    Se o autoconhecimento deve ser a nossa meta ou objetivo, qual é o caminho certo para atingir esse autoconhecimento? Ou não existe o caminho certo, simplesmente há caminhos por transitar?

    • José António Lozano

      Caro Arturo, é difícil responder à tua pergunta sem dar lugar a ambiguidades ou mal-entendidos. Se eu disser que o caminho é tal ou qual não passaria de uma afirmação dogmática. Tu poderias concordar ou não, dar crêdito ou não, mas aqui o essencial é que um veja por si mesmo esta necessidade. Não creio por exemplo que seja algo que devamos fazer porque a ideia nos pareça atrativa ou porque pareça estar no ambiente e um sinta essa pressão, digamos. Sei que isto pode parecer frívolo porque para mim é uma das bases e necessidades da nossa humanidade mas não todo o mundo concorda, por dizê-lo suavemente. Muitas pessoas gostam de etiquetar e reduzir a questão a um problema de crenças e liquidanm o assunto. Mas voltando à tua pergunta:
      Existe um caminho certo que não é algo que se poda expôr ao jeito de um tratado de álgebra ou de física. É como se perguntamos: qual é o método para ser sincero? Podemos dar conselhos de um tipo ou outro; se estes são sinceros, pois deveriam ter um efeito sobre a possibilidade de que alguém atue sinceramente mas não há garantia, nem deveriamos atuar com a presunção de predeterminar ditos resultados. Há um caminho para ser sincero mas não é algo axiomático. Relacionarmo-nos com pessoas sinceras ajuda. Esta é a base dos caminhos tradicionais. É um autoconhecimiento implicado na relação com os outros.
      Na medida em que nós somos o lugar da experiência temos que experimentar e transitar por erros e equívocos como parte da aprendizagem. Quando temos um interesse em algo de jeito real começamos a encontrar cousas e tirar do fio, uma cousa leva-nos a outra. Pouco mais podo dizer, polo momento, excepto deixar-te uma fábula dos anos 60 de um autor (Idries Shah) que me ajudou pessoalmente muito. Um forte abraço

      https://virginiallan-cantilenadocorvo.blogspot.com/2008/07/como-hoje-o-dia-est-ameno-e-eu-mais-ou.html

  • Arturo Novo

    Ufff….! José António, agradeço imenso o teu esforço em responder à minha pergunta. Mas acho que não era necessário, pois a minha pergunta era um tanto retórica. Para mim, ninguém se pode autoconhecer a sim mesmo olhando unicamente cara si. Só através dos demais, interatuando com eles, nos poderemos conhecer. Por não asegurar que nunca acabaremos de autoconher-nos. Em realidade, somos um mistério para nós mesmos. E com certeza, não há caminho certo, um caminho que lhe podamos indicar aos demais. Muito obrigado.

    • José António Lozano

      Obrigado a ti, Arturo. Foi uma ocasião para dizer alguma cousa porque provavelmente não só te respondo a ti mas a outras pessoas que podem estar a pensar de jeito parecido ou ter as mesmas inquedanças.